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segunda-feira, 3 de maio de 2010

Realidades e mundo real

Talvez minha posição sobre o realismo metafísico não esteja suficientemente clara. Creio no mundo externo. Creio em coisas que existem independente do meu estado mental e de minhas percepções e construtos racionais.
Creio que sou aquilo que William Whewell (1794-1866), filósofo inglês, denominou "descobridor", para quem o mundo real se revela conforme sua capacidade de compreendê-lo se amplia.
As realidades, porém, podem ser muitas, porque elas reúnem as circunstâncias que percebo e sobre as quais opero.
Existem realidades além daquelas percebidas pelos cinco sentidos, que descortinam novas faces do mundo real que vamos apreendendo. Grof fala no video abaixo de uma realidade que experimentou em sua juventude e que modificou sua trajetória para sempre.



Não creio ser obrigatório experimentar LSD, ou outra substância, para acessar outras realidades. Os extáticos, descritos por Kardec no capítulo 8 de O Livro dos Espíritos, exemplificam outro caso de contato com uma realidade extraordinária. Os contatos mediúnicos narrados por Yvonne A. Pereira em Recordações da mediunidade, idem.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Uma ciência dos estados alterados?


Uma característica das realidades apresentadas por Grof (Psicologia do futuro) e Castaneda (A erva do diabo e Uma estranha realidade) é a presença de elementos constitutivos próprios da experiência. Tais elementos se repetem em ocasiões seguidas nos atendimentos de Grof a seus pacientes, e são consensuais numa comunidade, no caso dos feiticeiros do México. Se Castaneda narra sua experiência em primeira pessoa, Grof baseia-se em inúmeros casos clínicos passíveis de classificação, comparação e de compartilhamento.
A moral, de importância destacada na ciência que estuda a mediunidade, apresenta-se aqui também como indispensável, e o desinteresse por vantagens pessoais de cada cientista é a garantia da legitimidade e veracidade dos resultados.
Afinal, para falar em comunidade científica, o que está implícito na noção de conhecimento científico, temos de pensar num ambiente que estimule a ética, a cooperação, o compartilhar, que leve ao aperfeiçoamento das concepções particulares numa somatória de conhecimentos que se torne um empreendimento coletivo. Lembrando Maturana, em Emoção e Linguagem na Educação e na Política, vemos que o ambiente de competição não é propício ao estabelecimento das bases de uma ciência, mas a solidariedade tende a favorecer seu progresso.
Ao cooperar e compartilhar, torna-se possível sair de um único ponto de vista para encontrar afirmações consensuais que constituirão nossas hipóteses, teorias e leis científicas. Poderemos falar então de uma ciência que enxerga além da matéria sem devanear, sem delirar, mas baseada em percepções além dos cinco sentidos físicos.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Topografia de uma realidade não comum 2

A ciência materialista tende a considerar real e digno de apreciação somente aquilo que pode ser capturado por meio dos cinco sentidos materiais. No entanto, há outras realidades, como a realidade espiritual, estudada pelo Espiritismo.
Transitar numa realidade que chamamos de incomum ou alternativa não é apenas uma experiência psicológica ou delírio. Os estados alterados de consciência têm sido objeto de pesquisa científica e utilizados com finalidades práticas, para cura e esclarecimento, por psiquiatras, xamãs e pelos próprios Espíritos.
Stanislav Grof abre seu livro Psicologia do futuro, falando do potencial curativo e heurístico dos estados psicodélicos (aqueles que são induzidos por certos alucinógenos, como o LSD, que ele chegou a utilizar em sua pesquisa e prática clínica até ser proibido).
Pesquisas dos estados alterados de consciência, sejam naturais ou induzidos, apresentam algumas características que podemos analisar usando os critérios da ciência espírita, presentes na obra de Kardec, em especial em A gênese e em O livro dos Médiuns.

