sexta-feira, 28 de novembro de 2008

O mito do cara perfeito


Existem dois extremos nas expectativas das mulheres em relação aos homens.
Há aquelas que estão à procura de seu príncipe encantado, que acreditam em fadas-madrinhas, bailes maravilhosos e em reconhecer o grande amor da sua vida no momento mágico de conexão daquele primeiro e inesquecível olhar.
Há aquelas que dizem não acreditar em príncipes encantados, que guardam os homens todos na pasta "nenhum realmente presta". Não acreditam em relacionamentos duradouros, por isso não os procuram, tendo diversos e ocasionais.
Sofrem menos e choram menos que as primeiras? Possivelmente, não tenho como saber...
Mas o curioso é que tanto umas quanto as outras acreditam na mesma coisa: no mito do cara perfeito. A diferença é que as primeiras acham que ele é real e estão correndo atrás; as outras, como entendem que é só um mito, preferem cuidar de outras coisas...
Há alternativa? Sim. Mandar o mito pro espaço!
Todos os homens são mais ou menos falíveis, inventam mais ou menos desculpas, são mais ou menos preguiçosos, todos têm cuecas velhas (que acabam sendo tiradas nos momentos mais interessantes)... E daí? São caras reais que a gente vê, ouve, cheira, toca, lambe, morde.
Nenhum cara tem de ser perfeito. Basta ter defeitos que a gente consiga aceitar, com que consiga viver... e sem ser menos feliz por causa deles!

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Lógica sutil e fascinante

O professor andava cansado de dissertações imensas. Quando não têm certeza da resposta, muitos alunos esperam que, ao expor o assunto daquele capítulo inteeeiro que aparentemente “tem a ver” com a questão proposta, o acerto seja capturado pelo professor no oceano dissertativo e garanta os pontos necessários na nota.
Certo professor entregou as folhas de prova informando que, quanto mais escrevêssemos, mais ele tiraria pontos.
Não resisti. Tive que perguntar:
— Então, quem entregar a prova em branco vai tirar a nota máxima?


***

Outro dia, depois de trabalhar o dia todo, cheguei a casa e o Pedro, meu filho adolescente, estava deitado no sofá, diante da TV. Primeiro, pediu que eu preparasse um chocolate; em seguida, um lanche. Eu disse que não era aceitável. Cansada como estava, por que eu deveria fazer algo pra ele, se ele não estava fazendo nada? Disse a ele que, a partir daquele momento, só atenderia aos pedidos aceitáveis.
Ele então perguntou pra mim quais eram os pedidos inaceitáveis.
Esperto!...
O que ele pretendia? Ah! Que quando eu me recusasse a fazer qualquer uma das infinitas coisas que ele pediria e provavelmente eu teria esquecido de listar, ele poderia me dizer que aquilo não estava entre os pedidos inaceitáveis e, portanto, eu tinha que atender...

***

Lógica. É tão sutil e fascinante.
Se meu filho perguntasse pela lista de pedidos aceitáveis, inúmeras coisas que ele costuma pedir ficariam de fora. Mas ele tentou me fazer cair na armadilha, perguntando o que eu não estava disposta a fazer, porque eu provavelmente esqueceria de citar zilhões de coisas...
Quanto ao professor, ele se corrigiu em seguida, mas não sem reconhecer que fiz uma inferência válida.
Isso serve pra lembrar de prestar muita atenção ao que se ouve... e igualmente ao que se fala...


domingo, 23 de novembro de 2008

Lágrimas do dragão

Cat.: Safe (best!) music
Gên.: Metal
Artista: Bruce Dickinson

Música: Tears of the dragon

3. A vida como harmonia

O terceiro item proposto em Como praticar uma educação viva? consiste em "que ajude a perceber que a harmonia e a beleza fazem parte de uma vida satisfatória, por isso é importante cultivá-las dentro de si e em torno de si".
A harmonia, de todos os conceitos, deve ser o que menos passa por um registro intelectual. A sensação de harmonia surge de uma contemplação estética. Por isso, arte, música, contato com a Natureza são importantes aqui. Os contos ajudam imensamente a desenvolver o sentido de beleza e harmonia, refinando-o.
Um de que sempre me lembro é sobre Maat. Alguns dizem que Maat era uma deusa, mas ela funcionava mais como a personificação de um princípio universal que propriamente como uma deusa, o princípio da verdade, justiça e harmonia universal.

