domingo, 31 de maio de 2009

Topografia de uma realidade não comum


Escolhi a expressão "realidade não comum", porque se coadunava com a afirmação de dom Juan, de que esses encontros se realizavam numa continuidade de realidade, uma realidade que era apenas ligeiramente diferente da realidade comum da vida cotidiana. Conseqüentemente, a realidade não comum tem características específicas que podem ser avaliadas supostamente em termos iguais para todos. Dom Juan nunca formulou essas características de maneira definida, mas sua reserva parecia originar-se da idéia de que cada homem tinha de reivindicar o conhecimento como assunto de natureza pessoal. (C. Castaneda, em A erva do diabo; vermelhos meus)


Ao tempo em que fazia curso de graduação e estudava mecânica quântica, eu e meus colegas passávamos horas discutindo assuntos esotéricos do tipo: poderá um elétron estar realmente em dois lugares ao mesmo tempo? Eu conseguia aceitar que um elétron pudesse estar em dois lugares ao mesmo tempo; a mensagem da matemática quântica, embora cheia de sutilezas, é inequívoca a esse respeito. Mas um objeto comum — digamos, uma cadeira ou uma mesa, objetos que denominamos de "reais" — comporta-se também como um elétron? Será que se transforma em ondas e começa a espalhar-se à maneira inexorável das ondas, em todas as ocasiões em que não o estamos observando?

Objetos que vemos na experiência do dia-a-dia não nos parecem comportar-se das maneiras estranhas comuns à mecânica quântica. Subconscientemente para nós é fácil sermos levados acriticamente a pensar que a matéria macroscópica difere de partículas microscópicas — que seu comportamento convencional é regulado pelas leis newtonianas, que formam a chamada física clássica. Na verdade, numerosos físicos deixam de quebrar a cabeça com os paradoxos da física quântica e sucumbem à solução newtoniana. Dividem o mundo em objetos quânticos e clássicos — o que me acontecia também, embora eu não me desse conta do que fazia. (Prefácio de Fred Alan Wolf para O universo autoconsciente, de Amit Goswami)


Ingênua e incoerente: assim pode ser considerada a concepção que a ciência materialista nos tem apresentado da realidade. Possivelmente, porque ela faça questão de se manter firme a contemplar uma estreita fatia desta realidade. Ela têm evidentemente uma "metafísica", embora possa dizer que detesta esta palavra. Metafísica que decide "o que há", como esta que divide o mundo em objetos 'clássicos' e 'quânticos', e rejeita a outra metafísica dos que admitem níveis de realidade que poderiam ser considerados níveis espirituais, não comuns, alternativos.

A pergunta que se impõe, então, é: o que torna o realismo dos materialistas melhor, mais satisfatório que o daqueles que afirmam conhecer e desvendar outras realidades?

Para mim, parece uma simples questão de escolha teórica, que Kuhn atribuiria à adesão de uma comunidade científica que preza certos valores e despreza outros. E o fato da relação com o conhecimento ser de natureza pessoal, assim como Castaneda escreve, transparece nas palavras de Goswami, no livro citado:

Mudaram as circunstâncias em que eu vivia e — após um sem-número de crises de ressentido estresse, que me caracterizaram a carreira competitiva na física—comecei a lembrar-me da alegria que a física outrora me dera. Compreendi que devia haver uma maneira alegre de abordar o assunto, mas que precisava restabelecer meu espírito de indagação sobre o significado do universo e abandonar as acomodações mentais que fizera por motivo de carreira. Foi muito útil neste particular um livro do filósofo Thomas Kuhn, que estabelece uma distinção entre pesquisa de paradigma e revoluções científicas, que mudam paradigmas. Eu fizera minha parte em pesquisa de paradigmas; era tempo de chegar à fronteira da física e pensar em uma mudança de paradigma.

Se considerarmos que escolhemos o que consideramos como real e que esta escolha se prende a nossas crenças e valores, não há porque defender que uma ciência materialista haveria de ser melhor do que uma ciência espiritualista, que aquela que separa é superior àquela que integra, que aquela que ignora/nega um sentido maior por trás da realidade visível seria superior àquela que consegue enxergá-lo.

Afinal, para qual realidade a ciência deve olhar?


quinta-feira, 28 de maio de 2009

Dom Juan, vermelhos meus, anotações para uma teoria do conhecimento



Depois de anos de esforço para manter as fronteiras da minha personalidade intactas, elas sucumbiram. (C. Castaneda, em A erva do Diabo)

Alguém numa estrada nos pede uma informação. A possibilidade de dá-la pressupõe um código comum. Se eu disser "vá para o Norte nos próximos 50 km, depois entre à direita", estou supondo que esse alguém tenha uma noção igual à minha dos pontos cardeais, do sistema numérico, das unidades de medida de distância e de lateralidade. Se ele fosse um ET sem estes referenciais, nós teríamos um problema, pois teríamos de encontrar uma linguagem que mediasse nossa comunicação. Poderíamos ser mais ou menos bem sucedidos nisso.

Quando penso num outro domínio de realidade, penso em outra linguagem (ou na sua desnecessidade). De qualquer maneira, comunicar o que nele vi a outra pessoa do meu mundo cotidiano é um processo que sofre certas limitações. Os Espíritos sempre lembravam Kardec da dificuldade de dizer o que se passava no mundo espiritual em termos de linguagem terrena. Nossa linguagem reflete nossa limitação e nossa possibilidade, que aqui podem ser considerados sinônimos.

