segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Samsara


A libertação ocorre, simplesmente, através do reconhecimento daquilo que o prende. (Trecho do Mahamudra, the ocean of definitive meaning, do 9º Gyalwang Karmapa, Wangchuk Dorje)

O hinduísmo, o jainismo e o budismo concordam em que alma atravessa, no seu caminho para a perfeição, o ciclo de mortes e renascimentos, às vezes chamado de samsara.
A principal característica de samsara (que pode ser traduzido por "constante fluir") é a crença na realidade do mundo temporal e fenomenal. Os ensinamentos do Buda constituem-se em métodos de libertação dos grilhões das mortes e renascimentos, no qual nos mantemos principalmente devido aos nossos apegos. Tais apegos podem ser dirigidos a objetos, pessoas, emoções, situações passadas, o que quer que prenda a alma a este mundo, impedindo-a de reconhecer-se como ser imortal.
A evolução do Espírito, que se dá pelo aumento da consciência da sua própria natureza além da matéria e da contingência, cria condições para essa libertação, onde cessa a necessidade de reviver as situações-limite (de sua compreensão e desenvolvimento) no cenário da vida na Terra. O ser iluminado (bodhi) não precisa mais renascer para aprender - embora possa fazê-lo, a reencarnação deixa de ser uma condição imposta para ser uma opção.

O budismo Ch'an utiliza como técnica para libertar-se da roda de samsara o estudo de koans, histórias curtas que, segundo o Mestre Hsin Ting em A engenharia da vida, empurram o praticante até os limites da racionalidade, na tentativa de irromper em uma percepção direta da realidade (vermelhos meus).

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O observador está incluído na observação?






Monet, O jardim da casa em Argenteuil, 1873







Renoir, Monet pintando em seu jardim em Argenteuil, 1873

A relação entre o observador e o fato observado é uma antiga questão epistemológica.
Durante muito tempo, ninguém duvidava de que o observador e o fato observado fossem duas entidades distintas, sujeito e objeto imiscíveis. Era possível olhar o movimento dos planetas e sentir-se à parte, alheio. Nem os planetas sofriam nossa influência e nem éramos por eles influenciados. A astrologia, por isso mesmo, foi considerada por aqueles dotados de "mentalidade científica" uma fantasia sem nenhuma chance de comprovação.
Mas talvez as coisas não sejam tão simples assim. Um olhar mais atento, de um cientista sem preconceitos, poderia revelar a precipitação de tal julgamento.
Objeto sobre o sujeito
Stanislav Grof, em Psicologia do futuro, dedica todo um capítulo à influência da astrologia de trânsitos sobre a psique. Escreve ele: Temos explorado em conjunto, há vários anos, as correlações astrológicas de experiências místicas, crises psicoespirituais, episódios psicóticos, estados psicodélicos e sessões de respiração holotrópica. Este trabalho mostrou que a astrologia, em particular o estudo dos trânsitos planetários, pode prever tanto o conteúdo arquetípico quanto a época dos estados holotrópicos de consciência.
(!) O poder preditivo é um dos principais atributos das teorias científicas, o quanto elas nos permitem antecipar fenômenos.
A visão mecanicista, que prevaleceu na ciência ocidental pós-Iluminismo, retrata o Universo como uma imensa máquina inanimada e o homem como um ser à parte, que o estuda e controla. Contudo se nossos estados interiores mudam com o movimento dos planetas, o que por sua vez influencia nossas percepções e julgamentos...

Sujeito sobre o objeto
Niels Bohr, físico dinamarquês, enunciou o chamado Princípio da Complementaridade, segundo o qual as características de onda ou partícula de um elétron nunca se manifestam ao mesmo tempo. Num experimento onde o elétron se comporta como onda, jamais o veremos agir como partícula. Mas aqui surge a necessidade de entender o papel do observador na mecânica quântica, pois trata-se de um papel ativo, enquanto na física clássica esse papel era passivo. No caso do elétron, o fato de observar o fenômeno altera seu comportamento, o que leva a considerar o observador como um sistema que interage com o objeto observado.

sábado, 15 de agosto de 2009

Ariane e Alice


Talvez vcs gostem de ler também, da Universo Espírita, as seções:

Cartas de Alice, por Alice Krondcs:

