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segunda-feira, 17 de maio de 2010

Perspectiva e ciência




As cenas finais de Joana D'Arc (1999), de Luc Besson, apresentam a heroína francesa na prisão, tendo de se haver consigo mesma ou, dependendo da interpretação, com um interlocutor de características sobrenaturais, protagonizado por Dustin Hoffmann.
O importante, contudo, não é quem conversa, mas a direção tomada pelo diálogo, buscando, para as ações de Joana, as razões ou crenças que definiram conclusões e escolhas.
Para o fato de atribuir uma causa sobrenatural ao evento de ter encontrado uma espada no meio do campo, quando criança, surge a questão: por que teria a jovem escolhido pensar que Deus ali deixara a espada para que ela a encontrasse, quando muitas outras formas de justificar sua presença no local seriam possíveis?
O interlocutor mostra-se como um legítimo humeano avant la lettre, inquirindo a legitimidade das inferências causais tomadas de forma absoluta. Apresentando uma série de explicações possíveis e humanas para tal ocorrência.
Afinal, não há certeza no mundo dos fatos, apenas probabilidades.
Esse diálogo fascinante, contudo, não nos leva a reconhecer a característica - também humana - de olhar para uma cena, um texto, um experimento, e enxergar apenas aquilo que se espera, ou se deseja, ou se aceita ver?
Não estamos fadados ao domínio da perspectiva?
Ou, pelo menos, já que a perspectiva é inevitável, não precisamos da perspectiva de quem olha para entender o que ele vê? Referindo à postagem anterior, não necessitamos da realidade do cientista para entender sua atividade científica?
Este aspecto presente nas epistemologias contemporâneas, como a de Maturana, já era considerado na filosofia e na ciência espíritas, no século 19.
No entanto, embora a perspectiva precise ser levada em conta, ela não esgota a possibilidade de compreender ciência, especialmente se se espera considerá-la um empreendimento coletivo com alto grau de objetividade e generalização.
A pesquisa das causas
O conceito de causa, para alguns pensadores, faz parte da ciência enquanto que, para outros, deve ser afastado para os domínios da metafísica.
Whewell (1794-1866), filóósofo, cientista e um dos representantes da Teologia Natural, pertence ao primeiro grupo.
Ele entende que ao dizer que "a mudança do movimento é proporcional à força motriz impressa e se faz segundo a linha reta pela qual se imprime essa força", na 2ª Lei do Movimento, temos aqui não apenas um princípio autoevidente, como também uma verdade confirmada pela experiência. Sua verdade não ressalta de um conceito a priori, mas da observação científica e dos experimentos que o confirmam.
Para ele, semelhante (mas não idêntica) à categoria kantiana de causalidade, a idéia de causa é uma lei do pensamento que se confirma no mundo real como Deus o criou. E a ciência é uma busca de verdades necessárias que expressem as idéia divinas para este mundo.
Isso, claro, não resolve o conflito interno de Joana próxima de sua execução... Uma coisa é aceitar a existência de causas, ou até de uma causa divina, para aquilo que ocorre. Outra coisa é tomar um caso particular e induzir uma explicação satisfatória apenas perante a nossa forma de pensar.
Para Whewell, a multiplicidade de observações e o refinamento dos resultados alcançados no decorrer dos séculos, uma forma elaborada de indutivismo, nos permitem compreender a ciência progredindo rumo às verdades necessárias e universais, além dos limites do psicologismo e do ponto de vista particular. E o melhor teste para nossas teorias é verificar se suas proposições e leis se aplicam também a outros casos e/ou domínios científicos, o que parece significar que se está ficando mais próximo do que Deus projetou na sua Criação.
O axioma "todo efeito tem uma causa", por exemplo, pode ser aplicado além da física? Noto que ele participa da geologia, da medicina, da biologia? Então ele exprime um conceito que não só existia a priori - antes de nós existirmos ou de nos termos dado conta dele - mas brota dos experimentos científicos como uma verdade necessária, sem a qual fazer ciência e entender o mundo seria impossível.
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Boa parte da obra de Whewell está hoje em domínio público e pode ser baixada na internet. Sugestões: The Philosophy of the Inductive Sciences founded upon their History (2a. ed - 1847) e Astronomy and General Physics considered with reference to Natural Theology (1833)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Realidades e mundo real

Talvez minha posição sobre o realismo metafísico não esteja suficientemente clara. Creio no mundo externo. Creio em coisas que existem independente do meu estado mental e de minhas percepções e construtos racionais.
Creio que sou aquilo que William Whewell (1794-1866), filósofo inglês, denominou "descobridor", para quem o mundo real se revela conforme sua capacidade de compreendê-lo se amplia.
As realidades, porém, podem ser muitas, porque elas reúnem as circunstâncias que percebo e sobre as quais opero.
Existem realidades além daquelas percebidas pelos cinco sentidos, que descortinam novas faces do mundo real que vamos apreendendo. Grof fala no video abaixo de uma realidade que experimentou em sua juventude e que modificou sua trajetória para sempre.



Não creio ser obrigatório experimentar LSD, ou outra substância, para acessar outras realidades. Os extáticos, descritos por Kardec no capítulo 8 de O Livro dos Espíritos, exemplificam outro caso de contato com uma realidade extraordinária. Os contatos mediúnicos narrados por Yvonne A. Pereira em Recordações da mediunidade, idem.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A contemplação



As figuras que representam bodhisattwas costumam mostrar seres numa atitude contemplativa. Elas sugerem serenidade, descanso, superioridade em relação aos acontecimentos da existência, estado de atenção.
São qualidades da alma que, para se tornarem conteúdo visual, assumem uma forma. Contudo, a forma não concede as qualidades da alma nem garante sua verdade. Não devemos confundir o simbolizado com o símbolo, que é apenas uma imagem. É possível estar sentado com o corpo imóvel, a expressão tranquila, e a mente em ebulição.
Entendo que a contemplação do sagrado está relacionada à serenidade e atenção aos aspectos espirituais de cada "aqui-agora" experimentado, onde quer que nosso corpo esteja fazendo o que precisa ou quer fazer.
O máximo tempo que suporta, o aprendiz indaga: Como minha mente funciona? Como minhas emoções me auxiliam ou atrapalham? Como minha vontade oscila? Onde o caminho mais iluminado para melhorar-me a mim mesmo(a)?