No entanto, a linguagem não surge apenas na transmissão de um informe. A linguagem condiciona minha percepção desde o princípio. Os xamãs do México antigo sabiam disso.

Dom Juan, por exemplo, me alertou para o fato [de] que meu mundo cotidiano não era regido pela minha percepção, mas pela interpretação da minha percepção. (...) Ele disse que universidade não era algo que eu podia perceber com meus sentidos (...). Universidade acontecia somente no meu intentar, e para que eu pudesse construí-la ali, precisava de tudo que sabia como uma pessoa civilizada, de uma forma consciente ou subliminar.

O nominalismo presente nesta afirmação, onde se assume que as realidades abstratas são construtos humanos e não têm existência independente, pode levar a supor que tudo o que não é concreto é um construto.

Mas não é o que ocorre. 'Universidade' é como interpretamos uma certa configuração de fatores humanos e físicos, de propósitos e funções. Se a universidade não existisse, nós ainda estaríamos por aqui.

Porém, a coisa é diferente quando se fala de energia, de amor, de verdade, bem ou Espírito. Estas noções não surgem de nossa interação social, mas preexistem na forma de leis constitutivas do Universo. Por isso, ao ultrapassar o domínio comum da realidade, estamos em contato com uma outra realidade. A forma como ela se apresenta é, no dizer de dom Juan, "direta". Embora se possa imaginar níveis ainda mais sutis de realidade que é metamorfoseada em verdade, amor e energia, a experiência do amor não é uma descrição ou uma narração, não é passível de ser transmitida, apenas sentida e expressa "energeticamente". É fácil perceber isso: o tipo de mudança que o amor impõe à conduta não tem a ver com palavras, mas com maneiras de sentir e de agir a partir do que se sente.

O cognoscente

Na teoria do conhecimento que se depreende dos ensinamentos de dom Juan, o cognoscente (sujeito do conhecimento) não é um ser com objetivos aleatórios. Embora suas escolhas existam e tornem seu caminho mais ou menos fácil, mais ou menos prazeroso, mais ou menos generoso, há o que se considera um intento no Universo, algo que o Espiritismo chamou de Lei do Progresso e que Calunga ajudou-me a estudar como "impulsos da alma". Pode se dizer que os seres orgânicos e inorgânicos são manifestações de seres inteligentes em evolução anímica ou espiritual (no Espiritismo, individualizações do princípio inteligente; no Hinduísmo, jivas).

(...) Estamos sendo continuamente puxados, empurrados e testados pelo próprio universo. Para eles [os xamãs do México antigo] era um fato energético que o universo em geral é predatório ao máximo. (...) A condição predatória do universo significava que o intentar do universo é estar continuamente testando a consciência. (...) Exercendo pressão sobre todos esses seres [orgânicos e inorgânicos], o universo os força a expandir a própria consciência deles, e dessa forma o universo se esforça para se tornar mais consciente de si próprio. No mundo cognitivo dos xamãs, portanto, a consciência é o resultado final.

Dom Juan Matus e os xamãs de sua linhagem consideram consciência como o ato de estar deliberadamente consciente de todas as possibilidades perceptivas do homem, não apenas as possibilidades perceptivas ditadas por qualquer determinada cultura, cujo papel parece ser o de restringir a capacidade perceptiva de seus membros.

O papel restritivo da cultura nos remete à questão da linguagem que mencionei inicialmente. Contudo, se abrir mão de meus códigos habituais, se entendê-los como restrições e deliberadamente os ignorar, resistindo às tentativas de nomear e classificar imediatamente o que sinto/percebo, posso deparar-me com fatos passíveis de serem apreendidos "diretamente".

Dom Juan sustentava que liberar a capacidade perceptiva total dos seres humanos não interferiria de nenhuma forma em seu comportamento funcional. Na verdade, o comportamento funcional poderia se tornar um resultado extraordinário, porque iria adquirir um novo valor.

Se a energia flui de uma certa maneira, seguir o fluxo da energia é, para eles, ser funcional. Função é, portanto, o denominador comum através do qual os xamãs encaram os fatos energéticos de seu mundo cognitivo.

Uma epistemologia pergunta-se sobre o objeto do conhecimento. O conhecimento dos xamãs do México antigo parte da percepção dos fatos energéticos. Quer dizer, existe além das aparências da realidade que compartilhamos em estado comum de consciência, um fluxo, uma vibração, algo que é vislumbrado ao ser focado, mesmo em nossa vida cotidiana, mas que adquire uma condição de exacerbada presença num estado alterado, desde que pelos meios que ele sugere e com um propósito definido.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Epistemologia dos estados alterados: uma introdução


Um livro referencial sobre estados alterados de consciência foi escrito por Carlos Castaneda nos anos 60 do seculo XX e se chama A erva do diabo. O trigésimo aniversário da edição estadunidense foi comemorado com o acréscimo de comentários do autor. E estes comentários trazem elucidações importantíssimas do conhecimento dos xamãs como um conjunto de coerências operacionais (na expressão de Maturana) e um domínio legítimo de conhecimento. Castaneda explica sua perplexidade:
(...) dom Juan Matus me introduziu à cognição dos xamãs do México antigo. (...) A idéia de cognição era, naquele momento, meu maior obstáculo. (...) para o homem ocidental, só existe cognição como um grupo de processos gerais.
Para os feiticeiros da linhagem de com Juan, no entanto, existe a cognição do homem moderno, e existe a cognição dos xamãs do México antigo.