Harmonia interior: Ouvir e interiorizar significados de histórias e mitos é um dos possíveis caminhos para esse aprendizado. Ainda, sobre Maat.
Os antigos egípcios acreditavam que as pessoas que morriam eram julgadas por seus atos na vida. A forma era simples: pesava-se o seu coração diante de Toth, o escriba dos deuses, sendo que no outro prato da balança era colocada a pluma que pertencia ao diadema de Maat e que representava justiça, verdade, harmonia. Se o coração pesasse mais que a pluma, a pessoa era devolvida a Ammut (uma deusa parte crocodilo, parte hipopótamo, parte leão) para ser devorada. Mas se os pratos se equilibrassem, ela poderia celebrar a bem-aventurança com os justos.
As histórias, tornando conceitos concretos, facilitam transmitir às crianças certas lições. Pensentir uma história como essa (sugiro não usar mitologias católicas, nem histórias ligadas a religiões atuais) pode conduzir a um diálogo riquíssimo. Ah! Uma atividade muito boa pra trabalhar isso, chama-se "Pense de novo", mas não cabe falar dela aqui, agora.
Harmonia exterior: É aquela que penetra pelos cinco sentidos materiais e pelos sentidos espirituais, e que nos provoca admiração e encantamento, compreensão da infinita inteligência de Deus, respeito pelos outros seres humanos, animais, vegetais... Passeios ao ar livre, brincadeiras no parque, no sítio, em momentos de atividade e momentos de quietude. Contemplação das grandes obras de arte produzidas em todos os séculos. Estas e outras possibilidades relacionadas ao próprio dia a dia, à sensibilidade para o que normalmente não nos chama a atenção no cotidiano, estão nas mãos do educador para realizar este item da educação viva.

A continuidade de momentos de percepção da harmonia interna e externa acabará propiciando o que vou chamar provisoriamente de "experiências de fusão" com o todo, cada vez mais refinadas, cada vez mais facilmente alcançáveis, que irão sedimentar as conquistas éticas, ajudar a ser e agir na justiça e na verdade, bem como reconhecer e reverenciar a beleza, não por raciocínio ou escolha passageira, mas como atitude permanente.
Alguma biografia, Rita? Algumas, tô me lembrando agora de Pitágoras, o filósofo grego, e de Francisco de Assis.

sábado, 22 de novembro de 2008

2. A vida como escolha

O segundo item do post Como praticar uma educação viva? era "que mostre que existem em nós e na sociedade padrões internos que afirmam a vida e outros que a negam, e que escolhemos sempre qual dos dois apoiamos, recebendo as conseqüências".
Entendo "afirmar a vida" como sendo compreender o propósito mais profundo do viver e disponibilizar-se para realizá-lo da melhor maneira possível. Afinal, a vida é a escola onde a sabedoria divina nos inscreveu e onde a evolução moral e intelectual ocorre - no espaço e no tempo da vida.
Disso decorre que as práticas educativas não podem negar nossas necessidades vitais. E não só isso, o educador precisa fazer-se atento ao movimento da vida, aos seus ciclos, às suas leis - algo que me atrai muito na pedagogia Waldorf.
Para a atividade pedagógica, isso implica em recordar permanentemente que todo viver consciente é uma sucessão de escolhas. Uma forma de tornar isso claro para a criança, é apresentar a forma como nossas decisões operam em nossas vidas. Mas não somente isso, pois elas também repercutem em ondas de conseqüências que muitas vezes vão além da nossa possibilidade de conhecimento - tal reflexão criaria o sentido da responsabilidade por si mesmo, pelo próximo e pelo mundo. O trabalho em torno desse item conscientizaria também para a escolha e a vivência das próprias escolhas como meios de transformação de si mesmo, do meio mais próximo e, ampliando o raciocínio, mostrando como aquilo que afirmamos ou negamos também afirma ou nega o destino do nosso planeta.
O levantamento da história de como o Ensaio sobre a desobediência civil, escrito por Thoreau em 1849 nos EUA, foi influenciar Gandhi na luta pacífica pela independência da Índia que se concretizaria, em 1947, podia ser uma pesquisa e uma atividade realizada com as crianças.
Ué, Rita, mas vc não disse pra gente focar em personagens contemporâneos, sugeriu Betinho e Roberto Carlos Ramos? Sugeri. Mas não limitei - kkk. Vc não precisa se limitar...

