
As cenas finais de Joana D'Arc (1999), de Luc Besson, apresentam a heroína francesa na prisão, tendo de se haver consigo mesma ou, dependendo da interpretação, com um interlocutor de características sobrenaturais, protagonizado por Dustin Hoffmann.
O importante, contudo, não é quem conversa, mas a direção tomada pelo diálogo, buscando, para as ações de Joana, as razões ou crenças que definiram conclusões e escolhas.
Para o fato de atribuir uma causa sobrenatural ao evento de ter encontrado uma espada no meio do campo, quando criança, surge a questão: por que teria a jovem escolhido pensar que Deus ali deixara a espada para que ela a encontrasse, quando muitas outras formas de justificar sua presença no local seriam possíveis?
O interlocutor mostra-se como um legítimo humeano avant la lettre, inquirindo a legitimidade das inferências causais tomadas de forma absoluta. Apresentando uma série de explicações possíveis e humanas para tal ocorrência.
Afinal, não há certeza no mundo dos fatos, apenas probabilidades.
O importante, contudo, não é quem conversa, mas a direção tomada pelo diálogo, buscando, para as ações de Joana, as razões ou crenças que definiram conclusões e escolhas.
Para o fato de atribuir uma causa sobrenatural ao evento de ter encontrado uma espada no meio do campo, quando criança, surge a questão: por que teria a jovem escolhido pensar que Deus ali deixara a espada para que ela a encontrasse, quando muitas outras formas de justificar sua presença no local seriam possíveis?
O interlocutor mostra-se como um legítimo humeano avant la lettre, inquirindo a legitimidade das inferências causais tomadas de forma absoluta. Apresentando uma série de explicações possíveis e humanas para tal ocorrência.
Afinal, não há certeza no mundo dos fatos, apenas probabilidades.
Esse diálogo fascinante, contudo, não nos leva a reconhecer a característica - também humana - de olhar para uma cena, um texto, um experimento, e enxergar apenas aquilo que se espera, ou se deseja, ou se aceita ver?
Não estamos fadados ao domínio da perspectiva?
Ou, pelo menos, já que a perspectiva é inevitável, não precisamos da perspectiva de quem olha para entender o que ele vê? Referindo à postagem anterior, não necessitamos da realidade do cientista para entender sua atividade científica?
Este aspecto presente nas epistemologias contemporâneas, como a de Maturana, já era considerado na filosofia e na ciência espíritas, no século 19.
No entanto, embora a perspectiva precise ser levada em conta, ela não esgota a possibilidade de compreender ciência, especialmente se se espera considerá-la um empreendimento coletivo com alto grau de objetividade e generalização.
A pesquisa das causas
O conceito de causa, para alguns pensadores, faz parte da ciência enquanto que, para outros, deve ser afastado para os domínios da metafísica.
Whewell (1794-1866), filóósofo, cientista e um dos representantes da Teologia Natural, pertence ao primeiro grupo.
Ele entende que ao dizer que "a mudança do movimento é proporcional à força motriz impressa e se faz segundo a linha reta pela qual se imprime essa força", na 2ª Lei do Movimento, temos aqui não apenas um princípio autoevidente, como também uma verdade confirmada pela experiência. Sua verdade não ressalta de um conceito a priori, mas da observação científica e dos experimentos que o confirmam.
Para ele, semelhante (mas não idêntica) à categoria kantiana de causalidade, a idéia de causa é uma lei do pensamento que se confirma no mundo real como Deus o criou. E a ciência é uma busca de verdades necessárias que expressem as idéia divinas para este mundo.
Isso, claro, não resolve o conflito interno de Joana próxima de sua execução... Uma coisa é aceitar a existência de causas, ou até de uma causa divina, para aquilo que ocorre. Outra coisa é tomar um caso particular e induzir uma explicação satisfatória apenas perante a nossa forma de pensar.
Para Whewell, a multiplicidade de observações e o refinamento dos resultados alcançados no decorrer dos séculos, uma forma elaborada de indutivismo, nos permitem compreender a ciência progredindo rumo às verdades necessárias e universais, além dos limites do psicologismo e do ponto de vista particular. E o melhor teste para nossas teorias é verificar se suas proposições e leis se aplicam também a outros casos e/ou domínios científicos, o que parece significar que se está ficando mais próximo do que Deus projetou na sua Criação.
O axioma "todo efeito tem uma causa", por exemplo, pode ser aplicado além da física? Noto que ele participa da geologia, da medicina, da biologia? Então ele exprime um conceito que não só existia a priori - antes de nós existirmos ou de nos termos dado conta dele - mas brota dos experimentos científicos como uma verdade necessária, sem a qual fazer ciência e entender o mundo seria impossível.
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Boa parte da obra de Whewell está hoje em domínio público e pode ser baixada na internet. Sugestões: The Philosophy of the Inductive Sciences founded upon their History (2a. ed - 1847) e Astronomy and General Physics considered with reference to Natural Theology (1833)


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