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Mais cartografia dos estados alterados


... aquilo que era, até aquele momento, uma investigação intrapsíquica profunda se transforma em uma experiência extrassensorial de vários aspectos do universo como um todo. Algumas pessoas que tiveram a experiência dessa peculiar transição do interno para o externo a compararam à arte gráfica do pintor holandês Maurits [sic] Escher, outras falaram sobre uma "fita experimental multidimensional de Moebius". Essas observações confirmam a doutrina básica de alguns sistemas esotéricos, como o tantra, a cabala ou a tradição hermética, segundo as quais cada um de nós é um microcosmo contendo, de forma misteriosa, todo o universo. (Stanislav Grof em Psicologia do futuro)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Conhecer coisas


Não há coisas isoladas.
Percepções são complexos de estímulos acrescidos de interpretações ligadas a experiências passadas. Um objeto só se destaca do pano de fundo porque nossa atenção o selecionou entre muitas possibilidades de agregação de dados perceptivos e conceitos preexistentes.
Essas percepções são processadas pelo pensamento conceitual, que trata aquilo que chama de "coisas" como objetos separados entre si e separados de nós, sujeitos.
O conjunto dessas coisas aparentemente isoladas forma o que denominamos realidade. A realidade, porém, não é algo "fora", ela é um todo perceptivo e somente desse modo se apresenta a nós.
A realidade é um complexo perceptivo e um estado de consciência que espelha, não um "agora" externo, mas os fatos exteriores que nos impressionam somados à condição de perceber e compreender estes fatos de uma forma específica.
Embora possa parecer, não é tudo construção da mente, pois existe algo além do que pensamos. Nosso pensamento no entanto tem limites e é preferencialmente linear, processando os complexos perceptivos como se se tratasse de uma sucessão no tempo. Q
uando esses complexos perceptivos são observados como fenõmenos separados do observador, elas são incompletas, não apenas porque não consideram a sua condição de perceber e compreender, mas porque criam uma cisão ilusória entre sujeito e objeto, dentro e fora. E a ciência que observa a realidade como mero fenômeno (objeto, fora) só pode ser uma ciência incompleta e autolimitante.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

"Mas que são coisas?"


Nada, como veremos abundantemente, senão grupos especiais de qualidades sensíveis, que acertam, prática ou esteticamente, de interessar-nos, para as quais, por isso mesmo, damos nomes substantivos, e que elevamos ao status exclusivo de independência e dignidade. (William James, citado por Ken Wilber em O espectro da consciência)

domingo, 6 de setembro de 2009

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A "ordem central" de Heisenberg



Em 1927, um grupo de físicos reunidos em Bruxelas para a Conferência de Solvay (ver imagem) e que incluía Paul Dirac, Wolfgang Pauli, Niels Bohr e Werner Heisenberg aproveitou um momento descontraído na sala de estar do hotel para conversar sobre a compatibilidade ou incompatibilidade entre a ciência e a religião. O diálogo, em saudável argumentação nos moldes da maiêutica platônica, é relatado em capítulo do livro A parte e o todo, de Heisenberg.
Em 1952 - 25 anos mais tarde - o assunto seria retomado por Pauli, Bohr e o próprio Heisenberg, que participavam de um grupo de cientistas reunidos em Copenhague com a finalidade de discutir a construção de um acelerador de partículas na Europa. Nos dois encontros, Werner Heisenberg expôs seu pensamento sobre uma certa "ordem central" existente no Universo, que denota sua forte convicção a respeito da existência de uma inteligência e intenção agindo em favor da harmonia e do bem de todas as coisas - um poder que costumamos chamar de Deus.
A crença na existência de Deus não é uma questão meramente subjetiva
Para Heisenberg, a relação com a ordem central não é meramente pessoal e subjetiva (cf. 1996, p.103), conforme disse ele mesmo que propunha Max Planck. Esse pensamento criaria uma cisão entre os domínios objetivo (campo da ciência) e subjetivo (da religião e dos valores), impedindo a interação entre os dois domínios, impedindo que as consequências de um deles afetassem o outro. Refere-se, como veremos mais adiante, à relação entre fatos e valores que definem condutas. E afirma: "Duvido que as sociedades humanas possam viver com uma distinção tão nítida entre conhecimento e fé" (1996, p. 102).
Pauli observa que foi precisamente a idéia de um mundo objetivo "seguindo seu rumo no tempo e espaço com leis causais estritas, que produziu um choque entre a ciência e as concepções espirituais" (1996, p.103). Diz ainda que é comum as religiões usarem linguagem das analogias e parábolas para expressar conceitos de forma vaga, e que algum dia essas analogias e parábolas perderão sua força persuasiva na cultura ocidental, até mesmo para o homem comum.
Bohr compara então a linguagem da religião à da poesia a qual tendemos a considerar como referente a sentimentos subjetivos, mas que a divisão entre domínio subjetivo e objetivo não nos leva a lugar algum e que o fato da linguagem da religião ser vaga não significa que não trate de uma realidade autêntica. Bohr conclui sua fala dizendo que a linguagem objetivadora ainda era passível de ser utilizada na física clássica, mas na quântica todo processo tem aspectos objetivos e subjetivos, que frequentemente só podem ser descritos em forma de metáforas e analogias. Em 1952, Bohr sintetizaria seu pensamento na frase: "a teoria quântica oferece-nos uma esplêndida ilustração de que é possível compreender plenamente uma ligação, embora só possamos falar dela por imagens e comparações" (1996, p.244). A própria quântica só se desenvolveu porque deixou de observar fatos, aos quais se apegam os positivistas em sua visão de ciência, para aplicar princípios da razão.
"Eu consideraria um absurdo afastarmos os problemas e idéias dos antigos filósofos, simplesmente por ser impossível expressá-los numa linguagem mais precisa" (id., p.246), diria Heisenberg. E com ele concordaria Paul Feyerabend, ao defender a necessidade de não nos atermos ao fato de uma tese haver sido rejeitada, mas de buscarmos as razões históricas e culturais dessa rejeição e de verificarmos sua plausibilidade no momento presente.
Razão objetiva
Isso nos leva a uma outra proposição de Heisenberg: de que o intelecto é uma realidade objetiva, conforme trecho citado por GANOCZY (cf. 2005, p. 33), que entende que o intelecto seria até mais objetivo e real que os fatos materiais, uma vez que os ordena e se manifesta por meio deles. Essa noção é corroborada pelo trecho onde ele afirma :
em última análise, todas as antigas religiões nascidas antes da ciência moderna, tentam expressar os mesmos conteúdos, as mesmas relações (...) . Os positivistas talvez tenham razão em pensar que, hoje em dia, é difícil conferir um sentido a estas parábolas. Não obstante, devemos fazer todos os esforços para captar esse sentido, já que obviamente ele se refere a um aspecto crucial da realidade (1996, p.246)