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

1. A vida como dádiva

Retomando o tema do post Como praticar uma educação viva?, propus três focos principais o primeiro dos quais era "q apresente a vida como a grande e infinita dádiva q temos para usar do jeito q quisermos".
A vida imortal nos foi dada desde nossa origem como Espíritos, não podemos fugir, não podemos abdicar dela, nem desistir. O perene aprendizado e caminhada rumo à felicidade são contemplados na trilha das reencarnações, embora cada passo, na fase humana da evolução, derive do exercício do livre-arbítrio.
Mas a vida terrena presente é uma oportunidade de experiências internas e externas de aprendizado espiritual, possíveis não apenas por sermos seres inteligentes da Criação mas pela ligação, molécula a molécula, com um corpo físico. Ele é nosso abrigo e nosso instrumento, é nosso campo de sensações e oferece possibilidades de agir na matéria.
A vida como dádiva pode começar a ser descoberta em nós, pela percepção e conhecimento de nós mesmos. No caso da criança, esse conhecimento parte da autopercepção corporal, dos cuidados consigo mesma, da compreensão da delicadeza de nossa constituição física pensada para permitir pensar, sentir e agir segundo a nossa vontade e nos melhorarmos como Espíritos.
Como trabalhar isso? Dança, movimento, expressão corporal, exercícios de teatro, produção de sons e ritmos usando partes do corpo. Hein? Não tem idéia do q é isso? Então assiste Barbatuques:



A vida como dádiva se encontra na alegria dos bons momentos, relembrados com prazer, quando vencemos o desafio, quando chegamos ao alto de uma montanha ou ao fim de uma jornada, quando estivemos em companhia das pessoas que nos compreendiam e compartilhavam de nossas mais íntimas reflexões.
Como trabalhar isso? Livros (sugiro Heróis e Guerreiras - Quase tudo o que você queria saber, de Heloísa Prieto, pela Cia. das Letrinhas), fotos de momentos alegres trazidos de casa, casos compartilhados, casos da vida de personagens históricos importantes, momento "tenho uma coisa muito legal pra contar" em roda.
A vida como dádiva se encontra nas possibilidades diárias de decidir e renovar-se, excluir o que não serve e investir no que promete ser bom e dar bons resultados.
Como trabalhar isso? Biografias de Roberto Carlos Ramos, Betinho, etc. De preferência, personagens contemporâneos, para melhor identificação.
Fazer o q quisermos com nossa vida se refere à liberdade de escolha e ação. Viver é escolher; escolher também é abrir mão. As escolhas conscientes diminuem o grau de sofrimento enfrentado e de arrependimentos. Quantos de nós já sofremos por escolhas q acabaram se mostrando equivocadas? Observar que somos seres q decidem e se constroem a partir de sua decisão será o objetivo permanente da tarefa do educador, propondo a esse respeito questionamentos e pensentindo junto aos alunos.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Como praticar uma educação viva?


Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os fatos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que tinha a me ensinar, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido. Não desejava viver o que não era vida, a vida sendo tão maravilhosa, nem desejava praticar a resignação, a menos que fosse de todo necessária. Queria viver em profundidade e sugar toda a medula da vida, viver tão vigorosa e espartanamente a ponto de pôr em debandada tudo que não fosse vida, deixando o espaço limpo e raso; encurralá-la num beco sem saída, reduzindo-a a seus elementos mais primários, e, se esta se revelasse mesquinha, adentrar-me então em sua total e genuína mesquinhez e proclamá-la ao mundo; e se fosse sublime, sabê-lo por experiência, e ser capaz de explicar tudo isso na próxima digressão. (Trecho de Walden, ou a vida nos bosques)


Essas palavras, pra mim, valem por um manifesto que eu assinaria. Viver e vida são palavras que, juntas, foram usadas nada mais e nada menos que 10 vezes nesse trecho. (Um "10" pra quem liga ou é um "pitagórico".)

Bem, partindo disso, uma das coisas que andei meditando, em torno de Thoreau, é o seguinte: como "sugar toda a medula da vida" entraria num projeto pedagógico?

O simples e adorável livro de Yvonne Berge, Viver o seu corpo, me mostrou algumas respostas, mas ainda não avançou o bastante. O Emílio, de Rousseau, ajuda maravilhosamente...

Bem, a pedagogia que vislumbro a fim de que a criança se perceba viva e apta a sugar seiva da vida, seguindo os princípios do Walden, é uma pedagogia:


  • que apresente a vida como a grande e infinita dádiva que temos para usar do jeito que quisermos;

  • que mostre que existem em nós e na sociedade padrões internos que afirmam a vida e outros que a negam, e que escolhemos sempre qual dos dois apoiamos, recebendo as conseqüências;

  • que ajude a perceber que a harmonia e a beleza fazem parte de uma vida satisfatória, por isso é importante cultivá-las dentro de si e em torno de si.

O que isso teria a ver com uma proposta pedagógica espírita? Tudo! Viver é perceber-se corpo, o que afinal decorre da compreensão espírita do processo reencarnatório, que implica em estar ligado a todas as células dele. Mas quanto de fato nos sentimos assim? Qual nosso grau costumeiro de consciência corporal, de mobilidade, de saúde física geral?

Uma proposta de educação do corpo e do movimento tb não nos leva só ao outro extremo, da atividade constante. Como em tudo o que é sábio na vida e na Natureza, há que se chegar a um equilíbrio. Como na vida!

Fazer > sentir > refletir > escolher > transformar = vida!
ou
Refletir > escolher > fazer > sentir > transformar = vida!

Depois vou escrever mais...

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Liberdade de todos, consciência de cada um

Pessoas reprimidas, que passam a vida se segurando e se prendendo, não compreendem o sentido da liberdade. Ou melhor, embora tenham uma idéia de liberdade em teoria, metem "os pés pelas mãos" na hora de exercitá-la.
Elas não compreendem, por exemplo, que a liberdade é de todos, mas a consciência é de cada um.
Imaginam que liberdade é fazer o que se quiser, no momento do impulso, mas sem lembrar de que não se está sozinho no mundo e que o que se faz tem conseqüências para si mesmo, para sua vida, para outras pessoas e para o planeta. Funcionamos numa rede invisível - curioso, falei disso domingo! - onde cada gesto mexe com tudo.
Muitos imaginam que a ausência de intencionalidade inicial justifica o que está feito, mesmo depois que já houve mais que tempo para o discernimento concordar, discordar ou, simplesmente, fazer algo a respeito antes de haver mais estragos.
Há mais coisas em jogo que o poder conferido pelo livre-arbítrio. A questão que se põe a cada momento é: poder fazer algo significa que aquilo é o melhor a fazer? O que é preciso considerar? Tudo te é lícito, mas nem tudo te convém, escreveu Paulo de Tarso. Maturidade emocional não significa apenas sentir-se livre para agir conforme a própria vontade, mas ser capaz de avaliar também conseqüências de ações. Crianças que receberam uma educação repressora, que não crescem acostumadas a escolher e observar consequências, tornam-se adultos que não amadureceram emocionalmente, não se emanciparam (como diria Kant em O que é "Aufklärung"?), não se tornaram autônomos (como diriam Pestalozzi e Piaget). Não sabem o que fazer quando ganham licença pra dirigir, direitos políticos, camisinhas pra levar na carteira, essas coisas. Precisam de tutores ou se perdem. Por isso, em educação, o diálogo em torno de valores como liberdade, amizade e cidadania precisam caminhar juntos.
Valores formam uma escala de prioridades. Ela não é a mesma para todos. Por exemplo, para uns, a amizade está em primeiro lugar; para outros, viver o momento. Isso é o que significa dizer que a consciência é de cada um. Talvez o conceito de amizade do outro, o degrau onde ele a coloca, não sirva para mim. Cabe a mim decidir, com a minha consciência. Talvez sirva, com ressalvas (?).
Refletir sobre isso é importante porque tudo aquilo que fazemos, seja escola, empresa, projeto, família, é feito das pessoas que o compõem. Escolas (empresas, projetos, famílias) e pessoas são inseparáveis. O que é uma escola sem pessoas? O que é um projeto sem pessoas? Agregamos nossas atitudes e valores, quando nos unimos para realizar algo. E se estamos falando de viver num planeta melhor, só dá pra fazer isso elevando nossa escala de valores.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

