
Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os fatos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que tinha a me ensinar, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido. Não desejava viver o que não era vida, a vida sendo tão maravilhosa, nem desejava praticar a resignação, a menos que fosse de todo necessária. Queria viver em profundidade e sugar toda a medula da vida, viver tão vigorosa e espartanamente a ponto de pôr em debandada tudo que não fosse vida, deixando o espaço limpo e raso; encurralá-la num beco sem saída, reduzindo-a a seus elementos mais primários, e, se esta se revelasse mesquinha, adentrar-me então em sua total e genuína mesquinhez e proclamá-la ao mundo; e se fosse sublime, sabê-lo por experiência, e ser capaz de explicar tudo isso na próxima digressão. (Trecho de Walden, ou a vida nos bosques)
Essas palavras, pra mim, valem por um manifesto que eu assinaria. Viver e vida são palavras que, juntas, foram usadas nada mais e nada menos que 10 vezes nesse trecho. (Um "10" pra quem liga ou é um "pitagórico".)
Bem, partindo disso, uma das coisas que andei meditando, em torno de Thoreau, é o seguinte: como "sugar toda a medula da vida" entraria num projeto pedagógico?
O simples e adorável livro de Yvonne Berge, Viver o seu corpo, me mostrou algumas respostas, mas ainda não avançou o bastante. O Emílio, de Rousseau, ajuda maravilhosamente...
Bem, a pedagogia que vislumbro a fim de que a criança se perceba viva e apta a sugar seiva da vida, seguindo os princípios do Walden, é uma pedagogia:
- que apresente a vida como a grande e infinita dádiva que temos para usar do jeito que quisermos;
- que mostre que existem em nós e na sociedade padrões internos que afirmam a vida e outros que a negam, e que escolhemos sempre qual dos dois apoiamos, recebendo as conseqüências;
- que ajude a perceber que a harmonia e a beleza fazem parte de uma vida satisfatória, por isso é importante cultivá-las dentro de si e em torno de si.
O que isso teria a ver com uma proposta pedagógica espírita? Tudo! Viver é perceber-se corpo, o que afinal decorre da compreensão espírita do processo reencarnatório, que implica em estar ligado a todas as células dele. Mas quanto de fato nos sentimos assim? Qual nosso grau costumeiro de consciência corporal, de mobilidade, de saúde física geral?
Uma proposta de educação do corpo e do movimento tb não nos leva só ao outro extremo, da atividade constante. Como em tudo o que é sábio na vida e na Natureza, há que se chegar a um equilíbrio. Como na vida!
Fazer > sentir > refletir > escolher > transformar = vida!
ou
Refletir > escolher > fazer > sentir > transformar = vida!
Depois vou escrever mais...
Nenhum comentário:
Postar um comentário