Mostrando postagens com marcador Elizabeth Costello. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Elizabeth Costello. Mostrar todas as postagens

sábado, 20 de dezembro de 2008

Die Wahrheit ist ein Chor aus Wind


Frases me capturam como águias, algumas vezes. Sinto suas garras afundando nos meus ombros e me levando para o alto. Já fui capturada por frases de Fernando Pessoa, de Hermann Hesse, de Thoreau... Inescapáveis.
Sou algumas vezes capturada por versos de músicas, como o de Zé Ramalho que dá título ao meu blog.
Já fui capturada por frases musicais de Jimmy Page...
Agora quero viajar com uma de Der Meister, do Rammstein, a que dá o título a este post e que poderia ser traduzida como "a verdade é um coro de ventos".
A imagem do coro de ventos soa muito forte para mim. Primeiro, porque um coro é formado de vozes e vozes dizem coisas. Falam, gemem, protestam. Segundo, porque ela revela o movimento da Natureza em harmonia, algo que se sente e se ouve mas é difícil de descrever exceto em termos de intensidade. A verdade pode ser intensa como um soco no estômago ou um tapa na cara, mas pode ser suave como água morna ou assovio de passarinho. Embora seja sempre verdade, aquilo que É, inevitável. Inescapável como garras de águia.
É verdade que amor é fundamental na vida, É verdade que saudade dói, É verdade que medo não protege ninguém de nada, É verdade que há tanto que aprender... Ninguém precisa me provar nada disso, eu apenas sei.

Há tempos que a filosofia das academias diz ter abandonado a busca da verdade. Hoje, estou inclinada a pensar que a verdade não é e nem pode ser a meta da filosofia, pois não se tem acesso à verdade mediante pensamentos conceituais e palavras. A filosofia pode muito, mas não tudo.
Depois de conhecer o pensamento de J. M. Coetzee em Elizabeth Costello, creio que a verdade, assim como a experiência de ser um morcego ou de ser Beatriz, é possível para quem consegue exercitar sua imaginação simpatizante, submergindo em poesia, ou então para quem não tem medo de olhar fundo e firme nos olhos de alguém, só olhar, e ver o que há por lá. Falando agora sobre isso, uma das versões da capa do álbum Herzeleid (="dor no coração"?) não deixa de ser sugestiva (veja acima, à esquerda)...
Há ainda, para os mais destemidos, a árdua jornada para dentro de si mesmo. Mas, cuidado com as armadilhas, pois a autocondescendência pode sempre levar o desavisado para outra direção, onde os ventos silenciam e grita a ilusão. Ninguém, ninguém mesmo, está imune.

domingo, 12 de outubro de 2008

Trair o próximo como a si mesmo

Vc tem medo do prazer ou da raiva que sente? Ou não admite que sente nada disso?
Negar impulsos de prazer e raiva tb cria o mesmo tipo de couraça de que eu falei antes, no post Relaxar e Gozar. Tô falando das vezes que, numa festa, vc quis mto dancar mas não foi por medo do ridículo, ou do quanto se esforçou pra não brigar com alguém e passou meses xingando a pessoa internamente, agindo como se tudo estivesse normal.
Como a gente vive numa comunidade de seres que idolatram o intelecto e freqüentemente negam o corpo, parece que não tem problema algum "socar" (como diria o Calunga) tudo lá pra dentro e fazer de conta que não existe. Posar de pessoa normal e centrada, só que com algumas "manias" esquisitas, inofensivas ou nem tanto.

Aprendi mto sobre td isso no Formare, conversando com a Sandra e fazendo os exercícios. O Formare funcionava assim: a gente dispunha (digamos) de 3 horas pra tratar de metolodogia. Metade ou, às vezes, mais da metade desse tempo era usada pra ajudar as pessoas a se soltarem, se mexerem, se tocarem, se observarem, sentirem a si mesmas. Isso podia acontecer por meio de um jogo de expressão corporal, uma dança, qqer coisa que fizesse mudar o registro da experiência, sair do racional e entrar mais em vc ao mm tempo que sente mais o outro e o meio.
Quando se permitem (nada é obrigatório), as pessoas nessa dinâmica se percebem rígidas e contidas. E a partir daí, soltar-se é uma vivência mto intensa, pois equivale e uma nova percepção de si. Reconhecer-se um ser inteiro e, não somente uma "ervilha chacoalhando dentro de uma vagem", como diz a Costello.
Segurar-se é desconfiar de si mesmo. É tratar-se como um bicho a ser confinado. Se fazemos isso conosco, que problema tem fazer o mesmo com as galinhas de granja e as vacas de leite?
Negar-se é trair-se. E pra quem trai a si mesmo, qual o problema de trair o próximo?

sábado, 11 de outubro de 2008

Como é ser Beatriz?