Esta cognição trazia um pressuposto: A internalização dos processos de um sistema cognitivo diferente sempre começava com o direcionamento total da atenção do xamã iniciado para o fato de que somos seres a caminho da morte. Dom Juan e os outros xamãs da sua linhagem acreditavam que a percepção plena desse fato energético, dessa verdade irredutível, levaria à aceitação da nova cognição.
Mais abaixo, Castaneda complementa: Eles sustentam que a cognição humana pode ser temporariamente interrompida, já que ela é apenas um sistema taxionômico no qual respostas têm sido classificadas junto com a interpretação de dados sensoriais. Quando essa interrupção ocorre, os feiticeiros afirmam que a energia pode ser percebida diretamente enquanto flui no universo.
Uma noção de conhecimento baseada na percepção de fatos energéticos e que pressupõe a morte como destino inevitável de todos os seres humanos é a chave da compreensão desse domínio do conhecimento. A compreensão da condição do Espírito que relata sua experiência (um encarnado na Terra que aprende com um outro ser mais experiente, também encarnado) possibilita aquilatar os valores expressos na obra. A pergunta é se e como tal conhecimento poderia adquirir o status de conhecimento científico. O que vc acha?

terça-feira, 26 de maio de 2009

Uma prece




Por Willi da Barros Gonçalves e João Bosco de Carvalho


Poderosa águia que há no alto do totem
Dai-me tuas asas, me ensina a voar
Cruzar os horizontes vencer montes e mares
Com a luz do saber, pela virtude de amar
Com tua força tamanha oh urso me ajude a superar
As barreiras da vida que eu venha a encontrar
E eu venho pedir a ti oh tartaruga que o totem estás a sustentar
Dai-me tua certeza de um dia poder chegar
A ver-te nas asas da águia,
Na força do urso,
Em todas as coisas criadas por ti
Eleva minh’alma me faz tão perfeito
Me leva a saber que estás dentro de mim
Oh Pai Nosso que estás nos céus
Santificado seja o seu nome em favor de todos nós........nós
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quinta-feira, 21 de maio de 2009

Quem é o cientista espírita?


A ciência espírita, cujo objeto é a relação entre os mundos visível e o invisível, é praticada por quem? Por cientistas num laboratório?
Considerando que seu laboratório são as reuniões mediúnicas e também que todos somos (mais ou menos) médiuns, quem seriam os seus pesquisadores e estudiosos? Os médiuns.
Contudo, as relações mediúnicas não se restringem aos médiuns que atuam em reuniões, pois todos somos médiuns e podemos reconhecer a existência dos Espíritos e do fenômeno mediúnico. E também há quem, sem possuir a mediunidade ostensiva, possa se aproximar de um grupo com fins de pesquisa e de fazer progredir a ciência espírita.
O conhecimento das leis que presidem as manifestações, portanto, não é restrito, mas aberto a todos aqueles que sincera e desprendidamente desejarem aprender sobre e usar a mediunidade. Do mesmo modo, seus frutos obtidos no intercâmbio com os Espíritos não se destinam apenas a um grupo restrito de pessoas qualificadas por diplomas e títulos, mas a toda a Humanidade. É assim que o Espiritismo rompe a fronteira da ciência, tornando-se um paradigma que promoverá uma renovação na cultura e nos costumes de nosso planeta.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Ampliando o cenário da ciência