Pauli então pergunta qual é o critério de verdade da ciência. Heisenberg utiliza duas metáforas do comportamento humano aplicadas à natureza: "intenções" e "ordens". E aqui chegamos a um terceiro aspecto da tese do físico. A concepção de Heisenberg dessa 'ordem central', a que nos referimos acima, caracteriza-se por uma idéia do "divino" como unificador dos processos universais e que procura efetivar a realização de um plano. "Seria mesmo um absurdo buscar, por trás das estruturas ordenadoras deste mundo, uma 'consciência' cujas 'intenções' fossem essas mesmas estruturas?", pergunta ele.
Onde tudo se conecta
Fatos em si mesmos nada representam se não lhes atribuímos um sentido. Sentido dos fatos, sentido da existência. A busca do ser humano por conhecimentos também visou sempre determinar o que devemos fazer, o que devemos procurar e como devemos nos comportar. O conhecimento então é um problema humano e diz respeito ao humano, segundo Heisenberg. "Diz respeito à bússola com que devemos pilotar nosso barco, se quisermos traçar um curso correto pela vida afora." (1996, p.248)
Sendo a razão um fato objetivo, "mesmo quando tentamos sondar o campo subjetivo, não podemos ignorar a ordem central, ou encarar as formas que povoam este campo como frutos do acaso ou como artificiais (...) O poder do uno pode ser depreendido do próprio fato de pensarmos no ordenado como bom e no confuso e caótico como ruim". (id., p.249)
De acordo com o físico, "na ciência, pode-se reconhecer a ordem central pelo fato de podermos usar metáforas como 'a natureza foi feita de acordo com tal plano'. É nesse contexto que minha idéia da verdade se relaciona com o conteúdo efetivo da experiência religiosa. Sinto que essa relação se tornou muito mais evidente desde que compreendemos a teoria quântica". (id., ibid.)
Assim, podemos deixar de pensar nos valores como um terreno puramente subjetivo e na religião como única fonte de valores para pautar-nos por princípios extraídos, não de preceitos desta ou daquela religião, mas de uma visão científica da existência. Uma moral de base racional e científica.
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Bibliografia
GANOCZY, A. Vastidões infinitas: visão de mundo científica e fé cristã. São Paulo: Loyola, 2005.
HEISENBERG, W. A parte e o todo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Conhecimento e fé

Duvido que as sociedades humanas possam viver com uma distinção tão nítida entre conhecimento e fé. (Werner Heisenberg, em A parte e o todo)

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Samsara


A libertação ocorre, simplesmente, através do reconhecimento daquilo que o prende. (Trecho do Mahamudra, the ocean of definitive meaning, do 9º Gyalwang Karmapa, Wangchuk Dorje)

O hinduísmo, o jainismo e o budismo concordam em que alma atravessa, no seu caminho para a perfeição, o ciclo de mortes e renascimentos, às vezes chamado de samsara.
A principal característica de samsara (que pode ser traduzido por "constante fluir") é a crença na realidade do mundo temporal e fenomenal. Os ensinamentos do Buda constituem-se em métodos de libertação dos grilhões das mortes e renascimentos, no qual nos mantemos principalmente devido aos nossos apegos. Tais apegos podem ser dirigidos a objetos, pessoas, emoções, situações passadas, o que quer que prenda a alma a este mundo, impedindo-a de reconhecer-se como ser imortal.
A evolução do Espírito, que se dá pelo aumento da consciência da sua própria natureza além da matéria e da contingência, cria condições para essa libertação, onde cessa a necessidade de reviver as situações-limite (de sua compreensão e desenvolvimento) no cenário da vida na Terra. O ser iluminado (bodhi) não precisa mais renascer para aprender - embora possa fazê-lo, a reencarnação deixa de ser uma condição imposta para ser uma opção.

O budismo Ch'an utiliza como técnica para libertar-se da roda de samsara o estudo de koans, histórias curtas que, segundo o Mestre Hsin Ting em A engenharia da vida, empurram o praticante até os limites da racionalidade, na tentativa de irromper em uma percepção direta da realidade (vermelhos meus).

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O observador está incluído na observação?






Monet, O jardim da casa em Argenteuil, 1873







Renoir, Monet pintando em seu jardim em Argenteuil, 1873

A relação entre o observador e o fato observado é uma antiga questão epistemológica.
Durante muito tempo, ninguém duvidava de que o observador e o fato observado fossem duas entidades distintas, sujeito e objeto imiscíveis. Era possível olhar o movimento dos planetas e sentir-se à parte, alheio. Nem os planetas sofriam nossa influência e nem éramos por eles influenciados. A astrologia, por isso mesmo, foi considerada por aqueles dotados de "mentalidade científica" uma fantasia sem nenhuma chance de comprovação.
Mas talvez as coisas não sejam tão simples assim. Um olhar mais atento, de um cientista sem preconceitos, poderia revelar a precipitação de tal julgamento.
Objeto sobre o sujeito
Stanislav Grof, em Psicologia do futuro, dedica todo um capítulo à influência da astrologia de trânsitos sobre a psique. Escreve ele: Temos explorado em conjunto, há vários anos, as correlações astrológicas de experiências místicas, crises psicoespirituais, episódios psicóticos, estados psicodélicos e sessões de respiração holotrópica. Este trabalho mostrou que a astrologia, em particular o estudo dos trânsitos planetários, pode prever tanto o conteúdo arquetípico quanto a época dos estados holotrópicos de consciência.
(!) O poder preditivo é um dos principais atributos das teorias científicas, o quanto elas nos permitem antecipar fenômenos.
A visão mecanicista, que prevaleceu na ciência ocidental pós-Iluminismo, retrata o Universo como uma imensa máquina inanimada e o homem como um ser à parte, que o estuda e controla. Contudo se nossos estados interiores mudam com o movimento dos planetas, o que por sua vez influencia nossas percepções e julgamentos...

