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domingo, 31 de maio de 2015

A onda e o mar



Por Rita Foelker

"A normalidade nunca poderá conter a imensidão do seu coração. Cada onda no oceano é única, não é nem normal, nem anormal, mas uma expressão do próprio oceano. O oceano permite todas as suas ondas, pois todas são suas ondas." (Jeff Foster)

Sou fascinada por essa arte linda que enfeita a gente. Aprendi um pouco e fiz umas peças bacanas, noutros tempos. Era gostoso usá-las e me animava quando vendia. Nada muito complexo, mas vistoso...

E ainda passo tempo pegando meus brincos que cansei de usar e reciclando, porque guardei meus alicates, algumas contas, sementes e fios. Às vezes, compro, ganho, acho conchas, penas...

Agora, vou falar! Tem umas peças que são geniais. Esse modelo de anel, por exemplo, não fui eu que fiz. Veio de São Luiz, depois de um longo papo com o artesão (outra parte da coisa toda que eu amo: o papo, a negociação, levar ou não).


O anel tem a característica da ser feito de um único pedaço de arame, curvado de um jeito tão especial que pode até confundir os olhos. Você precisa olhar bem, pra perceber que é uma coisa só que vira, passa pelo meio, arredonda, sai do outro lado...

Que nem a vida, essa onda que não se desprega do mar, única, incrível, arriscada e surpreendente, de que sou testemunha e protagonista. Essa vida inédita que só eu vivi e vou vivendo.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Quando a vida te sacode...


Quando a vida te sacode, é pra saírem as sobras. Pra cair fora tudo aquilo de que você não precisa mais. Mas isso pode ser difícil, porque ainda somos muito apegados a algumas antigas folhas... (Rita Foelker)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Conhecer coisas


Não há coisas isoladas.
Percepções são complexos de estímulos acrescidos de interpretações ligadas a experiências passadas. Um objeto só se destaca do pano de fundo porque nossa atenção o selecionou entre muitas possibilidades de agregação de dados perceptivos e conceitos preexistentes.
Essas percepções são processadas pelo pensamento conceitual, que trata aquilo que chama de "coisas" como objetos separados entre si e separados de nós, sujeitos.
O conjunto dessas coisas aparentemente isoladas forma o que denominamos realidade. A realidade, porém, não é algo "fora", ela é um todo perceptivo e somente desse modo se apresenta a nós.
A realidade é um complexo perceptivo e um estado de consciência que espelha, não um "agora" externo, mas os fatos exteriores que nos impressionam somados à condição de perceber e compreender estes fatos de uma forma específica.
Embora possa parecer, não é tudo construção da mente, pois existe algo além do que pensamos. Nosso pensamento no entanto tem limites e é preferencialmente linear, processando os complexos perceptivos como se se tratasse de uma sucessão no tempo. Q
uando esses complexos perceptivos são observados como fenõmenos separados do observador, elas são incompletas, não apenas porque não consideram a sua condição de perceber e compreender, mas porque criam uma cisão ilusória entre sujeito e objeto, dentro e fora. E a ciência que observa a realidade como mero fenômeno (objeto, fora) só pode ser uma ciência incompleta e autolimitante.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

"Mas que são coisas?"


Nada, como veremos abundantemente, senão grupos especiais de qualidades sensíveis, que acertam, prática ou esteticamente, de interessar-nos, para as quais, por isso mesmo, damos nomes substantivos, e que elevamos ao status exclusivo de independência e dignidade. (William James, citado por Ken Wilber em O espectro da consciência)

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Samsara


A libertação ocorre, simplesmente, através do reconhecimento daquilo que o prende. (Trecho do Mahamudra, the ocean of definitive meaning, do 9º Gyalwang Karmapa, Wangchuk Dorje)

O hinduísmo, o jainismo e o budismo concordam em que alma atravessa, no seu caminho para a perfeição, o ciclo de mortes e renascimentos, às vezes chamado de samsara.
A principal característica de samsara (que pode ser traduzido por "constante fluir") é a crença na realidade do mundo temporal e fenomenal. Os ensinamentos do Buda constituem-se em métodos de libertação dos grilhões das mortes e renascimentos, no qual nos mantemos principalmente devido aos nossos apegos. Tais apegos podem ser dirigidos a objetos, pessoas, emoções, situações passadas, o que quer que prenda a alma a este mundo, impedindo-a de reconhecer-se como ser imortal.
A evolução do Espírito, que se dá pelo aumento da consciência da sua própria natureza além da matéria e da contingência, cria condições para essa libertação, onde cessa a necessidade de reviver as situações-limite (de sua compreensão e desenvolvimento) no cenário da vida na Terra. O ser iluminado (bodhi) não precisa mais renascer para aprender - embora possa fazê-lo, a reencarnação deixa de ser uma condição imposta para ser uma opção.