A evolução se passa no domínio do intelecto – também. Mas não é só neste sentido que ela aperfeiçoa a ciência. Não se pode esquecer que embora Kuhn e muitos filósofos materialistas não considerem a melhora moral da Humanidade como um dado, no caso da ciência espírita ela existe como pressuposto. Os Espíritos estão inseridos num processo que os impulsiona a serem moralmente melhores de maneira contínua, e incessante.
Além disso, a escolha do cientista não é moralmente isenta e ele a utiliza em sua atividade, em sua forma de fazer ciência e de lidar com o conhecimento, seguindo normas que valorizam o egoísmo ou a solidariedade. Sendo ele uma criatura em processo inescapável de aperfeiçoamento moral, e sendo a ciência uma atividade que se ressente da ausência de ética e que se realiza mais satisfatoriamente em clima de honestidade, humildade e desprendimento, além do respeito pelos colegas e a cooperação, ela ainda cumprirá melhor sua função de melhorar a vida humana quanto mais se desenvolve e se aproxima do conhecimento das leis divinas.
Acresce ainda que temas que foram objeto da filosofia e metafísica, na Antigüidade, hoje são questões dignas de investigação científica. O átomo é um exemplo. Assim também, um dia, a moral será estudada cientificamente, como já ocorre na ciência dos Espíritos. Na perspectiva dos Espíritos superiores, os efeitos do desenvolvimento moral são apreciáveis objetivamente e podem ser sintetizados em leis que nos permitem explicar e predizer fenômenos. Algum dia, na história da Humanidade terrena, a moral fará parte da ciência, quando entendermos que o mundo dos Espíritos apresenta a dimensão moral, do mesmo modo que no plano físico estudamos o continuum espaço-temporal, e percebermos como sua perspectiva explica e complementa nossa atual compreensão do ser humano encarnado.
Um passo de cada vez
Aquilo que hoje para nós só pode ser deduzido por lógica e comparação com a ciência dos Espíritos, será um dia observado e experimentado. Esta não é uma proposição fortuita e isolada. Amit Goswami, em A física da alma, propõe uma ampliação do cenário da ciência, onde aquilo que antes era território da filosofia e da religião passe a ser encarado como noção científica. Diz ele:
Segundo minha experiência, lá pela meia-noite, especialmente sob um céu aberto e um pouco de álcool (do tipo ingerível) no estômago, até os cientistas mais empedernidos tornam-se um pouco espiritualizados. Nessas ocasiões, a idéia do espírito e seus cinco corpos faria sentido para eles. (...)
Mas o problema está na luz do dia. Apoiados na ilusão sólida da realidade material do dia, esses cientistas empedernidos professam total descrença em qualquer coisa que não seja a matéria, e comportam-se como se a existência de substâncias que não a física incomodassem sua sensibilidade científica ao máximo.
Muitas noções expostas até aqui ficam implícitas nesta observação do físico indiano: que o saber é de cada um; que ele se altera com a perspectiva e os valores; que a realidade não se resume ao perceptível com os cinco sentidos; que há sempre uma porcentagem de percepção e outra de ilusão em tudo o que chamamos de conhecimento e que estados alterados (no caso, por álcool do tipo ingerível) nos convidam a enxergar o mundo de outra maneira.
Acrescentaríamos que a ilusão diminui conforme aumenta o grau de evolução. E que ao permitir fazer ciência que não mais diverge das crenças, religião e valores pessoais do cientista, o Espiritismo
conduz a uma prática científica realmente íntegra, onde aquilo que o indivíduo possui como religião e noções éticas realmente não contradiz a ciência que ele faz.
Dessa forma, abusos e absurdos de uma prática científica direcionada por interesses egoístas, financeiros e estratégicos, darão lugar a uma ciência que sirva para aprimorar a qualidade de vida dos seres que compartilham o espaço deste planeta. Um caso triste, entre muitos, é o do mal de Chagas, que segundo o site de Médicos Sem Fronteiras, ameaça um quarto da população da América Latina, inclusive o Brasil. O problema está distante das preocupações da mídia, da indústria farmacêutica e dos governos e a razão é algo que se pode supor: sendo um mal que acomete populações pobres, a pesquisa torna-se pouco lucrativa para os laboratórios.
No entanto, a partir da mudança de paradigma, da mudança cultural promovida pela aceitação, por parte de cada cientista, de conceitos como Espírito, imortalidade, reencarnação, progresso espiritual, da visão de um mundo onde ele não é um ser à parte, mas pertencente a uma comunidade espiritual encarnada na Terra, problemas como estes seriam solucionados pela adoção de uma ética espiritualizada – e cientificamente fundamentada.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

A mediunidade e os teosofistas


Por Alice Krondcs (publicado na Revista Universo Espírita 56)


Oxford, Inglaterra, agosto de 2008


Maninho Saulo, quanta saudade!

Soube que se divertiu muito nos Estados Unidos, enquanto eu concluía minha tese, aqui em Oxford. Na sua carta, você diz que conheceu um grupo, que esteve lendo sobre teosofia e anda interessado em HPB, como os teosofistas costumam se referir a Helena Petrovna Blavatsky (1831-1891, foto ao lado), fundadora da Sociedade Teosófica.
Quer dizer, meu irmão, que andaram lhe perguntando sobre a possibilidade da comunicação dos Espíritos? É que os teosofistas não aceitam a prática da mediunidade, baseados principalmente na teoria dos “cascões astrais”, legada por HPB.
Segundo ela, cascões astrais seriam espécies de “cadáveres espirituais” deixados por Espíritos que desencarnam, que vagariam com uma vida fictícia e absorveriam a energia dos médiuns. Se fosse possível falar em termos espíritas, seria como se o perispírito (ou parte dele) fosse descartado e ainda pudesse aparecer nas reuniões mediúnicas, manifestando-se como um Espírito desencarnado.
Bem... Blavatsky foi uma mulher inteligente e tinha um projeto respeitabilíssimo. Ela entendia amplamente os males, tanto do materialismo, quanto da cegueira instituída pelas religiões institucionalizadas.
Mas não precisamos abraçar incondicionalmente o que foi escrito por seres humanos, por mais inteligentes, bem intencionados e inspirados que eles sejam.
Equivocar-se não é um demérito para HPB, nem para sua obra. Pelo contrário, mostra que todos aqueles que se propõem a trabalhar pelo esclarecimento da Humanidade estão sujeitos a enganos. Não seria um jugo pesado demais ter a obrigação da infalibilidade?
Sua definição de médium, no Glossário Teosófico, revela várias discrepâncias com o entendimento espírita: O médium é um instrumento passivo de influências estranhas, enquanto o adepto [da teosofia] exerce de modo ativo seu poder sobre si mesmo e sobre todas as potências inferiores. (Ísis Sem Véu, II, 588) Na mediunidade, o indivíduo, por ser passivo, está exposto à influência de qualquer entidade astral que se encontre nas imediações. Normalmente, é inconsciente; não sabe o que se faz através de seu organismo nem quem o faz; não recorda nada ao despertar de sua espécie de sono. Seu estado é aquele de uma verdadeira obsessão. Por outro lado, os melhores médiuns físicos são pessoas doentes, neuróticas, histero-epiléticas ou, o que é ainda pior, propensas a algum vício anormal.
O que Blavatsky diz deve basear-se na sua vivência e observação pessoais, mas não resiste a uma análise mais profunda. Sabemos, por grande lastro de experiência e pesquisa, que o médium não é um ser passivo durante o fenômeno, mas tem domínio sobre si, decidindo a hora, lugar e oportunidade de intermediar uma comunicação de Espíritos. O médium incapaz deste domínio é alguém que, precisa educar-se ou, então, passa por grave processo obsessivo – e precisa educar-se! Ao mesmo tempo em que se educa o Espírito obsessor.
Sobre a saúde mental dos médiuns, pergunto: você viu a tese de doutorado de Alexander Moreira de Almeida, defendida na USP em 2005, na qual, entrevistando médiuns atuantes em reuniões espíritas, ele constatou “alto nível socioeducacional, baixa prevalência de transtornos psiquiátricos e razoável adequação social”?
Quanto aos Espíritos, se seriam ou não “cascões”, o estudo mais acurado das comunicações e de outros fenômenos mostra que são manifestações de seres dotados de faculdades intelectuais plenas, são capazes de reflexões profundas e, muitas vezes, estão mais adiantados moral e intelectualmente do que quando estiveram encarnados. Não se pode falar, portanto, que o que se manifesta é um “pedaço astral” daquilo que foram no passado. O que você acha?
Escreva se tiver mais alguma questão e tentarei ajudar.