Sujeito sobre o objeto
Niels Bohr, físico dinamarquês, enunciou o chamado Princípio da Complementaridade, segundo o qual as características de onda ou partícula de um elétron nunca se manifestam ao mesmo tempo. Num experimento onde o elétron se comporta como onda, jamais o veremos agir como partícula. Mas aqui surge a necessidade de entender o papel do observador na mecânica quântica, pois trata-se de um papel ativo, enquanto na física clássica esse papel era passivo. No caso do elétron, o fato de observar o fenômeno altera seu comportamento, o que leva a considerar o observador como um sistema que interage com o objeto observado.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Prepare seus olhos para poder ver



Até o Renascimento, o dogma religioso imperava como forma predominante de conhecimento, mesmo em matérias hoje consideradas de cunho científico. O modelo de Aristóteles (384-322 a.C.) e Ptolomeu (83-161 d.C.) se correlacionava ao texto bíblico e era aceito como verdade incontestável: a Terra era vista como o centro do Cosmo. Corpos leves e graves tinham seu lugar natural. O mundo sublunar era corrupto e imperfeito, enquanto o supralunar era puro, indefectível.
Mas a partir do século 16, incentivadas por inteligências como a de Galileu (1564-1642), que via o livro do Universo escrito em caracteres matemáticos, gerações de cientistas subsequentes assumiram a tarefa de desvendar os mecanismos da vida baseados em novos princípios quantitativos, independente do que diziam as Escrituras, os padres e os aristotélicos. Trataram de observar, pesar e medir todos os objetos de estudo, estabelecendo relações matemáticas que se tornaram leis científicas sobre o funcionamento dos processos da realidade e acabaram por tornar Deus desnecessário.
Com o tempo, tamanha foi a rejeição às idéias religiosas, que soavam retrógradas e fantasiosas, que a ciência da matéria acabou por erigir-se como se fosse o único repositório de conhecimento seguro e comprovável que se poderia desejar obter. E o poder de pesar, medir e estabelecer relações matemáticas, explicando todos os fenômenos por meio destas relações, tornou-se o objetivo máximo dos cientistas.
Na nova visão de ciência que surgia, os pesquisadores admitiam que só poderiam ser considerados reais (e científicos) os conceitos baseados naquilo que se vê e se mede, isto é, no que faz parte do mundo físico. Na sua prática, muitos cientistas tornaram-se tão dogmáticos quanto as antigas autoridades eclesiásticas, fervorosamente apegados a conceitos materialistas e avessos a noções que envolvessem a existência do espírito ou de uma realidade imperceptível para os cinco sentidos físicos. E o modelo materialista dogmático se tornou base para o pensamento científico dominante, até os dias atuais.
Dogmas do materialismo
Os dogmas materialistas, num certo sentido, são crenças que condicionam a uma visão de mundo que descarta tudo aquilo que não se vê, pesa ou mede com nossos instrumentos. Como se crer no invisível e imponderável fosse anticientífico ou irracional.
Há, contudo, uma distância entre as leis da Natureza criadas por Deus e os dogmas admitidos como verdades científicas pelos materialistas. Há uma distância entre conceitos racionais e conceitos meramente baseados em quantificações de objetos palpáveis. E há, enfim, uma distância entre o que conseguimos perceber fisicamente, medir e pesar, e aquilo que existe de fato como força atuante na Natureza.
Allan Kardec registrou na Conclusão de O livro dos Espíritos sua opinião sobre as crenças materialistas. Disse ele que os materialistas se acobertam com o manto da razão e da ciência, atacando as idéias espiritualistas, como se estas exprimissem noções atrasadas, pertencentes ao mundo do maravilhoso e do sobrenatural. Mas que, ao atacar o maravilhoso e o sobrenatural, eles não atingem a ciência espírita, que é toda sustentada sobre bases da racionalidade, da lógica e das leis naturais, independente de princípios seus (como Deus, imortalidade etc.) haverem pertencido até aquele momento ao domínio da religião. Segundo o Codificador, o Espiritismo é forte porque assenta sobre as próprias bases da religião; Deus, a alma, as penas e as recompensas futuras; sobretudo, porque mostra que essas penas e recompensas são corolários naturais da vida terrestre e, ainda, porque, no quadro que apresenta do futuro, nada há que a razão mais exigente possa recusar. E assevera: Nada há [no Espiritismo] de místico, nada de alegorias susceptíveis de falsas interpretações. Quer ser por todos compreendido, porque chegados são os tempos de fazer-se que os homens conheçam a verdade. Longe de se opor à difusão da luz, deseja-a para todo o mundo. Não reclama crença cega; quer que o homem saiba por que crê. Apoiando-se na razão, será sempre mais forte do que os que se apóiam no nada.
Verdadeira e falsa idéia de razão
É preciso entender a que razão Kardec se refere como alicerce para a convicção espiritual. O materialismo considera-se racional em suas escolhas teóricas e metodológicas. No próprio O livro dos Espíritos, lê-se, contudo: O que se chama razão não é muitas vezes senão orgulho disfarçado e quem quer que se considere infalível apresenta-se como igual a Deus. Não é, portanto, esta razão falseada que fundamenta a fé raciocinada. Muito ao contrário, é a razão ponderada e iluminada pela humildade, daqueles que duvidam do que não viram, mas que, julgando do futuro pelo passado, não crêem que o homem haja chegado ao apogeu nem que a Natureza lhe tenha facultado ler a última página do seu livro.
A fé raciocinada baseia-se nos fatos, na experiência e na lógica, não se limitando aos dados colhidos da observação da matéria densa. Mas é preciso ter olhos capazes de ver a verdade espiritual.
Um fato observado por Ludwig Fleck (1896-1961), biólogo e filósofo polonês que influenciou Thomas Kuhn (1922-1996) em sua noção de paradigma, é que nossos olhos vêem o que estão preparados para ver. Fleck notou que os alunos que recebiam uma nova lâmina para observar ao microscópio eram inicialmente incapazes de enxergar o que ali estava para ser examinado. Com tempo e treino da visão, porém, todos os estudantes passavam a enxergá-lo. Podemos, portanto, "abrir a mente" e nos preparar para enxergar aquilo que o nível físico da realidade oculta de nós, ampliando a noção de racionalidade, pondo de lado aquilo que choca o bom senso por ser francamente contraditório, mas aceitando que há ainda muito que ser descoberto e compreendido à frente. Era assim que Kardec procedia.
Houve um tempo em que era aceitável que a Terra fosse o centro do Universo, que os corpos pesados caíssem porque estavam buscando seu lugar natural, que a matéria fosse feita de partículas sólidas, e tudo isso parecia muito racional. Até o advento da física quântica, acreditávamos na possibilidade de estabelecer a localização absoluta de cada objeto existente. Hoje se admite que as partículas subatômicas não são sólidas (são praticamente feitas de um enorme vazio), que sua natureza parece ser dual, comportando-se ora como partículas, ora como ondas, e que é impossível determinar ao mesmo tempo a sua velocidade e sua localização no espaço. Hoje se sabe que o observador influencia o comportamento da partícula observada, embora ainda não seja possível fazer um modelo matemático do que o observador está fazendo quando observa a realidade.
Isso significa que a razão é um instrumento importante de desvendamento e compreensão das leis que operam no Cosmo. Mas não podemos nos esquecer de que a razão, como atributo da inteligência, está em evolução e tem um longo caminho à frente, apesar das mentalidades retardatárias que insistem no apego aos dogmas do materialismo.
Lemos em O Evangelho segundo o Espiritismo: Em certas pessoas, a fé parece de algum modo inata; uma centelha basta para desenvolvê-la. Essa facilidade de assimilar as verdades espirituais é sinal evidente de anterior progresso. Em outras pessoas, ao contrário, elas dificilmente penetram, sinal não menos evidente de naturezas retardatárias. As primeiras já creram e compreenderam; trazem, ao renascerem, a intuição do que souberam: estão com a educação feita; as segundas tudo têm de aprender: estão com a educação por fazer. E a educação ocorre pela inevitável força que encaminha os seres ao progresso e ao entendimento das realidades espirituais.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Razão e instinto segundo Kardec: fragmentos. Vermelhos, meus