A outra face de Marie Curie


Marie Curie (1867-1934) é muito conhecida por ter sido cientista, por desenvolver trabalhos na área da radioatividade e por ter recebido duas vezes o prêmio Nobel: na primeira vez, em 1903, ela dividiu o de Física com Pierre (seu marido) e Becquerel, por estudos sobre radiação espontânea; na segunda, em 1911, ela recebeu o Nobel de Química sózinha, também por sua pesquisa sobre radioatividade.
Quase ninguém, no entanto, conhece outra faceta dessa mulher ex-tra-or-di-ná-ria que é revelada neste livro, Aulas de Marie Curie, anotadas por Isabelle Chavannes em 1907, que é publicado pela Edusp.
O projeto das aulas fazia parte de uma espécie de cooperativa de ensino. Um grupo de pais resolveu se juntar e levar conhecimento aos seus filhos. Os alunos, alguns dos quais futuros cientistas, guardariam para sempre as recordações dessas aulas.
Diz Yves Quéré no prefácio: Esta mulher dedicada como ninguém à atividade de pesquisa, esta combatente de vanguarda, (...) fizera a aposta de ensinar a física mais elementar que existe, dirigindo-se às crianças e fazendo-as descobri-la por si mesma. (...) Mudança de uma ciência vertical - conhecimentos despejados por um cérebro no outro - para uma ciência horizontal em que a criança, guiada pela mão do adulto, avança sem dificuldade no campo do saber.
Bem entendida, a palavra-chave desta mudança é a passagem à ação, isto é, à experiência.
Marie imaginou um modo prático e divertido de ensinar coisas e as aulas têm títulos instigantes, como "Aula 3, em que se compreende como a água chega à torneira", ou "Aula 10, em que se fabrica um barômetro".
O livro reproduz desenhos e anotações de uma das alunas, Isabelle Chavannes, na época com 13 ou 14 anos, encontradas por um dos alunos na Universidade de Bourgogne.
Eu fiquei e estou indescritivelmente comovida perante esse material sobre uma cientista de tantos méritos, que também entendeu a importância de ensinar ciência às crianças de um jeito prático e eficiente. Amei esse livro, porque ele une duas das minhas paixões, ciência e pedagogia, de uma forma tão especial, que só me resta dizer: você precisa conhecer também!!!

Está valendo a pena?