Um grande beijo,

Alice Krondcs

domingo, 17 de maio de 2009

Como fazer ciência espírita?

O Espírito em evolução é a consciência aprendente. O aprendizado promove progresso intelectual que precede o moral.
Os seres mais evoluídos intelectual e moralmente fazem uma ciência mais aperfeiçoada que os mais atrasados, porque refinaram seus instrumentos perceptivos e cognitivos, o que lhes permitiu uma compreensão mais completa e aprofundada dos mecanismos da Natureza e da natureza dos seres. Eles efetivam sua própria ciência, a ciência dos Espíritos, denominação que Paulo Henrique adotou, sobre a qual conversamos e que eu também utilizarei.
Quando estes seres mais adiantados trazem seu conhecimento aos humanos encarnados na Terra, eles não estão fazendo ciência por nós, mas sim fornecendo conceitos que podemos utilizar na elaboração da ciência espírita (a ciência dos encarnados que trata das relações entre os mundos visível e invisível), obedecendo ao mesmo princípio da solidariedade que mencionamos no post O papel da solidariedade na ciência, ou “nós” é o plural de nó. Assim, verificamos dois tipos de solidariedade: a solidariedade horizontal, surgida da colaboração entre seres de uma mesma categoria evolutiva no intuito de aprender e formular as bases da ciência espírita; e a solidariedade vertical, originária de planos superiores visando alavancar o progresso dos seres mais atrasados porém sinceros na sua busca pelo saber e a melhoria individual e social.
O que os Espíritos nos possibilitam, com sua revelação de princípios e leis, são as condições necessárias para que realizemos aquilo que Thomas Kuhn, em sua tese sobre o progresso científico, chama de mudança de gestalt, (i. e., mudanças na visão global do mundo), mudanças que segundo ele nascem da combinação de vários fatores que extrapolam a esfera meramente cognitiva, incluindo crenças e valores. Ou seja, os vislumbres da ciência dos Espíritos nos permitem enxergar os caminhos da ciência espírita. Os Espíritos nos oferecem uma nova forma de "ver o mundo", ao nos oferecer um ponto de vista e oportunidade de diálogo com eles. Este diálogo progressivo conosco depende do que já caminhamos intelectualmente, eles nos ajudam conforme evoluímos na nossa compreensão.
Uma objeção pertinente seria a de que a ciência espírita não passe de mais uma proposta de paradigma concorrente com outras, tidas como equivalentes. Um olhar puramente terreno poderia crer na correção deste pensamento. Contudo, aplicando as mesmas premissas (1-4, que expusemos no post Validade dos relatos mediúnicos) ao problema presente, perceberemos que onde Kuhn não via um caminho para uma verdade única, vemos a tendência evolutiva dos Espíritos que os dirige ao bem e à verdade das leis universais. Vemos nos ensinos dos Espíritos adiantados princípios de uma ciência mais completa e perfeita que aquela que praticamos, uma meta para onde direcionar nossos esforços.
A ciência espírita já não competiria com outras ciências por ter um objeto de pesquisa novo: as relações com o mundo espiritual. Seu escopo é observar fenômenos, reconhecer médiuns, aperfeiçoar a comunicação interplanos, dialogar e observar a que ordem pertencem os Espíritos comunicantes e comparar os conceitos dos Espíritos superiores com o conhecimento terreno atual.
Além disso, quando abrimos diálogo com os Espíritos, abrimos uma base de conhecimento única que esclarece fatos que Kuhn não pôde abranger. Um conhecimento que transforma as outras ciências naturais, a economia, sociologia, psicologia etc. Então, não há concorrência, há autosuperação de cada ramo científico pela integração dos conhecimentos expressos na ciência espírita.
Onde Kuhn viu a competição entre teorias e paradigmas, numa perspectiva espírita, vemos exercícios de Espíritos pouco adiantados que disputam prestígio e poder pessoal mediante o conhecimento que adquirem ou produzem. Esta é, contudo, uma situação passageira, resultado de sua forma restrita de entender a vida.