O homem que julga infalível a sua razão está bem perto do erro. Mesmo aqueles, cujas idéias são as mais falsas, se apóiam na sua própria razão e é por isso que rejeitam tudo o que lhes parece impossível. Os que outrora repeliram as admiráveis descobertas de que a Humanidade se honra, todos endereçavam seus apelos a esse juiz, para repeli-las. O que se chama razão não é muitas vezes senão orgulho disfarçado e quem quer que se considere infalível apresenta-se como igual a Deus. Dirigimo-nos, pois, aos ponderados, que duvidam do que não viram, mas que, julgando do futuro pelo passado, não crêem que o homem haja chegado ao apogeu nem que a Natureza lhe tenha facultado ler a última página do seu livro. (Allan Kardec em O livro dos Espíritos)

A razão diz que um efeito inteligente há de ter como causa uma força inteligente e os fatos hão provado que essa força é capaz de entrar em comunicação com os homens por meio de sinais materiais. Interrogada acerca da sua natureza, essa força declarou pertencer ao mundo dos seres espirituais que se despojaram do invólucro corporal do homem. Assim é que foi revelada a Doutrina dos Espíritos. (O livro dos Espíritos, Prolegômenos)

LE - Questão 4. Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus? “Num axioma que aplicais às vossas ciências. Não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem e a vossa razão responderá.”

A razão, com efeito, vos diz que Deus deve possuir em grau supremo essas perfeições, porquanto, se uma Lhe faltasse, ou não fosse infinita, já Ele não seria superior a tudo, não seria, por conseguinte, Deus. (Resposta à questão 13 do LE)

LE - Questão 75. É acertado dizer-se que as faculdades instintivas diminuem à medida que crescem as intelectuais? “Não; o instinto existe sempre, mas o homem o despreza. O instinto também pode conduzir ao bem. Ele quase sempre nos guia e algumas vezes com mais segurança do que a razão. Nunca se transvia.”
a) - Por que nem sempre é guia infalível a razão? “Seria infalível, se não fosse falseada pela má educação, pelo orgulho e pelo egoísmo. O instinto não raciocina; a razão permite a escolha e dá ao homem o livre arbítrio.”
O instinto é uma inteligência rudimentar, que difere da inteligência propriamente dita, em que suas manifestações são quase sempre espontâneas, ao passo que as da inteligência resultam de uma combinação e de um ato deliberado. O instinto varia em suas manifestações, conforme às espécies e às suas necessidades. Nos seres que têm a consciência e a percepção das coisas exteriores, ele se alia à inteligência, isto é, à vontade e à liberdade.


Há muitas coisas que não compreendeis, porque tendes limitada a inteligência. Isso, porém, não é razão para que as repilais. O filho não compreende tudo o que a seu pai é compreensível, nem o ignorante tudo o que o sábio apreende. Dizemos que a existência dos Espíritos não tem fim. É tudo o que podemos, por agora, dizer.” (Resposta à questão 83 do LE)

Não temos visto a Ciência contraditar a forma do texto bíblico, no tocante à Criação e ao movimento da Terra? Não se dará o mesmo com algumas figuras de que se serviu o Cristo, que tinha de falar de acordo com os tempos e os lugares? Não é possível que ele haja dito conscientemente uma falsidade. Assim, pois, se nas suas palavras há coisas que parecem chocar a razão, é que não as compreendemos bem, ou as interpretamos mal. (Resposta à questão 131 do LE)

(...) tê-la-íamos repelido, mesmo que provindo dos Espíritos, se nos parecera contrária à razão, como
repelimos muitas outras, pois sabemos, por experiência, que não se deve aceitar cegamente tudo o que venha deles, da mesma forma que se não deve adotar às cegas tudo o que proceda dos homens
(Item 222 do LE)


Cabe-nos tudo julgar friamente e pesar-lhes as revelações na balança da razão. (Item 445 do LE)

À razão cabe distinguir as necessidades reais das factícias ou convencionais. (Resposta à questão 635 do LE)
LE - Questão 712. Com que fim pôs Deus atrativos no gozo dos bens materiais? “Para instigar o homem ao cumprimento da sua missão e para experimentá-lo por meio da tentação.”
a) - Qual o objetivo dessa tentação? “Desenvolver-lhe a razão, que deve preservá-lo dos excessos.”