Uma das coisas que me inspira na escrita de Thoreau, em Walden, ou a vida nos bosques é a ausência de qualquer artificialismo. É um olhar cuidadoso e carinhoso para as coisas mais simples da vida, uma planta, um gato, um céu estrelado. É o abandonar-se a uma experiência sensorial intensa, porém não vazia de sentido, já que faz refletir, produz pensamentos, emoções e atitudes.
É comum ver-se (especialmente e infelizmente) pessoas muito jovens anestesiando o pensamento e a reflexão por meio de som alto demais, bebida forte demais, comida demais, chocolate demais, estímulo sexual demais, jogos eletrônicos demais. Uma hipótese para explicar essa overdose de estímulos é a carência de sensações agradáveis legítimas na vida comum. Busca-se, talvez, recuperar, através do excesso, algo da experiência cotidiana que deveria emergir da sensibilidade, mas que ficou embotado, perdido, esquecido aos poucos pela vida.
Também inventamos uma parafernália tecnológica para viver melhor e tentar ser felizes, que não nos deu realmente, nem uma coisa, nem outra. Temos algumas facilidades, sim, nestes dias que correm. E o que faço aqui é fruto de uma delas: colocar pensentimentos num blog, deixar alguém do outro lado do planeta ler o que escrevi, daqui a alguns minutos. É ótimo poder fazer isso. Mas trocaria este fazer por outros fazeres. Trocaria estar diante do PC por uma caminhada, por um bom papo, por um suco de melancia ou abacaxi - exceto se tivesse texto para escrever com prazo para entregar, que é parte do meu ofício e de minha rotina de estudante.
A questão é de escolha.
Viver é escolher; escolher também é abrir mão. Já pensou que, às vezes, abrimos mão das coisas que nos farão mais falta?
Por estranho que pareça, nem sempre a melhor escolha precisa ser a da maioria, a que todos considerariam a mais inteligente.Do que vc abriu mão ultimamente, e em nome de quê? Seguindo idéias de quem? Está valendo a pena?

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Conexões: entre Calunga e Reich


Vá além das convenções do mundo, das suas noções de certo ou errado, de bom e ruim, e olhe as coisas como são, e não pelas classificações. (Atitude de Reich na ciência e na vida.) Eu não sou bom nem ruim, nem sábio, nem ignorante, no fundo de nós ninguém é católico ou espírita, João ou Pedro, preto ou branco, homem ou mulher, encanador ou bancário ou médico. No fundo de nós, cada um é só a sua verdade (a minha realidade onde eu sinto, minha objetividade-entre-parênteses, e não a verdade que eu penso possuir e imagino que o mundo deve aceitar como boa pra todos, a objetividade-sem-parênteses) , e se eu mostro a minha e você mostra a sua, a gente não tem por que não se entender. (Trecho de Mestre de Mim Mesmo, de Calunga; parênteses vermelhos de Rita.)
***
Não sou nem cristão, nem judeu, nem maometano, mórmon, homossexual, polígamo, anarquista ou membro de seita secreta. (Reich e Calunga, tão perto, né?!)
Faço amor com a minha mulher porque a amo e a desejo e não porque tenha um certificado de casamento ou para satisfazer as minhas necessidades sexuais.
Não bato nas crianças, não vou à pesca e não mato veados nem coelhos. Mas não atiro mal e gosto de acertar no alvo.
Não jogo brídge, não dou festas com o fito de divulgar as minhas teorias. Se o que penso é correto divulgar-se-á por si próprio.
Não submeto o meu trabalho às autoridades oficiais de saúde, a não ser que elas possam entendê-lo melhor do que eu. E sou eu quem decide quem pode manejar o conhecimento e as particularidades da minha descoberta.
Observo estritamente o cumprimento das leis quando fazem sentido, e luto contra elas
(o que não é simplesmente ignorar, nem transgredir) quando obsoletas ou absurdas. (Não corras já para o presidente da Câmara, Zé Ninguém, porque se ele for um homem decente faz o mesmo.).
Desejo que as crianças e os adolescentes experimentem com o corpo a sua alegria no prazer tranqüilamente
(se os adultos não os enfiarem em salas de aula bolorentas cheias de pó de giz, pode ser um bom começo).
Não creio que para ser religioso no sentido genuíno da palavra seja necessário destruir a vida afetiva e tornar-se crispado e encolhido de corpo e de espírito.
Sei que aquilo a que chamas «Deus» existe, mas de forma diferente da que pensas: é a energia cósmica primordial do Universo, tal como o amor que anima o teu corpo, a tua honestidade e o teu sentimento da natureza em ti ou à tua volta.
(E a verdade dele continua... A gente se entende...) (Trecho de Escuta, Zé Ninguém!, de W. Reich; parênteses vermelhos de Rita)

sábado, 8 de novembro de 2008

Quem é o oprimido?


