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quinta-feira, 9 de maio de 2013

Eternidades

Foto por Babak Tafreshi, "Petroglifos de Teimareh e trilhas de estrelas", no Irã.


Por Rita Foelker

Muitas estrelas
que acendem nossas noites
não mais existem.
Deixamos nossas marcas
no planeta por milênios.
O momento presente
é uma interseção de eternidades.
A tua e a minha presença,
têm motivo e propósito.
A tua história
se une à minha neste solo
em que pousam meus pés e os teus.
Aquilo que pensamos,
desejamos,
dizemos e fazemos,
se expande em ondas
que nos encontram
além do tempo,
em linhas eternas que se entrecruzam,
em movimentos circulares
que nos encontram
onde estivermos.
Nos encontram.


quarta-feira, 3 de junho de 2009

Mestre e aluno


A simples companhia dele me obrigava a fazer uma tremenda reavaliação de meus padrões de comportamento. Eu tinha sido criado, talvez como todo mundo, para estar pronto a aceitar o homem como sendo essencialmente uma criatura fraca e falha. O que me impressionava em dom Juan era o fato de ele não fazer questão de ser fraco e indefeso, e só de estar perdo dele eu sentia uma comparação desfavorável entre o seu comportamento e o meu. Talvez uma das declarações mais impressionantes que me tenha feito naquela ocasião tenha sido a respeito de nossa diferença inerente.(...) - Em minha opinião, quer agarrar-se a seus argumentos, a despeito do fato de eles não lhe darem nada; quer continuar assim, mesmo às custas de seu bem estar. - Não sei do que está falando. - Estou falando do fato de que você não é completo. Não tem paz.
(Carlos Castaneda, em Uma estranha realidade; vermelhos meus)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

A fonte da verdadeira moral


Acabo voltando a este assunto, a educação moral. Estou sempre falando dele porque me parece ser o cerne da questão educacional e da nossa própria vivência em sociedade.
Sexta-feira a caminho da rádio, Cristina, Paulo Henrique e eu discutíamos a tese do Paulo sobre a possibilidade de uma abordagem científica da moral.
Não se trata, claro, de uma abordagem sociológica nem antropológica, como já se tentou. Não vou expô-la aqui, porque é dele e vai estar no livro dele, quando chegar o momento.
Eu, no entanto, dizia que entender a moral cientificamente era o único meio de compreender a evolução do Espírito como um fato científico, já que evoluir é sobretudo evoluir moralmente. Quer dizer, se a evolução espiritual é um fato passível de apreciação por alguma ciência, ela deve envolver elementos, dados observáveis e mensuráveis objetivamente que se relacionam à mudança moral.
Para que tal concepção faça sentido, vai depender de nossa forma de entender a moral. Pois não se trata mais de seguir prescrições de conduta, de acatar regras impostas de fora simplesmente, mas de uma compreensão das finalidades da ação e das forma de agir, nascida da maturidade do sentimento e da razão.
Importância dos mandamentos
Um código de condutas (como as tábuas de Moisés) pode ser uma boa orientação para um grupo de pessoas ainda sem padrões morais próprios, desenvolvidos de forma autônoma. Mas como fonte principal de ações éticas e morais, individualmente consideradas, o que conta é o grau de evolução alcançado. Ordenações e mandamentos são respeitáveis, mas particulamente não acredito neles como resposta a questões cruciais que envolvem atitudes. Nos momentos mais difíceis, é a maturidade moral que conta e, não, os preceitos.
Fui "católica" até os 12 anos, nada até os 17, e espírita depois disso. Enquanto fui "nada", eu não deixei de fazer o que achava certo, continuei cumprindo o que considerava meus deveres comigo mesma, com minha família, amigos, escola e sociedade. Não era a religião que me orientava, era eu, aquilo que eu trazia como valores adquiridos nas encarnações.
O Espiritismo hoje em dia me ajuda a avaliar minhas escolhas com base numa compreensão profunda e ampla das leis universais. Ele não me convida a simplesmente seguir tais ou quais regras. Este é para mim seu grande valor, do ponto de vista da educação: é o pensamento filosófico-moral mais consistente que encontrei até agora para ajudar-me na melhoria de mim mesma.
Religiões e mudança moral
Não desprezo nenhuma religião em princípio, mas creio que uma religião tem o valor objetivo da ética que ensina e que incentiva a praticar. E tem um valor subjetivo, que é o do significado daquele corpo de crenças para quem as professa.
Muitas pessoas confundem o valor objetivo com o subjetivo e querem que a moral se imponha por força da crença. Que a conduta provenha da obediência.
Bem, muitas vezes agimos por obediência, mas não é esta a fonte principal de nossa conduta moral, é apenas um ponto de apoio.
Religião é opinião (doxa) e, como tal deve ser entedida. As decisões morais, por outro lado, estão além da religião e são existenciais. Elas fazem de nós Espíritos mais ou menos adiantados e, quando transformadas em padrões de comportamento, expressam aquilo que somos espiritualmente perante os outros seres. Como conseqüência, elas estabelecem as afinidades que permitem conviver com criaturas em condições espirituais semelhantes à nossa. Este é um dado objetivamente apreciável da evolução moral, que um dia vai receber atenção da ciência e ajudar a entender tantos processos humanos a que a psicologia e a sociologia hoje não podem ter acesso.
A religião tem seu valor e pode ser entendida como um meio de aprendizado, de convivência social e assimilação de hábitos, mas não é a fonte da moral segundo a compreensão espírita do significado da moralidade. A moral segundo o Espiritismo é modo de agir resultante do grau de desenvolvimento da razão e do sentimento.