O homem, que procura nos excessos de todo gênero o requinte do gozo, coloca-se abaixo do bruto, pois que este sabe deter-se, quando satisfeita a sua necessidade, Abdica da razão que Deus lhe deu por guia e quanto maiores forem seus excessos, tanto maior preponderância confere ele à sua natureza animal sobre a sua natureza espiritual. As doenças, são, ao mesmo tempo, o castigo à transgressão da lei de Deus. (Resposta à questão 714)

O homem, que procura nos excessos de todo gênero o requinte do gozo, coloca-se abaixo do bruto, pois que este sabe deter-se, quando satisfeita a sua necessidade. Abdica da razão que Deus lhe deu por guia e quanto maiores forem seus excessos, tanto maior preponderância confere ele à sua natureza animal sobre a sua natureza espiritual. As doenças, são, ao mesmo tempo, o castigo à transgressão da lei de Deus. (Resposta à questão 717 do LE)

LE - Questão 802. Visto que o Espiritismo tem que marcar um progresso da Humanidade, por
que não apressam os Espíritos esse progresso, por meio de manifestações tão generalizadas e patentes, que a convicção penetre até nos mais incrédulos? “Desejaríeis milagres; mas Deus os espalha a mancheias diante dos vossos passos e, no entanto, ainda há homens que o negam. Conseguiu, porventura, o próprio Cristo convencer os seus contemporâneos, mediante os prodígios que operou? Não conheceis presentemente alguns que negam os fatos mais patentes, ocorridos às suas vistas? Não há os que dizem que não acreditariam, mesmo que vissem? Não; não é por meio de prodígios que Deus quer encaminhar os homens. Em Sua bondade, Ele lhes deixa o mérito de se convencerem pela razão.”


Sem o livre-arbítrio, o homem não teria nem culpa por praticar o mal, nem mérito em praticar o bem. E isto a tal ponto está reconhecido que, no mundo, a censura ou o elogio são feitos à intenção, isto é, à vontade. Ora, quem diz vontade diz liberdade. Nenhuma desculpa poderá, portanto, o homem buscar, para os seus delitos, na sua organização física, sem abdicar da razão e da sua condição de ser humano, para se equiparar ao bruto. (Item 872 do LE)

A idéia do nada tem qualquer coisa que repugna à razão. O homem que mais despreocupado seja durante a vida, em chegando o momento supremo, pergunta a si mesmo o que vai ser dele e, sem o querer, espera. (Resposta à questão 959 do LE)

Ensinando-nos que a alma é um ser todo espiritual, a razão, mais esclarecida, nos diz, por isso mesmo, que ela não pode ser atingida pelas impressões que apenas sobre a matéria atuam. (Resposta à questão 973)

Limitada tendes, é certo, a vossa razão humana, porém, tal como a tendes, ela é uma dádiva de Deus e, com auxílio dessa razão, nenhum homem de boa-fé haverá que de outra forma compreenda a eternidade dos castigos. (Platão, em comentário à questão 1009 do LE)

“Oh! Em verdade vos digo, cessai, cessai de pôr em paralelo, na sua eternidade, o Bem, essência do Criador, com o Mal, essência da criatura. Fora criar uma penalidade injustificável. Afirmai, ao contrário, o abrandamento gradual dos castigos e das penas pelas transgressões e consagrareis a unidade divina, tendo unidos o sentimento e a razão.” (PAULO, apóstolo, em comentário à mesma questão)

Racionalmente, pois, não se pode admitir a ressurreição da carne, senão como uma figura simbólica do fenômeno da reencarnação. E, então, nada mais há que aberre da razão, que esteja em contradição com os dados da Ciência. (Resposta à questão 1011 do LE)

O Espiritismo é o mais terrível antagonista do materialismo. Não é, pois, de admirar que tenha por adversários os materialistas. Mas, como o materialismo é uma doutrina cujos adeptos mal ousam confessar que o são (prova de que não se consideram muito fortes e têm a dominá-los a consciência), eles se acobertam com o manto da razão e da ciência. E, coisa estranha, os mais cépticos chegam a falar em nome da religião, que não conhecem e não compreendem melhor que ao Espiritismo. Por ponto de mira tomam o maravilhoso e o sobrenatural, que não admitem. Ora, dizem, pois que o Espiritismo se funda no maravilhoso, não pode deixar de ser uma suposição ridícula. (LE, Conclusão)

Duas doutrinas se defrontam: uma, que nega o futuro; outra, que lhe proclama e prova a existência; uma, que nada explica, outra, que explica tudo e que, por isso mesmo, se dirige à razão; uma, que é a sanção do egoísmo; outra, que oferece base à justiça, à caridade e ao amor do próximo. A primeira somente mostra o presente e aniquila toda esperança; a segunda consola e desvenda o vasto campo do futuro. Qual a mais preciosa? (LE, idem)

O Espiritismo é forte porque assenta sobre as próprias bases da religião; Deus, a alma, as penas e as recompensas futuras; sobretudo, porque mostra que essas penas e recompensas são corolários naturais da vida terrestre e, ainda, porque, no quadro que apresenta do futuro, nada há que a razão mais exigente possa recusar. (LE, ibid.)

Falsíssima idéia formaria do Espiritismo quem julgasse que a sua força lhe vem da prática das manifestações materiais e que, portanto, obstando-se a tais manifestações, se lhe terá minado a base. Sua força está na sua filosofia, no apelo que dirige à razão, ao bom senso. (...) Fala uma linguagem clara, sem ambigüidades.
Nada há nele de místico, nada de alegorias susceptíveis de falsas interpretações. Quer ser por todos compreendido, porque chegados são os tempos de fazer-se que os homens conheçam a verdade. Longe de se opor à difusão da luz, deseja-a para todo o mundo. Não reclama crença cega; quer que o homem saiba por que crê. Apoiando-se na razão, será sempre mais forte do que os que se apóiam no nada. (LE, Ibid.)