...Cogito ergo sum é também uma famosa frase sua [de Descartes]. É uma fórmula que sempre me incomodou. Pressupõe que um ser vivo que não faz o que ele chama de pensar é, de alguma forma, um ser de segunda classe. Ao ato de pensar, à cogitação, oponho a plenitude, a corporalidade, a sensação de ser - não uma consciência de si mesmo como uma espécie de fantasmagórica máquina raciocinante pensando pensamentos, mas ao contrário, a sensação - uma sensação pesadamente afetiva - de ser um corpo com membros que tem uma extensão no espaço, de se estar vivo no mundo. Essa plenitude contrasta em tudo com o estado fundamental de Descartes, que traz em si uma sensação de vazio: a sensação de uma ervilha chacoalhando dentro de uma vagem... (trecho de Elizabeth Costello, de J. M. Coetzee.)

"Como é ser um morcego?" é um ensaio do filósofo Thomas Nagel. Como Coetzee, Nagel fala sobre se podemos viver a experiência de ser um outro ser que não nós mesmos. E o que isso acrescenta ao que chamamos de conhecimento. (Ele tá fazendo filosofia e, não, poesia.)
Nagel trata da relação objetividade/subjetividade, corpo/mente, das condições de nossas experiências particulares e singulares. Segundo ele, a nossa experiência é possível porque nossa constituição física fornece o material básico para a nossa imaginação. A constituição física e os sentidos do morcego não são semelhantes aos sentidos humanos, por isso ele teria experiências únicas e intransferíveis às quais não temos acesso. Nagel conclui que podemos crer na existência de fatos para os quais a representação ou a compreensão humanas nunca possuirão os conceitos necessários. Conceitos e representações, limites da filosofia.
Elizabeth Costello propõe o caminho para poder penetrar na experiência do outro, em especial dos animais: o caminho da poesia, da imaginação simpatizante, mais ou menos descrita no trecho acima.
Mas vamos devagar com isso... falando primeiro de gente. Pergunta: Vcs acham que o Chico conseguiu fazer sentir como é ser Beatriz?

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Relaxar e gozar

Quando a gente tem problemas, a tendência é querer resolver com a cabeça, no mental. Com a tal da razão que, quando toma conta de tudo, val levando a gente pro buraco, como a Elizabeth Costello mostra no livro de Coetzee.
Por exemplo, o medo. Vc resolve o medo pensando sobre ele? Não. Vc lida com ele, mas não resolve.
O medo é uma emoção básica do ser humano. Básica não significa obrigatória, mas simplesmente comum. Falando em andar sobre telhados e sobre ser preferível arriscar-se do que desistir sem tentar (né mesmo, Lúcia?), o medo é um assunto q tá pintando naturalmente, e tô optando por seguir o caminho natural, embora sem saber onde ele vai dar. Vamos ver, quando chegarmos lá, vc e eu...
O medo é algo que se sente corporalmente como aperto no estômago, pernas bambas, coração acelerado. E que aparece em gestos como encolher-se, afastar-se, agarrar algo ou alguém. (Tô falando isso como pessoa comum, não como um especialista falaria, porque não sou especialista. Vai vendo se concorda.)
Quando estamos nos sentindo seguros ficamos soltos, à vontade. Mas se algo ainda não conscientizado surgir, uma impressão de que uma coisa ruim vai ocorrer, a reação fisiológica aparece e vamos ter impulso para alguma ação. Essa ação pode ser detida conscientemente ou não, mas isso fica pra outro post.
Vc pode ter medo de ser rejeitado ao beijar alguém pela primeira vez, mas beijar assim mesmo. Vc pode pensar que vai ser uma tragédia se o outro virar o rosto ou evitar sua boca e isso vai deixar vc meio tenso. Seus músculos vão se contrair de modo que, se o beijo acontecer mesmo, é capaz de vc nem sentir tudo o que esperava, porque tava um tanto "travado" na hora.
Esse tipo de tensão muscular ocorre em várias situações e pode durar um pouco ou muito. Depende do que tememos e de como lidamos com o medo. E, ao mesmo tempo que ela imprime uma rigidez no movimento, também impede de sentir ampla e profundamente.
Tem gente que vive com medo, vive tenso, "se segurando", tentando "ficar firme". Vai criando em si certos arranjos musculares ou ritmos corporais , que Reich chama de couraça muscular, a qual tem esse nome porque supostamente protegeria a pessoa daquilo que ela teme.
Quanto mais vc endurece, quanto menos vc relaxa, menos vc goza, pior vai se sentindo e mais fontes de prazer vai buscando. Beber, transar, comprar ou comer compulsivamente são falsas soluções que a gente pensa que achou, mas que levam cada vez mais pra longe do que se precisa realmente.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Quem explica? 2