Ed. 23 - [Sem título] - Valência, Espanha, setembro de 2005” -
Você já percebeu a importância psicológica dos símbolos?
Ed. 24 - “Conhecendo o mundo” – Lisboa, Portugal, outubro de 2005 -
... é do comportamento humano participar de ondas de comentários e repetí-los...
Ed. 26 - “O Jesus real” – Congonhas do Campo, Brasil, dezembro 2005 -
Todo artista que faz um desenho qualquer, desenha a si mesmo
Ed. 27 -“A atração que os mitos exercem” – Londres, Inglaterra, abril de 2006 - .
.. será que a evolução da sociedade e da inteligência, no decorrer dos milênios, nos ensinou a separar o mito da realidade?
Ed. 31 - “Razão como antídoto para o fanatismo” - Londres, Inglaterra, junho de 2006 -
... o maior problema do fanatismo está na facilidade que ele tem de ser manipulado
Ed. 37 - “Mundo paralelo” – Giverny, França, janeiro de 2007 (ver imagem acima) -
Devíamos agradecer a estas pessoas (músicos, poetas, pintores, jardineiros, líderes religiosos) que passaram pela Terra e a deixaram mais bela e lírica, ou mais acolhedora e fraterna, para os Espíritos que a habitam
Ed. 39 - “Vencer sem armas é vencer mesmo” - [sem local e data] -
Jesus queria dizer que a promessa do Reino de Deus continuaria levedando as estruturas da sociedade terrena e o coração dos seres humanos
Ed. 56 - “A mediunidade e os teosofistas” - Oxford, Inglaterra, agosto de 2008 -
Blavatsky foi uma mulher inteligente e tinha um projeto respeitabilíssimo
Ed. 57 - “O destino (ou não?) de Penélope” - Tripolis, Grécia, setembro de 2008 -
Para mim, Saulo, Penélope representa a força de realizar nossas vontades contra todas as condições adversas
Ed. 58 - “Inventores da roda” - Cairo, Egito, setembro de 2008 -
... é urgente aprender a fazer opções melhores, se queremos durar mais que as civilizações extintas
Ed. 59 - “Natal na floresta” – Assis, Itália, dezembro de 2008 -
Dentro da visão espírita, não cabe a adoração de imagens
Ed. 62 – “Paz e simplicidade” - Concord/MA, EUA, fevereiro de 2009 -
Thoreau acreditava na defesa das liberdades individuais por meios pacíficos
Ed. 65 - “Contradições humanas” - Salzburg, Áustria, maio de 2009 - “Erros não grudam”

De Ariane de Assis Jordão:

Ed. 53 -
Capa – “Tua fé te salvou – O manual da auto-ajuda” – Hoje os livros de auto-ajuda têm nas livrarias uma seção exclusiva destinada a eles. Não só pela profusão de títulos como também pelo sucesso de vendas que representam, sendo consumidos por milhões de leitores ávidos para melhorar suas vidas. Afinal, auto-ajuda funciona?
Ed. 55 - Dossiê Espiritismo e Justiça – “Como o Espiritismo ajuda a entender a justiça”
Ed. 57 - Identidade – “Paracelso e Hahnemann: Duas vidas, um Espírito” - O ideal de uma medicina espiritualista atravessa os séculos e chega a nós. Vivenciando duas personalidades marcantes em épocas diferentes, um apóstolo dedicado colaborou decisivamente para que esse ideal se mantivesse firme perante os ataques do materialismo e dos interesses imediatistas
Ed. 57 - Revista Espírita – “Agêneres” – Um Espírito pode materializar-se, com todas as características de um ser humano. Visível e palpável, ele poderia até sentar-se ao nosso lado e conversar conosco, como uma pessoa qualquer. Para nós, seria um dos nossos semelhantes
Ed. 58 - Especial – “Bezerra de Menezes é sucesso nas telas do Brasil” - A biografia do ‘médico dos pobres’, considerada azarão pelo pequeno investimento em divulgação, atrai um surpreendente público na estréia, causa espanto nos especialistas da mídia e se mantém no
ranking das grandes bilheterias
Ed. 59 - De Olho na Mídia – “Filme sobre Bezerra de Menezes na grande imprensa” –
Bezerra de Menezes – o Diário de um Espírito permanece como destaque em revistas de circulação nacional. Matéria de capa da Isto É fala novamente do recorde de público e Veja admite o sucesso do filme, enfatizando críticas à produção
Ed. 59 - Revista Espírita – “O Filósofo e o Rei” – Uma famosa desavença ocorreu entre o filósofo Voltaire e o rei Frederico II da Prússia, depois de trocarem vasta correspondência. A surpreendente reconciliação ocorreu entre eles em 1859, como Espíritos, num diálogo registrado por Allan Kardec nas páginas da
Revista Espírita
Ed. 61 -
Capa – “Justiça do outro lado da vida” – Desde muito se fala sobre seres especiais entre os homens e Deus. Céu, anjos, penas eternas, o inferno de enxofre, fogo e dor física. O esclarecimento da Doutrina Espírita trata a vida após a morte com lógica e espírito científico. Uma lei natural revela como se cumpre a justiça na vida futura
Ed. 62 - Conceito - “Não se deixe enganar” - Enquanto você imagina estar protegendo a Natureza, em verdade, pode estar apenas aumentando o lucro das grandes corporações
Ed. 67 – Educação Espírita - “Infância Roubada” - Falta de ética na propaganda prejudica educação das crianças
Ed. 68 - Revista Espírita - “A Terra tem uma alma?” - Os gregos já se perguntavam sobre isso
(ainda vai sair)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Prepare seus olhos para poder ver