Do ponto de vista religioso, a fé consiste na crença em dogmas especiais, que constituem as diferentes religiões. Todas elas têm seus artigos de fé. Sob esse aspecto, pode a fé ser raciocinada ou cega. Nada examinando, a fé cega aceita, sem verificação, assim o verdadeiro como o falso, e a cada passo se choca com a evidência e a razão. Levada ao excesso, produz o fanatismo. Em assentando no erro, cedo ou tarde desmorona; somente a fé que se baseia na verdade garante o futuro, porque nada tem a temer do progresso das luzes, dado que o que é verdadeiro na obscuridade, também o é à luz meridiana. Cada religião pretende ter a posse exclusiva da verdade; preconizar alguém a fé cega sobre um ponto de crença é confessar-se impotente para demonstrar que está com a razão. (O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. 19, item 6)

Em certas pessoas, a fé parece de algum modo inata; uma centelha basta para desenvolvê-la. Essa facilidade de assimilar as verdades espirituais é sinal evidente de anterior progresso. Em outras pessoas, ao contrário, elas dificilmente penetram, sinal não menos evidente de naturezas retardatárias. As primeiras já creram e compreenderam; trazem, ao renascerem, a intuição do que souberam: estão com a educação feita; as segundas tudo têm de aprender: estão com a educação por fazer. Ela, entretanto, se fará e, se não ficar concluída nesta existência, ficará em outra.
A resistência do incrédulo, devemos convir, muitas vezes provém menos dele do que da maneira por que lhe apresentam as coisas. A fé necessita de uma base, base que é a inteligência perfeita daquilo em que se deve crer. E, para crer, não basta ver; é preciso, sobretudo, compreender. A fé cega já não é deste século (1), tanto assim que precisamente o dogma da fé cega é que produz hoje o maior número dos incrédulos, porque ela pretende impor-se, exigindo a abdicação de uma das mais preciosas prerrogativas do homem: o raciocínio e o livre-arbítrio. É principalmente contra essa fé que se levanta o incrédulo, e dela é que se pode, com verdade, dizer que não se prescreve. Não admitindo provas, ela deixa no espírito alguma coisa de vago, que dá nascimento à dúvida. A fé raciocinada, por se apoiar nos fatos e na lógica, nenhuma obscuridade deixa. A criatura então crê, porque tem certeza, e ninguém tem certeza senão porque compreendeu. Eis por que não se dobra. Fé inabalável só o é a que pode encarar de frente a razão, em todas as épocas da Humanidade.
A esse resultado conduz o Espiritismo, pelo que triunfa da incredulidade, sempre que não encontra oposição sistemática e interessada. (EV - Cap. 19, item 7)

O irracional na produção do conhecimento científico

O filósofo Gilles Gaston Granger encarou o desafio de compreender o papel do irracional na produção do conhecimento científico. Em O irracional (Ed. Unesp), ele se propõe a considerar a sua presença fundamental em certas "criações maiores" do espírito humano, e suas consequências.
Para ele, há três casos possíveis:
1. aceitá-lo como um obstáculo a ser transposto;
2. aceitá-lo como um recurso, abandonando deliberadamente as regras da racionalidade;
3. renunciar ao racional, dando vazão à fantasia.
Granger reconhece um irracional epistêmico, aquele que aparece no próprio processo de conhecimento, quando esse processo encontra inesperadamente uma propriedade de seu objeto que impede de prosseguir esse processo tal qual. Seria o caso narrado em Uma estranha realidade, em que o autor não consegue compreender nem explicar a queda das folhas do sicômoro.
- Seu problema é que quer entender tudo, e isso não é possível. Se insiste em entender, não está considerando todo seu destino como ser humano. - Diz o xamã.
(Os cientistas em geral não estão considerando nosso destino espiritual infinito...)
- Você está acorrentado - exclamou Dom Juan. - Está acorrentado à sua razão.
Ao lado do irracional epistêmico, porém, de acordo com o filósofo, temos também o irracional técnico e o axiológico. O primeiro se refere a processos mais eficazes e econômicos que surgem quando falta o conhecimento científico suficiente. O segundo se refere à falta de coerência com um sistema de valores.

O irracional pode ser sentido, não como uma oposição ao racional - segundo Granger - mas antes como uma abertura para um mundo oculto ao mesmo tempo que o signo precursor, ainda indistinto, de uma ciência futura.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Energia e consciência


O caminho do conhecimento é um caminho forçado. A fim de aprender, temos de ser empurrados. No caminho do conhecimento, estamos sempre lutando contra alguma coisa, evitando alguma coisa, preparados para alguma coisa; e essa coisa é sempre inexplicável, maior, mais poderosa que nós. (Carlos Castaneda em Uma estranha realidade)

Um dia, diante de Dom Juan, eu pude sentir como as coisas importavam pouco, afinal. Disse a ele que devíamos agradecer-lhe pelo esforço de registrar todos os seus conhecimentos e histórias, pois era importante que a tradição dos xamãs de sua linhagem não perecesse, que tivéssemos testemunhos escritos. Sua presença inspirava grande respeito mas, ao mesmo tempo, deixava transparecer uma certa displicência por si próprio. Fiquei bastante emocionada por estar ali, mas ele me fez ver que o que tinha feito de importante, de fato, era praticamente nada: simplesmente estar sentado numa parada de ônibus, um certo dia, quando um jovem veio puxar conversa, interessado em saber coisas sobre plantas.
A vida não deixa seus propósitos sempre claros, porque faz parte do aprendizado o empenho em descobrir.
Acho que naquele dia eu entendi também o que ele quis dizer sobre a morte não ser nada - porque não existe um evento específico geral que podemos chamar de morte, existe apenas o momento singular em que suas sensações físicas amortecem e você continua o que estava fazendo, percebendo de pronto o que houve ou não.
De novo, o seu nominalismo transpareceu, na compreensão da importância das coisas que são percebidas de uma certa forma apenas por quem as vivencia, e pronto. Não vale a pena falar sobre elas. Quando um homem aprende a ver, não prevalece nenhuma única coisa que ele conheça. Nenhuma única. - Disse Dom Juan em Uma estranha realidade. A consciência é apenas ver. Ver sabendo que aquilo é. Ver conforme se expressa na energia.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Dor e prazer como percepções do cognoscente