Quem é o oprimido do título Pedagogia do Oprimido, da obra de Paulo Freire? Será muito fácil pensar q é o outro, o oprimido pela pobreza, pelo desemprego, pela ignorância, pela falta de perspectivas de vida.

Mas a opressão não se reduz a algumas pessoas na sociedade. Todos são oprimidos quando a estrutura social se baseia em relações doentes de poder. Oprimidos por um moralismo hipócrita, por alguma visão religiosa, pela possibilidade de desaprovação alheia, por idéias impostas de consumo, por necessidades artificiais engendradas pela propaganda, por mídia jornalística, por tendências de moda, por modelos de sucesso profissional... E é uma opressão invisível, de modo q vc provavelmente nem percebe.

Roupas. A opressão invisível faz vc pensar que gosta de se vestir de uma certa forma e por isso é q o faz. Mas ao fazê-lo vc aceita se tornar apenas uma cópia de milhares de outras pessoas. (Tô tão cansada de ver td mundo numa certa idade vestido praticamente igual!!) Vc na faixa dos 30 ou 40 não ri de algumas fotos do passado? Alguns dos videoclipes dos anos 80 não lhe parecem ridículos hj em dia? Mas não lhe pareceu "maneiro" usar aquelas roupas e cabelos, algum dia? Não foram peças vendidas (e compradas por vc) como padrões de beleza?

Bem, vc foi usado pela indústria da moda para fazer dinheiro... E qto mais caro vc pagou uma calça ou sapato, mais eles enganaram vc... Moda é apenas uma das formas sutis de fazer vc perder contato com vc mesmo, com seu gosto pessoal, com sua preferência, pra depois vc comprar uma imagem que não é vc.

Emprego. Ao escolher uma profissão para se enquadrar num nicho do mercado de trabalho, vc abre mão de seu sonho e sua vocação? Pense nisso. A educação tradicional é freqüentemente destinada a enquadrar vc nesse esquema de opressão, com uma ilusão de sucesso numa carreira, como se subir numa empresa fosse o mesmo que felicidade. Talvez vc deva se perguntar se vai ser mesmo feliz com o que está fazendo da sua vida.

O que faz de vc, vc? Qual é a sua marca, a sua característica única e individual? Não precisa ser uma marca exterior, não falo de algo como um "logo" ou distintivo, como um anel, um relógio, uma tatoo. A marca da sua individualidade não é explícita, mas é sua identidade perante o mundo, como as pinceladas numa tela de Monet ou as cores primárias numa tela de Miró.

Agora, td bem se não conseguir saber agora, pois pra saber quem vc é, precisa primeiro se sentir livre pra ser vc...

Conexões: sobre aprender fazendo

Toda a comunicação é semelhante à arte. Por conseqüência, pode-se perfeitamente dizer que, para aqueles que dela participam, toda prática social que seja vitalmente social ou vitalmente compartilhada (quero destacar o "vitalmente", nas duas expressões) é por sua natureza educativa. Só quando lançada em um molde e tornada rotineira é que perde seu valor educativo (como diagnosticar?). (Trecho de Democracia e educação, de John Dewey; parênteses vermelhos de Rita)

***
Se estamos dispostos a crer na ação de ensinar, e se queremos que nossos filhos aprendam a pensar e agir por si mesmos, precisamos confiar neles. Só quando pratiquem o pensamento, a escolha e a responsabilidade (grifos meus), é que podem aprender a pensar, a escolher e aceitar a responsabilidade. (Trecho de Educação para uma civilização em mudança, de W. H. Kilpatrick; parênteses vermelhos de Rita)