O budismo Ch'an utiliza como técnica para libertar-se da roda de samsara o estudo de koans, histórias curtas que, segundo o Mestre Hsin Ting em A engenharia da vida, empurram o praticante até os limites da racionalidade, na tentativa de irromper em uma percepção direta da realidade (vermelhos meus).

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O observador está incluído na observação?






Monet, O jardim da casa em Argenteuil, 1873







Renoir, Monet pintando em seu jardim em Argenteuil, 1873

A relação entre o observador e o fato observado é uma antiga questão epistemológica.
Durante muito tempo, ninguém duvidava de que o observador e o fato observado fossem duas entidades distintas, sujeito e objeto imiscíveis. Era possível olhar o movimento dos planetas e sentir-se à parte, alheio. Nem os planetas sofriam nossa influência e nem éramos por eles influenciados. A astrologia, por isso mesmo, foi considerada por aqueles dotados de "mentalidade científica" uma fantasia sem nenhuma chance de comprovação.
Mas talvez as coisas não sejam tão simples assim. Um olhar mais atento, de um cientista sem preconceitos, poderia revelar a precipitação de tal julgamento.
Objeto sobre o sujeito
Stanislav Grof, em Psicologia do futuro, dedica todo um capítulo à influência da astrologia de trânsitos sobre a psique. Escreve ele: Temos explorado em conjunto, há vários anos, as correlações astrológicas de experiências místicas, crises psicoespirituais, episódios psicóticos, estados psicodélicos e sessões de respiração holotrópica. Este trabalho mostrou que a astrologia, em particular o estudo dos trânsitos planetários, pode prever tanto o conteúdo arquetípico quanto a época dos estados holotrópicos de consciência.
(!) O poder preditivo é um dos principais atributos das teorias científicas, o quanto elas nos permitem antecipar fenômenos.
A visão mecanicista, que prevaleceu na ciência ocidental pós-Iluminismo, retrata o Universo como uma imensa máquina inanimada e o homem como um ser à parte, que o estuda e controla. Contudo se nossos estados interiores mudam com o movimento dos planetas, o que por sua vez influencia nossas percepções e julgamentos...

Sujeito sobre o objeto
Niels Bohr, físico dinamarquês, enunciou o chamado Princípio da Complementaridade, segundo o qual as características de onda ou partícula de um elétron nunca se manifestam ao mesmo tempo. Num experimento onde o elétron se comporta como onda, jamais o veremos agir como partícula. Mas aqui surge a necessidade de entender o papel do observador na mecânica quântica, pois trata-se de um papel ativo, enquanto na física clássica esse papel era passivo. No caso do elétron, o fato de observar o fenômeno altera seu comportamento, o que leva a considerar o observador como um sistema que interage com o objeto observado.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Nomes de coisas 2

(Porque conversei com o Fer e ele pediu pra falar sobre.)

Das coisas que chamamos por nomes, umas existem por si, outras não. Estas últimas designam apenas estados, condições, mas não se referem a algo em si mesmo, no contexto cósmico.
Escuridão, por exemplo, não existe. Luz, sim. Escuridão é ausência de luz e é fácil de saber que ela não existe: a luz pode acabar com a escuridão, mas a escuridão nada pode contra a luz.
O mesmo acontece com o bem, que é algo em si, enquanto o mal é apenas asua ausência.
Ou podemos, como Calunga, pensar que "o bem é livre, o mal é cativo". Ou seja, por onde o bem se espalha, o mal vai ficando limitado, diminuindo até desaparecer.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Nomes de coisas