Ontem eu tava pesquisando Elizabeth Costello na internet, pra pegar a citação correta da frase que abre o post. Joguei no Google "elizabeth costello ao pensar oponho a plenitude" e qual foi o único link que apareceu? "Wilhelm Reich: psicanálise, corpo e ciência" *. O que nos leva a Reich surgindo na minha vida de forma tão insistente.
Não vou resistir a isso, vou ver onde me leva. Transcrevo um trecho do artigo acima pra começar a falar dele:

"Reich morreu em 1957, numa prisão americana. Sua trajetória de vida, fugindo do nazismo e da difamação tanto pessoal quanto de suas idéias, é tragica mas também imensamente rica na produção de trabalhos polêmicos mas nunca facilmente descartáveis. Embora mais conhecido pelas suas idéias libertárias na política e na sexualidade - no auge da contracultura, movimento que teve seu marco no ano de 1968, suas idéias foram apropriadas e distorcidas, fazendo com que seu nome ficasse associado ao movimento hippie e ganhasse contôrnos meramente ideológicos - Reich, na verdade, produziu um corpo teórico ímpar, com milhares de páginas escritas e pouco lidas, principalmente pelos seus críticos, passando pela psicologia profunda, psicanálise, biologia, física, protocolos científicos, filosofia , sociologia e epistemologia."

Tem mais, porém vou deixar pra depois.
_________

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Somos de fato melhores que os bichos?

Ao ato de pensar, à cogitação, oponho a plenitude.
A frase é da protagonista de Elizabeth Costello, um romance filosófico de J. M. Coetzee. (Não, Beto, romance filosófico não é fazer amor na caverna do Platão – rsrs – mas vc me fez rir - vlw.) Assisti a uma conferência sobre ele, ontem, adorei os trechos q ouvi e queria saber mais. Alguém leu?
O livro faz pensar acerca do que dá ao ser humano o direito de dispor dos animais como se fossem objetos. No inglês se usa she ou he pras pessoas, mas it pros bichos, como fossem coisas como lápis e xícaras.
Costello entende que um dos pressupostos desse direito auto-atribuído, de fazer com a Natureza o que se queira, está na metafísica escolástica. Na filosofia de Tomás de Aquino, seu principal pensador, a essência de Deus é a razão e só o homem participa dessa essência divina, colocando-se em situação privilegiada perante as outras criaturas e com direitos sobre elas.
Outro pressuposto é o pensamento de Descartes... Bem, era uma conferência pra candidatos a filósofos, lembram?
Aonde essa filosofia td tem nos levado é algo a se considerar.
Mas a questão que o livro suscita tem profundas implicações éticas: a "Razão", aquilo que dizem que nos distingue dos animais, torna-nos realmente superiores? Na prática ou na essência?
Será que na prática estamos nos saindo melhor no mundo que eles? Pergunto isso porque, como espírita, preciso discordar de Tomás nesse aspecto da essência. Pois sei que somos todos feitos da mesma essência espiritual em diferentes momentos evolutivos, não somos nem piores, nem melhores, somos irmãos como bem ensinou Francisco de Assis.

Fico pensando. Pensentindo, porque só pensar sobre isso não basta. A filosofia, segundo Elizabeth, não tem nos levado a um lugar melhor até o momento. Ela diz que devíamos tentar o caminho da poesia.