Até o Renascimento, o dogma religioso imperava como forma predominante de conhecimento, mesmo em matérias hoje consideradas de cunho científico. O modelo de Aristóteles (384-322 a.C.) e Ptolomeu (83-161 d.C.) se correlacionava ao texto bíblico e era aceito como verdade incontestável: a Terra era vista como o centro do Cosmo. Corpos leves e graves tinham seu lugar natural. O mundo sublunar era corrupto e imperfeito, enquanto o supralunar era puro, indefectível.
Mas a partir do século 16, incentivadas por inteligências como a de Galileu (1564-1642), que via o livro do Universo escrito em caracteres matemáticos, gerações de cientistas subsequentes assumiram a tarefa de desvendar os mecanismos da vida baseados em novos princípios quantitativos, independente do que diziam as Escrituras, os padres e os aristotélicos. Trataram de observar, pesar e medir todos os objetos de estudo, estabelecendo relações matemáticas que se tornaram leis científicas sobre o funcionamento dos processos da realidade e acabaram por tornar Deus desnecessário.
Com o tempo, tamanha foi a rejeição às idéias religiosas, que soavam retrógradas e fantasiosas, que a ciência da matéria acabou por erigir-se como se fosse o único repositório de conhecimento seguro e comprovável que se poderia desejar obter. E o poder de pesar, medir e estabelecer relações matemáticas, explicando todos os fenômenos por meio destas relações, tornou-se o objetivo máximo dos cientistas.
Na nova visão de ciência que surgia, os pesquisadores admitiam que só poderiam ser considerados reais (e científicos) os conceitos baseados naquilo que se vê e se mede, isto é, no que faz parte do mundo físico. Na sua prática, muitos cientistas tornaram-se tão dogmáticos quanto as antigas autoridades eclesiásticas, fervorosamente apegados a conceitos materialistas e avessos a noções que envolvessem a existência do espírito ou de uma realidade imperceptível para os cinco sentidos físicos. E o modelo materialista dogmático se tornou base para o pensamento científico dominante, até os dias atuais.
Dogmas do materialismo
Os dogmas materialistas, num certo sentido, são crenças que condicionam a uma visão de mundo que descarta tudo aquilo que não se vê, pesa ou mede com nossos instrumentos. Como se crer no invisível e imponderável fosse anticientífico ou irracional.
Há, contudo, uma distância entre as leis da Natureza criadas por Deus e os dogmas admitidos como verdades científicas pelos materialistas. Há uma distância entre conceitos racionais e conceitos meramente baseados em quantificações de objetos palpáveis. E há, enfim, uma distância entre o que conseguimos perceber fisicamente, medir e pesar, e aquilo que existe de fato como força atuante na Natureza.
Allan Kardec registrou na Conclusão de O livro dos Espíritos sua opinião sobre as crenças materialistas. Disse ele que os materialistas se acobertam com o manto da razão e da ciência, atacando as idéias espiritualistas, como se estas exprimissem noções atrasadas, pertencentes ao mundo do maravilhoso e do sobrenatural. Mas que, ao atacar o maravilhoso e o sobrenatural, eles não atingem a ciência espírita, que é toda sustentada sobre bases da racionalidade, da lógica e das leis naturais, independente de princípios seus (como Deus, imortalidade etc.) haverem pertencido até aquele momento ao domínio da religião. Segundo o Codificador, o Espiritismo é forte porque assenta sobre as próprias bases da religião; Deus, a alma, as penas e as recompensas futuras; sobretudo, porque mostra que essas penas e recompensas são corolários naturais da vida terrestre e, ainda, porque, no quadro que apresenta do futuro, nada há que a razão mais exigente possa recusar. E assevera: Nada há [no Espiritismo] de místico, nada de alegorias susceptíveis de falsas interpretações. Quer ser por todos compreendido, porque chegados são os tempos de fazer-se que os homens conheçam a verdade. Longe de se opor à difusão da luz, deseja-a para todo o mundo. Não reclama crença cega; quer que o homem saiba por que crê. Apoiando-se na razão, será sempre mais forte do que os que se apóiam no nada.
