
Uma das coisas que me inspira na escrita de Thoreau, em Walden, ou a vida nos bosques é a ausência de qualquer artificialismo. É um olhar cuidadoso e carinhoso para as coisas mais simples da vida, uma planta, um gato, um céu estrelado. É o abandonar-se a uma experiência sensorial intensa, porém não vazia de sentido, já que faz refletir, produz pensamentos, emoções e atitudes.
É comum ver-se (especialmente e infelizmente) pessoas muito jovens anestesiando o pensamento e a reflexão por meio de som alto demais, bebida forte demais, comida demais, chocolate demais, estímulo sexual demais, jogos eletrônicos demais. Uma hipótese para explicar essa overdose de estímulos é a carência de sensações agradáveis legítimas na vida comum. Busca-se, talvez, recuperar, através do excesso, algo da experiência cotidiana que deveria emergir da sensibilidade, mas que ficou embotado, perdido, esquecido aos poucos pela vida.
Também inventamos uma parafernália tecnológica para viver melhor e tentar ser felizes, que não nos deu realmente, nem uma coisa, nem outra. Temos algumas facilidades, sim, nestes dias que correm. E o que faço aqui é fruto de uma delas: colocar pensentimentos num blog, deixar alguém do outro lado do planeta ler o que escrevi, daqui a alguns minutos. É ótimo poder fazer isso. Mas trocaria este fazer por outros fazeres. Trocaria estar diante do PC por uma caminhada, por um bom papo, por um suco de melancia ou abacaxi - exceto se tivesse texto para escrever com prazo para entregar, que é parte do meu ofício e de minha rotina de estudante.
A questão é de escolha.
Viver é escolher; escolher também é abrir mão. Já pensou que, às vezes, abrimos mão das coisas que nos farão mais falta?
Por estranho que pareça, nem sempre a melhor escolha precisa ser a da maioria, a que todos considerariam a mais inteligente.Do que vc abriu mão ultimamente, e em nome de quê? Seguindo idéias de quem? Está valendo a pena?