"Eles o ensinaram corretamente e no que acreditar
Como viver pelas regras
Todos reprimiram seu coração faminto"
(Against the world, Nocturnal Rites)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008


“There are two lasting bequests we can give our children: One is roots, the other is wings.” (Quote by Hodding Carter)


"Ha dois presentes duradouros que podemos dar aos nossos filhos: sao as raizes e as asas." (Citacao de Hodding Carter, que tentei traduzir num teclado configurado para o ingles. - rs)

domingo, 23 de novembro de 2008

3. A vida como harmonia

O terceiro item proposto em Como praticar uma educação viva? consiste em "que ajude a perceber que a harmonia e a beleza fazem parte de uma vida satisfatória, por isso é importante cultivá-las dentro de si e em torno de si".
A harmonia, de todos os conceitos, deve ser o que menos passa por um registro intelectual. A sensação de harmonia surge de uma contemplação estética. Por isso, arte, música, contato com a Natureza são importantes aqui. Os contos ajudam imensamente a desenvolver o sentido de beleza e harmonia, refinando-o.
Um de que sempre me lembro é sobre Maat. Alguns dizem que Maat era uma deusa, mas ela funcionava mais como a personificação de um princípio universal que propriamente como uma deusa, o princípio da verdade, justiça e harmonia universal.

Harmonia interior: Ouvir e interiorizar significados de histórias e mitos é um dos possíveis caminhos para esse aprendizado. Ainda, sobre Maat.
Os antigos egípcios acreditavam que as pessoas que morriam eram julgadas por seus atos na vida. A forma era simples: pesava-se o seu coração diante de Toth, o escriba dos deuses, sendo que no outro prato da balança era colocada a pluma que pertencia ao diadema de Maat e que representava justiça, verdade, harmonia. Se o coração pesasse mais que a pluma, a pessoa era devolvida a Ammut (uma deusa parte crocodilo, parte hipopótamo, parte leão) para ser devorada. Mas se os pratos se equilibrassem, ela poderia celebrar a bem-aventurança com os justos.
As histórias, tornando conceitos concretos, facilitam transmitir às crianças certas lições. Pensentir uma história como essa (sugiro não usar mitologias católicas, nem histórias ligadas a religiões atuais) pode conduzir a um diálogo riquíssimo. Ah! Uma atividade muito boa pra trabalhar isso, chama-se "Pense de novo", mas não cabe falar dela aqui, agora.
Harmonia exterior: É aquela que penetra pelos cinco sentidos materiais e pelos sentidos espirituais, e que nos provoca admiração e encantamento, compreensão da infinita inteligência de Deus, respeito pelos outros seres humanos, animais, vegetais... Passeios ao ar livre, brincadeiras no parque, no sítio, em momentos de atividade e momentos de quietude. Contemplação das grandes obras de arte produzidas em todos os séculos. Estas e outras possibilidades relacionadas ao próprio dia a dia, à sensibilidade para o que normalmente não nos chama a atenção no cotidiano, estão nas mãos do educador para realizar este item da educação viva.

A continuidade de momentos de percepção da harmonia interna e externa acabará propiciando o que vou chamar provisoriamente de "experiências de fusão" com o todo, cada vez mais refinadas, cada vez mais facilmente alcançáveis, que irão sedimentar as conquistas éticas, ajudar a ser e agir na justiça e na verdade, bem como reconhecer e reverenciar a beleza, não por raciocínio ou escolha passageira, mas como atitude permanente.
Alguma biografia, Rita? Algumas, tô me lembrando agora de Pitágoras, o filósofo grego, e de Francisco de Assis.

