Até o Renascimento, o dogma religioso imperava como forma predominante de conhecimento, mesmo em matérias hoje consideradas de cunho científico. O modelo de Aristóteles (384-322 a.C.) e Ptolomeu (83-161 d.C.) se correlacionava ao texto bíblico e era aceito como verdade incontestável: a Terra era vista como o centro do Cosmo. Corpos leves e graves tinham seu lugar natural. O mundo sublunar era corrupto e imperfeito, enquanto o supralunar era puro, indefectível. Mas a partir do século 16, incentivadas por inteligências como a de Galileu (1564-1642), que via o livro do Universo escrito em caracteres matemáticos, gerações de cientistas subsequentes assumiram a tarefa de desvendar os mecanismos da vida baseados em novos princípios quantitativos, independente do que diziam as Escrituras, os padres e os aristotélicos. Trataram de observar, pesar e medir todos os objetos de estudo, estabelecendo relações matemáticas que se tornaram leis científicas sobre o funcionamento dos processos da realidade e acabaram por tornar Deus desnecessário.
Com o tempo, tamanha foi a rejeição às idéias religiosas, que soavam retrógradas e fantasiosas, que a ciência da matéria acabou por erigir-se como se fosse o único repositório de conhecimento seguro e comprovável que se poderia desejar obter. E o poder de pesar, medir e estabelecer relações matemáticas, explicando todos os fenômenos por meio destas relações, tornou-se o objetivo máximo dos cientistas.
Na nova visão de ciência que surgia, os pesquisadores admitiam que só poderiam ser considerados reais (e científicos) os conceitos baseados naquilo que se vê e se mede, isto é, no que faz parte do mundo físico. Na sua prática, muitos cientistas tornaram-se tão dogmáticos quanto as antigas autoridades eclesiásticas, fervorosamente apegados a conceitos materialistas e avessos a noções que envolvessem a existência do espírito ou de uma realidade imperceptível para os cinco sentidos físicos. E o modelo materialista dogmático se tornou base para o pensamento científico dominante, até os dias atuais.
Dogmas do materialismo
Os dogmas materialistas, num certo sentido, são crenças que condicionam a uma visão de mundo que descarta tudo aquilo que não se vê, pesa ou mede com nossos instrumentos. Como se crer no invisível e imponderável fosse anticientífico ou irracional.
Há, contudo, uma distância entre as leis da Natureza criadas por Deus e os dogmas admitidos como verdades científicas pelos materialistas. Há uma distância entre conceitos racionais e conceitos meramente baseados em quantificações de objetos palpáveis. E há, enfim, uma distância entre o que conseguimos perceber fisicamente, medir e pesar, e aquilo que existe de fato como força atuante na Natureza.
Allan Kardec registrou na Conclusão de O livro dos Espíritos sua opinião sobre as crenças materialistas. Disse ele que os materialistas se acobertam com o manto da razão e da ciência, atacando as idéias espiritualistas, como se estas exprimissem noções atrasadas, pertencentes ao mundo do maravilhoso e do sobrenatural. Mas que, ao atacar o maravilhoso e o sobrenatural, eles não atingem a ciência espírita, que é toda sustentada sobre bases da racionalidade, da lógica e das leis naturais, independente de princípios seus (como Deus, imortalidade etc.) haverem pertencido até aquele momento ao domínio da religião. Segundo o Codificador, o Espiritismo é forte porque assenta sobre as próprias bases da religião; Deus, a alma, as penas e as recompensas futuras; sobretudo, porque mostra que essas penas e recompensas são corolários naturais da vida terrestre e, ainda, porque, no quadro que apresenta do futuro, nada há que a razão mais exigente possa recusar. E assevera: Nada há [no Espiritismo] de místico, nada de alegorias susceptíveis de falsas interpretações. Quer ser por todos compreendido, porque chegados são os tempos de fazer-se que os homens conheçam a verdade. Longe de se opor à difusão da luz, deseja-a para todo o mundo. Não reclama crença cega; quer que o homem saiba por que crê. Apoiando-se na razão, será sempre mais forte do que os que se apóiam no nada.
Verdadeira e falsa idéia de razão
É preciso entender a que razão Kardec se refere como alicerce para a convicção espiritual. O materialismo considera-se racional em suas escolhas teóricas e metodológicas. No próprio O livro dos Espíritos, lê-se, contudo: O que se chama razão não é muitas vezes senão orgulho disfarçado e quem quer que se considere infalível apresenta-se como igual a Deus. Não é, portanto, esta razão falseada que fundamenta a fé raciocinada. Muito ao contrário, é a razão ponderada e iluminada pela humildade, daqueles que duvidam do que não viram, mas que, julgando do futuro pelo passado, não crêem que o homem haja chegado ao apogeu nem que a Natureza lhe tenha facultado ler a última página do seu livro.
A fé raciocinada baseia-se nos fatos, na experiência e na lógica, não se limitando aos dados colhidos da observação da matéria densa. Mas é preciso ter olhos capazes de ver a verdade espiritual.
Um fato observado por Ludwig Fleck (1896-1961), biólogo e filósofo polonês que influenciou Thomas Kuhn (1922-1996) em sua noção de paradigma, é que nossos olhos vêem o que estão preparados para ver. Fleck notou que os alunos que recebiam uma nova lâmina para observar ao microscópio eram inicialmente incapazes de enxergar o que ali estava para ser examinado. Com tempo e treino da visão, porém, todos os estudantes passavam a enxergá-lo. Podemos, portanto, "abrir a mente" e nos preparar para enxergar aquilo que o nível físico da realidade oculta de nós, ampliando a noção de racionalidade, pondo de lado aquilo que choca o bom senso por ser francamente contraditório, mas aceitando que há ainda muito que ser descoberto e compreendido à frente. Era assim que Kardec procedia.
Houve um tempo em que era aceitável que a Terra fosse o centro do Universo, que os corpos pesados caíssem porque estavam buscando seu lugar natural, que a matéria fosse feita de partículas sólidas, e tudo isso parecia muito racional. Até o advento da física quântica, acreditávamos na possibilidade de estabelecer a localização absoluta de cada objeto existente. Hoje se admite que as partículas subatômicas não são sólidas (são praticamente feitas de um enorme vazio), que sua natureza parece ser dual, comportando-se ora como partículas, ora como ondas, e que é impossível determinar ao mesmo tempo a sua velocidade e sua localização no espaço. Hoje se sabe que o observador influencia o comportamento da partícula observada, embora ainda não seja possível fazer um modelo matemático do que o observador está fazendo quando observa a realidade.
Isso significa que a razão é um instrumento importante de desvendamento e compreensão das leis que operam no Cosmo. Mas não podemos nos esquecer de que a razão, como atributo da inteligência, está em evolução e tem um longo caminho à frente, apesar das mentalidades retardatárias que insistem no apego aos dogmas do materialismo.
Lemos em O Evangelho segundo o Espiritismo: Em certas pessoas, a fé parece de algum modo inata; uma centelha basta para desenvolvê-la. Essa facilidade de assimilar as verdades espirituais é sinal evidente de anterior progresso. Em outras pessoas, ao contrário, elas dificilmente penetram, sinal não menos evidente de naturezas retardatárias. As primeiras já creram e compreenderam; trazem, ao renascerem, a intuição do que souberam: estão com a educação feita; as segundas tudo têm de aprender: estão com a educação por fazer. E a educação ocorre pela inevitável força que encaminha os seres ao progresso e ao entendimento das realidades espirituais.