sábado, 16 de maio de 2009

O papel da solidariedade na ciência, ou “nós” é o plural de nó


A consciência é um nó górdio na vida dos filósofos materialistas. Alguns pretendem reduzi-la a resultado das funções neuroquímicas do cérebro. Outros, dizem que ela é irrelevante para a ciência, seja lá o que for.
Mas o fato é que é difícil ignorar, no estudo do conhecimento, a condição daquele que conhece. E aquele que conhece é uma consciência. Abstrair sua condição de cognoscente é ignorar a interferência que seus estados emocionais, sua educação, cultura, história e perspectiva operam durante o ato de perceber e conhecer.
Como é o mundo da vida de onde eu o vejo, saboreio, cheiro, toco, ouço, intuo? O que aquilo que me constitui me permite apreender?
Piaget, pensador materialista, notou que ao ser conhecido, o objeto do conhecimento se acomoda à estrutura conceitual existente, enquanto que a estrutura se altera para assimilar o elemento novo. Não existe pureza e isenção no ato de conhecer.
Como o conhecimento se integra ao nosso ser (“tesouro que a traça não come e ladrão não leva”), conclui-se que o conhecer nos torna novos. Não somos mais os mesmos depois de conhecer algo que antes não conhecíamos. Por isso, o meu conhecimento de uma rocha pode ser diferente do seu, embora se trate da mesma coisa visada, e aquilo que a rocha representa para mim assumirá uma importância na minha compreensão do mundo da vida, enquanto aquilo que ela representa para você assumirá um papel provavelmente diverso.
Claro se torna, então, o fato de que aquilo que sei, sei com o meu saber e não com um saber universal e puramente objetivo.
Como, então, fazer ciência?
A constituição de um “nós”, que está implícita na noção de conhecimento científico, irá surgir num ambiente que estimule a cooperação, o compartilhar que leve ao aperfeiçoamento das concepções particulares numa somatória de conhecimentos que se torne um empreendimento coletivo. Lembrando Maturana, vemos que o ambiente de competição não é propício ao estabelecimento das bases de uma ciência, mas a solidariedade tende a favorecer o progresso científico.
Além disso, o ser novo que aprendeu algo novo não é apenas ser em si. Ele manifesta seu ser nos atos e palavras. Por isso, aprender de fato implica em saber manifestar o resultado do que se sabe, mostrando que efetivamente houve transformação interior.
Ao cooperar e compartilhar, tornamos possível sair de um único ponto de vista para encontrar afirmações consensuais que constituirão nossas hipóteses, teorias e leis científicas.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Validade de relatos mediúnicos

Para se estabelecer critérios de validade e credibilidade dos relatos mediúnicos, é preciso primeiramente considerar alguns princípios:

(1) “Deus criou todos os Espíritos simples e ignorantes, isto é, sem saber. A cada um deu determinada missão, com o fim de esclarecê-los e de os fazer chegar progressivamente à perfeição, pelo conhecimento da verdade, para aproximá-los de si. Nesta perfeição é que eles encontram a pura e eterna felicidade.(...)” (LE-115).
(2) Os Espíritos, estejam encarnados ou desencarnados, encontram-se em diferentes estágios evolutivos. (cf. LE-96)
(3) Esta diferença de estágios evolutivos condiciona o grau de conhecimento e de compreensão da verdade.
(4) Os Espíritos vivenciam experiências que são interpretadas de acordo com sua compreensão possível e evolução espiritual. (cf. LE-1014)

Destas quatro premissas, é possível concluir, acerca do conhecimento dos Espíritos sobre as coisas, que ele está na razão direta de seu grau evolutivo e que sua condição de interpretar suas experiências se altera com seu progresso.
Então, um Espírito em qualquer grau da Escala Espírita nos oferecerá um relato possível no limite de sua compreensão e adiantamento.

Encarnado ou desencarnado: qual a diferença?

Há no entanto outra diferença a ser considerada, quando se trata do que se pode perceber e conhecer: isso também depende de se estar encarnado ou no mundo dos espíritos.


LE-237. Uma vez de volta ao mundo dos Espíritos, conserva a alma as percepções que tinha na Terra?
“Sim, além de outras de que aí não dispunha, porque o corpo, qual véu sobre elas
lançado, as obscurecia
. A inteligência é um atributo, que tanto mais livremente se manifesta no Espírito, quanto menos entraves tenha que vencer.”
LE-238. São ilimitadas as percepções e os conhecimentos dos Espíritos? Numa palavra: eles sabem tudo?
“Quanto mais se aproximam da perfeição, tanto mais sabem. Se são Espíritos
superiores, sabem muito. Os Espíritos inferiores são mais ou menos ignorantes acerca de tudo.


Quando estamos encarnados, nossa percepção é definida pela ligação ao corpo físico onde predominam os cinco sentidos materiais, ficando restrita para a realidade extrafísica. Contudo, não estamos tão presos ao nosso corpo que não possamos sentí-la de modo algum. Pelo contrário, diz O Livro dos Médiuns que a mediunidade generalizada é patrimônio comum de todos os seres humanos, fato que torna útil para qualquer pessoa estabelecer critérios de aceitação de informações provenientes de relatos mediúnicos. Pelo que vimos até aqui, tais critérios baseiam-se na avaliação do grau de evolução do Espírito comunicante, mas também dependem do entendimento do encarnado que recebe (como médium) e daquele analisa o fenômeno e o conteúdo transmitido.
O estudo das diferentes ordens de Espíritos comunicantes e a compreensão da influência do seu grau de adiantamento na sua forma de perceber/interpretar/expressar-se ocorre na própria prática mediúnica e se completa ao proceder-se a análise das comunicações. O estudo da faculdade mediúnica, as influências que sofre e os inconvenientes a que está sujeita, bem como do papel dos médiuns nas comunicações pode ser prático, mas não dispensa a leitura dos capítulos correspondentes em O Livro dos Médiuns.