Mapa da consciência ampliada
Diz Grof que a consciência pode ser profundamente modificada por estados não comuns de consciência, considerados clinicamente importantes e significativos. Sua observação em anos de atendimento a pacientes o levarama provocar aquilo que ele chama de estados holotrópicos (holos=todo; tropos=direção; ou seja estados dirigidos a uma totalidade) e seu efeito sobre os processos de pensamento, já que o intelecto passa a operar a partir de novos parâmetros. De acordo com o psiquiatra tcheco, durate o transe pode-se ter de insights a revelações extraordinárias relativas à nossa história pessoal, relacionamentos, vidas anteriores e propósitos de vida.
Grof, com base nos casos que pesquisou e tratou, desenha um mapa dos domínios que a consciência pode visitar nestes estados, que ele chama de:
  • Domínio biográfico, que envolve questões da vida presente;
  • Domínio perinatal, que envolve gestação e parto biológico;
  • Domínio transpessoal, que traz memórias raciais, ancestrais (incluindo outras vidas), experiências mediúnicas, encontros com seres espirituais, entre outras.
Segundo Grof observa nesta obra, "as experiências transpessoais têm muitas características estranhas que põem por terra as mais fundamentais suposições metafísicas da visão de mundo materialista e do paradigma newtoniano-cartesiano" .

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Cartografia dos estados alterados: projetos inacabados


Uma das coisas que tenho apreciado ao ler (ainda) o livro do Maturana é que ele suscita perguntas, eu penso sobre elas e, num dado momento, ele acena com pistas ou, mesmo, com respostas.
Quando eu disse “minha segunda pergunta é se aquele que costumamos considerar o estado normal ou usual de consciência é o que nos dá realmente melhor percepção e menos ilusão sobre o que observamos”, eu não pensava no que encontraria em páginas posteriores: no caminho explicativo da objetividade-entre-parênteses existem muitos domínios de realidades diferentes mas igualmente legítimos, ainda que não igualmente desejáveis, cada um constituído como um domínio de coerências operacionais na experiência do observador. E também me dou conta de que no caminho explicativo da objetividade-entre-parênteses uma afirmação cognitiva é um convite feito ao outro para entrar num certo domínio de coerências operacionais...
Eu sei que isso não tem NECESSARIAMENTE a ver com domínios visitados por uma consciência em estados modificados. Sei que muitos de meus ex-professores diriam que estou forçando uma interpretação. Mas não estou.
Estou apenas estendendo o conceito de "domínios de realidades", levando em conta os tipos de experiências possíveis em diferentes estados naturais de consciência (vigília, sono, sonho, observação e percepção não-dual, segundo Ken Wilber em Espiritualidade Integral) e em estados alterados exógenos (induzidos por drogas) ou endógenos (como os meditativos, vivências fora do corpo e transe mediúnico).
No caminho de uma epistemologia abrangente
A questão que interessa à teoria do conhecimento é saber se há possibilidade de uma epistemologia, onde seria possível identificar os critérios de atribuição de validade ao conhecimento possível em tais estados e uma metodologia própria de pesquisa.
Bem, o próprio Wilber propõe uma cartografia destes estados, embora assumindo que as correlações que estabelece sejam "polêmicas e difíceis de comprovar". Mais restrito, porém mais calcado em casos clínicos, é o mapeamento de Stanislav Grof em Psicologia do Futuro, ao descrever os domínios "biográfico, perinatal e transpessoal" das experiências em estados alterados - que ele chama de 'holotrópicos'.
Reconheço ambos os mapas como importantes projetos inacabados.
E não podemos nos esquecer das fundamentais contribuições de Allan Kardec, na análise dos fenômenos anímicos e mediúnicos, e nos seus apontamentos sobre a segurança possível dos relatos mediúnicos e outros.
Quero analisar estes relatos como convites para um domínio natural (embora incomum) de afirmações cognitivas de pleno direito.
(Ainda não terminei de pensar nisso.)