Verdadeira e falsa idéia de razão
É preciso entender a que razão Kardec se refere como alicerce para a convicção espiritual. O materialismo considera-se racional em suas escolhas teóricas e metodológicas. No próprio O livro dos Espíritos, lê-se, contudo: O que se chama razão não é muitas vezes senão orgulho disfarçado e quem quer que se considere infalível apresenta-se como igual a Deus. Não é, portanto, esta razão falseada que fundamenta a fé raciocinada. Muito ao contrário, é a razão ponderada e iluminada pela humildade, daqueles que duvidam do que não viram, mas que, julgando do futuro pelo passado, não crêem que o homem haja chegado ao apogeu nem que a Natureza lhe tenha facultado ler a última página do seu livro.
A fé raciocinada baseia-se nos fatos, na experiência e na lógica, não se limitando aos dados colhidos da observação da matéria densa. Mas é preciso ter olhos capazes de ver a verdade espiritual.
Um fato observado por Ludwig Fleck (1896-1961), biólogo e filósofo polonês que influenciou Thomas Kuhn (1922-1996) em sua noção de paradigma, é que nossos olhos vêem o que estão preparados para ver. Fleck notou que os alunos que recebiam uma nova lâmina para observar ao microscópio eram inicialmente incapazes de enxergar o que ali estava para ser examinado. Com tempo e treino da visão, porém, todos os estudantes passavam a enxergá-lo. Podemos, portanto, "abrir a mente" e nos preparar para enxergar aquilo que o nível físico da realidade oculta de nós, ampliando a noção de racionalidade, pondo de lado aquilo que choca o bom senso por ser francamente contraditório, mas aceitando que há ainda muito que ser descoberto e compreendido à frente. Era assim que Kardec procedia.
Houve um tempo em que era aceitável que a Terra fosse o centro do Universo, que os corpos pesados caíssem porque estavam buscando seu lugar natural, que a matéria fosse feita de partículas sólidas, e tudo isso parecia muito racional. Até o advento da física quântica, acreditávamos na possibilidade de estabelecer a localização absoluta de cada objeto existente. Hoje se admite que as partículas subatômicas não são sólidas (são praticamente feitas de um enorme vazio), que sua natureza parece ser dual, comportando-se ora como partículas, ora como ondas, e que é impossível determinar ao mesmo tempo a sua velocidade e sua localização no espaço. Hoje se sabe que o observador influencia o comportamento da partícula observada, embora ainda não seja possível fazer um modelo matemático do que o observador está fazendo quando observa a realidade.
Isso significa que a razão é um instrumento importante de desvendamento e compreensão das leis que operam no Cosmo. Mas não podemos nos esquecer de que a razão, como atributo da inteligência, está em evolução e tem um longo caminho à frente, apesar das mentalidades retardatárias que insistem no apego aos dogmas do materialismo.
Lemos em O Evangelho segundo o Espiritismo: Em certas pessoas, a fé parece de algum modo inata; uma centelha basta para desenvolvê-la. Essa facilidade de assimilar as verdades espirituais é sinal evidente de anterior progresso. Em outras pessoas, ao contrário, elas dificilmente penetram, sinal não menos evidente de naturezas retardatárias. As primeiras já creram e compreenderam; trazem, ao renascerem, a intuição do que souberam: estão com a educação feita; as segundas tudo têm de aprender: estão com a educação por fazer. E a educação ocorre pela inevitável força que encaminha os seres ao progresso e ao entendimento das realidades espirituais.