Se a energia flui de uma certa maneira, seguir o fluxo da energia é, para eles, ser funcional. Função é, portanto, o denominador comum através do qual os xamãs encaram os fatos energéticos de seu mundo cognitivo. Eu já citei este trecho de A erva do diabo em outra postagem.
O mundo cognitivo dos xamãs do México Antigo registra unidades que são os fatos energéticos. Percebidos, são eles que dão informações sobre a realidade. Elaborados, eles permitem teorizar e generalizar, criando uma ciência do mundo invisível que pode predizer e explicar fenômenos, permitindo que eles se orientem funcionalmente na existência.
A função pedagógica da dor e do prazer
Dor e prazer são fatos energéticos, antes de serem sensações humanas. John Pierrakos diz que a dor sinaliza a fragmentação da integridade do ser humano. Acontece quando o fluxo de energia é bloqueado dentro do organismo (...). Quando a corrente flui sem impedimentos, produz a sensação e a experiência do prazer. A dor é produzida por uma rigidez, bloqueio ou contração que interrompe ou inibe o fluxo de energia.
Se o intento do universo é aumentar a consciência, a função da dor e do prazer é despertá-la. A percepção subjetiva e objetiva da dor e do prazer, aliada à certeza de que eles começam e terminam em nós mesmos, nos ensinam sobre nossa forma de fluir ou não na realidade, bem como sobre a melhor forma de funcionarmos. Lembro de Calunga dizendo "Se está doendo, é porque está errado."
Pierrakos não exagera ao afirmar que Reich é o precursor de uma nova era em que poderemos esperar construir uma síntese universal do conhecimento. (Energética da essência, p. 51) Uma epistemologia dos estados alterados que leva a uma epistemologia dos fatos energéticos.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Além da mente conceitual


O Fer gosta muito de buscar coisas interessantes na internet, e ele encontra muitas.
Passeando num site que ele tinha achado, encontrei a arte de Pablo Amaringo e na arte deste peruano uma imagem que me impressionou muito: um curandeiro de cuja boca saiam cobras brancas enquanto tratava uma mulher doente. Está em um dos quadros que postei anteontem, detalhe ao lado.
Ela me impressionou por uma razão muito simples: repetidas vezes nos rituais xamânicos de que participei, eu vi cobras, dezenas delas, negras e brilhantes, saindo de mim. E se espalhavam rapidamente pelo chão, geralmente em torno da fogueira. Os Espíritos que conversavam comigo me mostraram que elas “destruíam” resíduos de energias que tinham ficado no ambiente. Estavam relacionadas à cura.
Corroborando o que eles me disseram, o livro Ayahuasca visions, explica que as cobras na pintura estão extraindo do corpo da mulher os espinhos de uma planta que está causando a doença.
O quadro fala de algo que já vivi, sem saber que alguém tinha visto e registrado antes de mim.
O que isto me mostra, sobre o conhecimento? Que ele está além do raciocínio, além do árduo palmilhar da mente conceitual. Como escreveu John Pierrakos em Energética da essência: "Freud observou a Thornton Wilder que a intuição criativa faz muitas descobertas produtivas, a que a pesquisa científica só chega muito tempo depois. Essas descobertas científicas vêm muito atrasadas (...)."
Isso, porém, não diminui o valor da ciência. Nem da mente conceitual, que ainda é nossa rede de proteção quando damos aquilo que Einstein e João da Cruz chamam de "saltos de compreensão". O problema da rede é nos apegarmos a ela como se fosse tudo o que existe. Certo, Hans?

terça-feira, 21 de julho de 2009

Visões de Pablo Amaringo








As telas de autoria do artista Pablo Amaringo (1943) são parte integrante do livro Ayahuasca visions, the religious iconography of a peruvian shaman, de Pablo Amaringo e Luis Eduardo Luna (North Atlantic Books). Mais sobre o livro aqui.

terça-feira, 14 de julho de 2009

"Condição predatória" do universo, segundo Dom Juan


Estamos sendo continuamente puxados, empurrados e testados pelo próprio universo. Para eles [os xamãs do México antigo] era um fato energético que o universo em geral é predatório ao máximo. (...) A condição predatória do universo significava que o intentar do universo é estar continuamente testando a consciência. (...) Exercendo pressão sobre todos esses seres [orgânicos e inorgânicos], o universo os força a expandir a própria consciência deles, e dessa forma o universo se esforça para se tornar mais consciente de si próprio. No mundo cognitivo dos xamãs, portanto, a consciência é o resultado final. (Carlos Castaneda, em A erva do diabo)

É a segunda vez que transcrevo o trecho acima, que assumiu um outro significado a partir da recente leitura de O caminho da autotransformação.
O "universo autoconsciente" - como o denomina Goswami - não pode evitar ser mais consciente. A consciência não pode evitar de se expandir, é de sua própria natureza a curiosidade e o aprendizado. Por isso, querer fechar-se em sistemas perfeitos é uma ilusão, imaginar que se atingiu o ápice da compreensão das coisas, em nosso momento evolutivo, é uma ilusão.
É mais sábio e conforme a natureza da consciência aceitar a própria expansibilidade, a impermanência dos conceitos e idéias, a eventual derrocada das certezas. Todo conhecimento em nosso momento evolutivo precisa ser encarado como provisório e descartável.
Citando John Pierrakos, em Energética da essência: As grandes inovações na Terra foram feitas através da intuição. (...) Os brilhantes saltos de compreensão, para usar uma expressão registrada por gênios tão díspares quanto o místico cristão João da Cruz e o físico Albert Einstein, originam-se na Essência. (...) Cada um de nós tem aquilo que alguns chamam de percepção intuitiva ou momentos de verdade, ou rasgos de percepção cuja origem não percebemos, mas cuja realidade profunda nos inunda de convicção.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Mente oriental




Mandala





Yin Yang