Quando nascemos nessa porção do Universo chamada de Terra, a grande maioria das coisas que encontramos já tem seus nomes. Tudo o que nos cabe fazer é aprender a relacionar nomes a coisas e a usá-los de forma a comunicar o que pensamos e desejamos.
Por que o fogo se chama “fogo”? Desde quando ele se chama assim? Parecem perguntas espertas de criança. Mas a questão intrigante é: por que escolhemos nomear certas coisas, enfeixando-as nas teias de linguagem que nem sempre as apreendem perfeitamente? Talvez, porque precisamos nos referir a elas, porque elas são relevantes a um determinado estilo de vida e fazem sentido em nossa percepção de uma realidade macroscópica, independente de serem apreendidas de modo perfeito.
Podia parar por aí. De fato, não creio que muitas pessoas se ponham a pensar no porquê daquela substância marrom-escura, quente e aromática dentro da xícara ser chamada de café. Pensar em café parece nos trazer instantaneamente à memória suas qualidades sensíveis, com as quais nos distraímos, definindo o café pela forma como o experimentamos.
Mas, por que “café”? Será o café uma substância definida, como nos acostumamos a pensá-lo? Em que consistiria essa substância, o café? Descartes definia substância como algo que tem existência própria e independente. Mas o café seria isso? Líquido e certo, definido pela sua extensão? Quanto mede um café? Inúmeras respostas seriam aceitáveis. Até porque o que chamamos de café não é o mesmo café, mas um inumerável conjunto de objetos semelhantes que aparecem e somem num universo de coisas consumíveis.
Bem, e quando é que o café passa a existir, a ser denominado como tal? Ele existia antes de ser preparado, como uma possibilidade ainda não-realizada? Ou “café”, quem sabe, nomeie uma idéia, como queria Platão, abstraídos todos os cafés já preparados e ingeridos no passado, no presente e no futuro?
Parece evidente que o café não é apenas uma idéia de café, especialmente quando precisamos de uma xícara para nos manter acordados. E que existir é mais do que ser idealmente concebido. Logo, aquilo que chamamos de café, é algo.

***

Mas que tipo de algo? Um algo transitório. Uma mistura de elementos que sofrem um processo e, depois, se transformam em outra coisa, em “não-café”. A aparente concretude e permanência de muitas das coisas nomeadas nos embaça a percepção delas. Os nomes de tais coisas nos dão a sensação de tratar diretamente com elas, de nos referirmos a algo palpável e circunscrito.
Ora: nomeamos as coisas. Usamos seus nomes para pensá-las. Mas os nomes podem não ser uma reprodução fidedigna daquilo que nomeiam, não nos asseguram que aquilo que pensamos é aquilo que é. Os átomos costumam ser considerados os componentes básicos da realidade sensível. Sem querer levar essa digressão para o campo da ciência recordo que, enquanto o átomo se desfez em um quase-vazio, muitos de nós ainda associamos o termo “átomo” ao modelo de Rutherford-Bohr, como um sol e seus planetinhas, girando em torno dele. Isso, quando não os entendemos como unidades maciças de matéria, à moda de Demócrito e Leucipo. Depende do tipo de informação que recebemos e de como a interpretamos.
À moda de Quine, passo, então, a pensar numa tribo isolada para quem o café fosse não apenas uma palavra sem significado, mas também uma idéia totalmente vazia de correspondência com qualquer ente. Se um ocidental aportasse na ilha onde essa tribo habita, acendesse sua fogueira e começasse a preparar um quente e confortador café, como os nativos lidariam com este fato novo em sua realidade? Como relatariam ao chefe a visão do estranho homem que “acende-o-fogo-aquece-uma-porção-de-água-numa-vasilha-acrescenta-um-pouco-de poeira-escura-que-libera-um-odor-agradável-côa-acrescenta-uma-poeira-branca-mistura-e-bebe”? Será que eles disporiam de analogias para explicar o que viram? Será que essas analogias permitiriam relativa precisão? Ou estariam contaminadas com os significados consagrados e associações mentais, fazendo com que a leitura do chefe acabasse por ser bastante diferente do fato em si que deu origem ao relato? Tudo isso, considerando-se que a própria observação já não seria totalmente isenta de vários fatores como, por exemplo, do estrangeiro ser visto como amigo ou inimigo...
As perguntas que fiz e questões que levantei podem não ser muito originais. Mas continuam dando o que pensar, e continuam usando a linguagem para serem comunicadas. Então, talvez a grande função dos nomes e da linguagem seja, além buscar contato com a realidade, a de buscar contato com o outro. Fazer uma ponte entre sujeitos distintos. Como entre você, que me lê, e eu. Talvez o grande propósito da linguagem seja aproximar os seres inteligentes, permitir-lhes a troca de experiências e pensamentos, favorecer o compartilhamento de seus estados interiores, a solidariedade e o aprendizado sobre o outro e sobre si mesmo. Enquanto se sonha decifrar o mundo.