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Quando uma comunicação deixa de ser vital? I. e., quando é q a comunicação morre? Quando é q a gente mata a comunicação?
Será q, ao matar a comunicação, tb não matamos algo em nós, ao mesmo tempo?
Se tiver alguma idéia, responde com um comment.
Pode ler tb o post Conquista.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Meu encontro com um livro

Walden, ou a vida nos bosques, de H. D. Thoreau, é um dos livros preferidos da minha vida. Ele surgiu num momento importante, ele me fez pensar coisas com q sempre concordei sem saber q haviam sido ditas há tanto tempo. Coisas q espero um dia conseguir viver, se tiver coragem suficiente...
Depois, Walden ficou na minha estante, cuidadosamente guardado. E acabou me aproximando de um de meus melhores e mais especiais amigos neste mundo, aquela pessoa q parece ler o q penso, que quando conversamos é como se meus pensamentos se prolongassem nos dele e, creio, o mesmo ocorre de lá pra cá.
Precisa mais, pra ser um livro especial?

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Conexões: sobre teorias científicas


Relatos observacionais, resultados experimentais e enunciados “factuais” ou contêm pressupostos teóricos ou os afirmam pela maneira em que são usados. (...) Assim, nosso costume de dizer que “a mesa é marrom” quando a contemplamos em circunstâncias normais, com nossos sentidos em boas condições, mas “a mesa parece marrom” quando as condições de iluminação são deficientes ou quando nos sentimos inseguros a respeito de nossa capacidade de observação, expressa a crença em que há circunstâncias familiares nas quais nossos sentidos são capazes de ver o mundo “como ele realmente é”, e outras circunstâncias, igualmente familiares, em que eles são enganados. Expressa a crença de que algumas de nossas percepções sensoriais são verídicas, ao passo que outras não. (Paul Feyerabend, em Contra o Método)
***
Encarada do ângulo da vida sem couraça (Reich já intuia a "objetividade entre parênteses" do Maturana), a teoria científica é um ponto de apoio no caos dos fenômenos vivos (biologia do conhecer, Reich idem). Serve, por isso, ao objetivo de uma proteção psíquica. Não há muito perigo de que se seja tragado por esse caos, quando se classificaram nitidamente, se catalogaram, se descreveram - e por isso se pensa haver compreendido (grifo meu) - esses fenômenos. Dessa maneira, é até mesmo possível dominar cer(como se deseja isso, em ciência!) certa porção desse caos. Isso me trazia um consolo muito pequeno (a mim tb). (W. Reich, em A função do orgasmo; parênteses vermelhos por Rita)

sábado, 1 de novembro de 2008

Para uma pedagogia do movimento

O homem é uma unidade psicossomática. Toda a orientação do trabalho [proposto neste livro, ver título abaixo] dependerá, pois, da qualidade e da profundidade da noção que o professor possa ter desta unidade. Não lhe bastará concebê-la ao nível do espírito, ser-lhe-á necessário vivê-la. Isso lhe proporcionará uma visão global de seus alunos e lhe permitirá captar as informações transmitidas pelo mínimo gesto, o modo de estar, o ritmo, o que o capacitará a adaptar para cada aluno um comportamento pedagógico que tenha em conta os dados psicológicos assim revelados.
(Yvonne Berge, em Viver o seu corpo - para uma pedagogia do movimento, Ed. Compendium)

Esse livro é mto lindo e simples, bem o tipo de coisa q me agrada mto. Ele fala de "descobrir-se, libertar-se, desenvolver-se", "retomar um contato natural, hamonioso com os outros, com a natureza". É tão óbvio q, depois de perceber como funciona, fica mto difícil pensar diferente. Me acompanha:

Consciência das sensações > consciência dos sentidos > consciência corporal > consciência do sentir > consciência do meu sentir > consciência do sentir do outro > sensibilidade.

A educação intelectual faz um outro caminho, eventualmente ele nos torna mais sensíveis, mas não como objetivo do processo pedagógico. Qual sua opinião?