Ciência espírita

O conjunto dos dados da experiência com a mediunidade, as comunicações em si, as percepções dos médiuns são elementos que permitem inferir generalizações e leis que atuam no fenômeno mediúnico. O conjunto destas irão constituir a ciência espírita.

A possibilidade de uma ciência espírita é afirmada por Allan Kardec num discurso publicado na Revista Espírita no ano de 1864: o Espiritismo não é uma concepção individual, um produto da imaginação; não é uma teoria, um sistema inventado para a necessidade de uma causa. Tem sua fonte nos fatos da natureza mesma, em fatos positivos, que se produzem aos nossos olhos e a cada instante, mas cuja origem não se suspeitava. É, pois, resultado da observação, numa palavra, uma ciência: a ciência das relações entre os mundos visível e invisível; ciência ainda imperfeita, mas que diariamente se completa por novos estudos e que, tende certeza, tomará posição ao lado das ciências positivas. Digo positivas, porque toda ciência que repousa sobre fatos é uma ciência positiva, e não puramente especulativa.
Kardec nos aponta no mesmo discurso o instrumental da ciência espírita, que é a mediunidade; seu método, que é experimental, e seu objeto de estudo, que são as relações entre o mundo visível e o invisível.

Resumindo, há, portanto, três fatores de crucial importância na consideração dos conhecimentos exarados em relatos mediúnicos:
- em que grau da jornada evolutiva o Espírito comunicante se encontra, se mais atrasado ou mais adiantado;
- se está presentemente encarnado ou desencarnado;
- qual a compreensão que o médium e o analista do fenômeno (ou comunicação) possuem acerca das leis que presidem o fenômeno e da teoria espírita sobre eles.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Cartografia dos estados alterados: projetos inacabados


Uma das coisas que tenho apreciado ao ler (ainda) o livro do Maturana é que ele suscita perguntas, eu penso sobre elas e, num dado momento, ele acena com pistas ou, mesmo, com respostas.
Quando eu disse “minha segunda pergunta é se aquele que costumamos considerar o estado normal ou usual de consciência é o que nos dá realmente melhor percepção e menos ilusão sobre o que observamos”, eu não pensava no que encontraria em páginas posteriores: no caminho explicativo da objetividade-entre-parênteses existem muitos domínios de realidades diferentes mas igualmente legítimos, ainda que não igualmente desejáveis, cada um constituído como um domínio de coerências operacionais na experiência do observador. E também me dou conta de que no caminho explicativo da objetividade-entre-parênteses uma afirmação cognitiva é um convite feito ao outro para entrar num certo domínio de coerências operacionais...
Eu sei que isso não tem NECESSARIAMENTE a ver com domínios visitados por uma consciência em estados modificados. Sei que muitos de meus ex-professores diriam que estou forçando uma interpretação. Mas não estou.
Estou apenas estendendo o conceito de "domínios de realidades", levando em conta os tipos de experiências possíveis em diferentes estados naturais de consciência (vigília, sono, sonho, observação e percepção não-dual, segundo Ken Wilber em Espiritualidade Integral) e em estados alterados exógenos (induzidos por drogas) ou endógenos (como os meditativos, vivências fora do corpo e transe mediúnico).
No caminho de uma epistemologia abrangente
A questão que interessa à teoria do conhecimento é saber se há possibilidade de uma epistemologia, onde seria possível identificar os critérios de atribuição de validade ao conhecimento possível em tais estados e uma metodologia própria de pesquisa.
Bem, o próprio Wilber propõe uma cartografia destes estados, embora assumindo que as correlações que estabelece sejam "polêmicas e difíceis de comprovar". Mais restrito, porém mais calcado em casos clínicos, é o mapeamento de Stanislav Grof em Psicologia do Futuro, ao descrever os domínios "biográfico, perinatal e transpessoal" das experiências em estados alterados - que ele chama de 'holotrópicos'.
Reconheço ambos os mapas como importantes projetos inacabados.
E não podemos nos esquecer das fundamentais contribuições de Allan Kardec, na análise dos fenômenos anímicos e mediúnicos, e nos seus apontamentos sobre a segurança possível dos relatos mediúnicos e outros.
Quero analisar estes relatos como convites para um domínio natural (embora incomum) de afirmações cognitivas de pleno direito.
(Ainda não terminei de pensar nisso.)

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Ilusão e percepção

Ao adotar o caminho explicativo da objetividade-entre-parênteses, a indistinguibilidade experiencial entre o que chamamos ilusão e percepção não é uma limitação ou falha que deve ser negada ou superada, mas, ao contrário, é uma oportunidade que nos leva a fazer uma outra pergunta: Como são possíveis os fenômenos de concordância de conduta na convivência, se não podemos distinguir ilusão e percepção? (Humberto Maturana em Emoção e linguagem na educação e na política, vermelhos meus)

Bom, minha primeira pergunta seria se, ao observar o mundo concreto com os olhos materiais, temos conseguido apreender formas de conviver harmonicamente nesta Terra. Parece que o jeito preponderante de perceber e lidar com o mundo, até hoje, criou uma praxis altamente danosa para o planeta e as comunidades humanas, que se perpetua.
Minha segunda pergunta é se aquele que costumamos considerar o estado normal ou usual de consciência é o que nos dá realmente melhor percepção e menos ilusão sobre o que observamos.

Não há nada de errado com os cinco sentidos, eles são instrumentos maravilhosos de sentir corporalmente e possibilitam estar efetivamente no mundo, com tudo o que nele há de bom. O que está errado é insistir na sua prevalência sobre o sexto sentido, ou sobre a mediunidade, ou sobre as percepções que surgem nos sonhos e outros estados alterados.
Confiamos amplamente na razão que funciona quando estamos acordados. Não foi, porém, o pensamento racional que nos trouxe a ilusão da separatividade e a busca de controlar a Natureza, ao invés de cooperar com ela inserindo-nos nos seus processos e auxiliando-nos reciprocamente? Não seria esta separatividade a maior ilusão em que vivemos?
E o conhecimento do outro, nas relações sociais, é possível apenas pela razão? E sua aceitação, a aproximação, o diálogo e a interação, surgem basicamente dos raciocínios?

terça-feira, 5 de maio de 2009

Maturana e suas afirmações arriscadas sobre validação do conhecimento

Eu concordo com muito do que tenho lido em Emoções e linguagem na educação e na política. Embora o autor passe o tempo todo sem preocupações fundacionistas (buscar fundamentos para os conceitos que expressa seria a negação da sua visão de conhecimento), aprecio suas afirmações arriscadas quanto às suas conseqüências potenciais.
Ele diz: Eu indico esta consciência de não podermos distinguir entre ilusão e percepção, com um convite a colocarmos a objetividade-entre-parênteses no processo do explicar. Não quero dizer com isso que não existem objetos, nem que não posso especificar um certo domínio de referência que trato como existindo independente de mim. Quero dizer que, colocando a objetividade entre parênteses, me dou conta de que não posso pretender que eu tenha a capacidade de fazer referência a uma realidade independente de mim, [...] na intenção de entender o que ocorre [...] sem fazer referência a uma realidade independente do observador para validar meu explicar. (vermelhos meus)
Bom, há um risco que se corre ao aceitar esta explicação, que é o de admitir que talvez todos sejamos mais ou menos psicóticos – rs . É assim que chamamos aquelas pessoas que reconhecidamente não distinguem entre o domínio subjetivo e o objetivo de sua experiência.
Nesse sentido, talvez possamos entender que vivemos num grau de psicose coletiva maior ou menor, o que vai, por um lado, nos fazer sentir mais próximos dos considerados "doentes mentais", mas por outro lado nos leva a reavaliar nossos parâmetros de ação no mundo. Se assim fosse, a psicose apenas seria vista como doença quando prejudica o que consideramos funcionamento normal e relacionamento social da pessoa.
Mas o que são explicações? Explicações são reformulações de experiências aceitas como plausíveis. Plausibilidade tem a ver com coerência e “encaixe” nas estruturas conceituais preexistentes, formadas em experiências pregressas e nas interpretações destas experiências.
Eu poderia então admitir que tudo o que penso saber foi fruto do que me aconteceu e de como o interpretei, com uma gama de teorizações possíveis, nenhuma das quais precisaria ser necessariamente falsa. Bom, e onde fica o bom e velho conhecimento objetivo onde pensávamos estar seguros e bem calçados?

Depois eu volto...

segunda-feira, 4 de maio de 2009

A mãe que tenho sido


Não é por causa da data comercial que estou escrevendo isso, mas por andar lendo Maturana (Emoções e linguagem na educação e na política) e, mais ultimamente, por rever um pouco de Winnicott associado às idéias do Maturana.
Pessoalmente, com a ajuda de meus filhos adolescentes, venho tentando entender algo que tenho tentado ser há quase 22 anos: o que é ser uma boa mãe, uma mãe suficientemente boa.
Acho que já fui mãe em muitas situações na vida: de filhos, livros, ex-parceiros, alunos, projetos, amigos em dificuldades... Talvez eu nem saiba não sê-lo. (Não deve ser à toa que me senti "gravidíssima" no ritual xamãnico - rs.)
Uma curiosidade sobre esse meu lado maternal: Um dia, uma psicanalista que participou de um dos FORMARES em Jundiaí disse que a Sandra e eu agíamos ali freqüentemente como mães. Ela inclusive notou que um dos gráficos que usávamos na exposição da metodologia era informalmente chamado de "sutiã da Madonna" - que tem a ver com sensualidade e amamentar ao mesmo tempo, não é? Mas a idéia do FORMARE era mesmo a de dar suporte ao educador para fazer experimentações pessoais que lhes permitissem a segurança de agirem sozinhos, posteriormente. E isso funcionou bastante.
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Comentando a matéria de capa da Época de 13/04/09, escrevi outro dia que o amor não tem medida, quanto ao máximo. (O texto vai sair na Universo Espírita 66.) Mas refletindo depois, percebi que a bondade tem de ter um mínimo suficiente. Pra ser eficiente.
Eu creio que deveria ser boa o bastante pra acalentar meus bebês quando precisassem do meu calor, mas não por tanto tempo a ponto de prendê-los, nem segurá-los tão apertado a ponto de sufocá-los. Talvez fosse isso que eles considerassem excessos e confundissem com excessos de amor, na chamada de capa. Isso, porém, seria possessividade.
Também entendo que deveria ser perceptiva o bastante para não deixá-los cedo demais entregues à própria sorte e aos próprios cuidados, o que seria negligência.
Isto seria a medida do suficiente? Talvez...
Pode parecer que é fácil ser sufucientemente boa. Não exige capacidade sobre-humana, só suficiente. Contudo, a suficiência é a mais exigente, a mais difícil das medidas. A suficiência é um meio termo entre extremos de falta e exagero. E o desafio é, na prática, saber achar esse meio termo.
Aceitam-se opiniões.