sábado, 22 de novembro de 2008

2. A vida como escolha

O segundo item do post Como praticar uma educação viva? era "que mostre que existem em nós e na sociedade padrões internos que afirmam a vida e outros que a negam, e que escolhemos sempre qual dos dois apoiamos, recebendo as conseqüências".
Entendo "afirmar a vida" como sendo compreender o propósito mais profundo do viver e disponibilizar-se para realizá-lo da melhor maneira possível. Afinal, a vida é a escola onde a sabedoria divina nos inscreveu e onde a evolução moral e intelectual ocorre - no espaço e no tempo da vida.
Disso decorre que as práticas educativas não podem negar nossas necessidades vitais. E não só isso, o educador precisa fazer-se atento ao movimento da vida, aos seus ciclos, às suas leis - algo que me atrai muito na pedagogia Waldorf.
Para a atividade pedagógica, isso implica em recordar permanentemente que todo viver consciente é uma sucessão de escolhas. Uma forma de tornar isso claro para a criança, é apresentar a forma como nossas decisões operam em nossas vidas. Mas não somente isso, pois elas também repercutem em ondas de conseqüências que muitas vezes vão além da nossa possibilidade de conhecimento - tal reflexão criaria o sentido da responsabilidade por si mesmo, pelo próximo e pelo mundo. O trabalho em torno desse item conscientizaria também para a escolha e a vivência das próprias escolhas como meios de transformação de si mesmo, do meio mais próximo e, ampliando o raciocínio, mostrando como aquilo que afirmamos ou negamos também afirma ou nega o destino do nosso planeta.
O levantamento da história de como o Ensaio sobre a desobediência civil, escrito por Thoreau em 1849 nos EUA, foi influenciar Gandhi na luta pacífica pela independência da Índia que se concretizaria, em 1947, podia ser uma pesquisa e uma atividade realizada com as crianças.
Ué, Rita, mas vc não disse pra gente focar em personagens contemporâneos, sugeriu Betinho e Roberto Carlos Ramos? Sugeri. Mas não limitei - kkk. Vc não precisa se limitar...

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

1. A vida como dádiva

Retomando o tema do post Como praticar uma educação viva?, propus três focos principais o primeiro dos quais era "q apresente a vida como a grande e infinita dádiva q temos para usar do jeito q quisermos".
A vida imortal nos foi dada desde nossa origem como Espíritos, não podemos fugir, não podemos abdicar dela, nem desistir. O perene aprendizado e caminhada rumo à felicidade são contemplados na trilha das reencarnações, embora cada passo, na fase humana da evolução, derive do exercício do livre-arbítrio.
Mas a vida terrena presente é uma oportunidade de experiências internas e externas de aprendizado espiritual, possíveis não apenas por sermos seres inteligentes da Criação mas pela ligação, molécula a molécula, com um corpo físico. Ele é nosso abrigo e nosso instrumento, é nosso campo de sensações e oferece possibilidades de agir na matéria.
A vida como dádiva pode começar a ser descoberta em nós, pela percepção e conhecimento de nós mesmos. No caso da criança, esse conhecimento parte da autopercepção corporal, dos cuidados consigo mesma, da compreensão da delicadeza de nossa constituição física pensada para permitir pensar, sentir e agir segundo a nossa vontade e nos melhorarmos como Espíritos.
Como trabalhar isso? Dança, movimento, expressão corporal, exercícios de teatro, produção de sons e ritmos usando partes do corpo. Hein? Não tem idéia do q é isso? Então assiste Barbatuques:



A vida como dádiva se encontra na alegria dos bons momentos, relembrados com prazer, quando vencemos o desafio, quando chegamos ao alto de uma montanha ou ao fim de uma jornada, quando estivemos em companhia das pessoas que nos compreendiam e compartilhavam de nossas mais íntimas reflexões.
Como trabalhar isso? Livros (sugiro Heróis e Guerreiras - Quase tudo o que você queria saber, de Heloísa Prieto, pela Cia. das Letrinhas), fotos de momentos alegres trazidos de casa, casos compartilhados, casos da vida de personagens históricos importantes, momento "tenho uma coisa muito legal pra contar" em roda.
A vida como dádiva se encontra nas possibilidades diárias de decidir e renovar-se, excluir o que não serve e investir no que promete ser bom e dar bons resultados.
Como trabalhar isso? Biografias de Roberto Carlos Ramos, Betinho, etc. De preferência, personagens contemporâneos, para melhor identificação.
Fazer o q quisermos com nossa vida se refere à liberdade de escolha e ação. Viver é escolher; escolher também é abrir mão. As escolhas conscientes diminuem o grau de sofrimento enfrentado e de arrependimentos. Quantos de nós já sofremos por escolhas q acabaram se mostrando equivocadas? Observar que somos seres q decidem e se constroem a partir de sua decisão será o objetivo permanente da tarefa do educador, propondo a esse respeito questionamentos e pensentindo junto aos alunos.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Como praticar uma educação viva?


Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os fatos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que tinha a me ensinar, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido. Não desejava viver o que não era vida, a vida sendo tão maravilhosa, nem desejava praticar a resignação, a menos que fosse de todo necessária. Queria viver em profundidade e sugar toda a medula da vida, viver tão vigorosa e espartanamente a ponto de pôr em debandada tudo que não fosse vida, deixando o espaço limpo e raso; encurralá-la num beco sem saída, reduzindo-a a seus elementos mais primários, e, se esta se revelasse mesquinha, adentrar-me então em sua total e genuína mesquinhez e proclamá-la ao mundo; e se fosse sublime, sabê-lo por experiência, e ser capaz de explicar tudo isso na próxima digressão. (Trecho de Walden, ou a vida nos bosques)


Essas palavras, pra mim, valem por um manifesto que eu assinaria. Viver e vida são palavras que, juntas, foram usadas nada mais e nada menos que 10 vezes nesse trecho. (Um "10" pra quem liga ou é um "pitagórico".)

Bem, partindo disso, uma das coisas que andei meditando, em torno de Thoreau, é o seguinte: como "sugar toda a medula da vida" entraria num projeto pedagógico?

O simples e adorável livro de Yvonne Berge, Viver o seu corpo, me mostrou algumas respostas, mas ainda não avançou o bastante. O Emílio, de Rousseau, ajuda maravilhosamente...

Bem, a pedagogia que vislumbro a fim de que a criança se perceba viva e apta a sugar seiva da vida, seguindo os princípios do Walden, é uma pedagogia:


  • que apresente a vida como a grande e infinita dádiva que temos para usar do jeito que quisermos;

  • que mostre que existem em nós e na sociedade padrões internos que afirmam a vida e outros que a negam, e que escolhemos sempre qual dos dois apoiamos, recebendo as conseqüências;

  • que ajude a perceber que a harmonia e a beleza fazem parte de uma vida satisfatória, por isso é importante cultivá-las dentro de si e em torno de si.

O que isso teria a ver com uma proposta pedagógica espírita? Tudo! Viver é perceber-se corpo, o que afinal decorre da compreensão espírita do processo reencarnatório, que implica em estar ligado a todas as células dele. Mas quanto de fato nos sentimos assim? Qual nosso grau costumeiro de consciência corporal, de mobilidade, de saúde física geral?

Uma proposta de educação do corpo e do movimento tb não nos leva só ao outro extremo, da atividade constante. Como em tudo o que é sábio na vida e na Natureza, há que se chegar a um equilíbrio. Como na vida!

Fazer > sentir > refletir > escolher > transformar = vida!
ou
Refletir > escolher > fazer > sentir > transformar = vida!

Depois vou escrever mais...

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Liberdade de todos, consciência de cada um

Pessoas reprimidas, que passam a vida se segurando e se prendendo, não compreendem o sentido da liberdade. Ou melhor, embora tenham uma idéia de liberdade em teoria, metem "os pés pelas mãos" na hora de exercitá-la.
Elas não compreendem, por exemplo, que a liberdade é de todos, mas a consciência é de cada um.
Imaginam que liberdade é fazer o que se quiser, no momento do impulso, mas sem lembrar de que não se está sozinho no mundo e que o que se faz tem conseqüências para si mesmo, para sua vida, para outras pessoas e para o planeta. Funcionamos numa rede invisível - curioso, falei disso domingo! - onde cada gesto mexe com tudo.
Muitos imaginam que a ausência de intencionalidade inicial justifica o que está feito, mesmo depois que já houve mais que tempo para o discernimento concordar, discordar ou, simplesmente, fazer algo a respeito antes de haver mais estragos.
Há mais coisas em jogo que o poder conferido pelo livre-arbítrio. A questão que se põe a cada momento é: poder fazer algo significa que aquilo é o melhor a fazer? O que é preciso considerar? Tudo te é lícito, mas nem tudo te convém, escreveu Paulo de Tarso. Maturidade emocional não significa apenas sentir-se livre para agir conforme a própria vontade, mas ser capaz de avaliar também conseqüências de ações. Crianças que receberam uma educação repressora, que não crescem acostumadas a escolher e observar consequências, tornam-se adultos que não amadureceram emocionalmente, não se emanciparam (como diria Kant em O que é "Aufklärung"?), não se tornaram autônomos (como diriam Pestalozzi e Piaget). Não sabem o que fazer quando ganham licença pra dirigir, direitos políticos, camisinhas pra levar na carteira, essas coisas. Precisam de tutores ou se perdem. Por isso, em educação, o diálogo em torno de valores como liberdade, amizade e cidadania precisam caminhar juntos.
Valores formam uma escala de prioridades. Ela não é a mesma para todos. Por exemplo, para uns, a amizade está em primeiro lugar; para outros, viver o momento. Isso é o que significa dizer que a consciência é de cada um. Talvez o conceito de amizade do outro, o degrau onde ele a coloca, não sirva para mim. Cabe a mim decidir, com a minha consciência. Talvez sirva, com ressalvas (?).
Refletir sobre isso é importante porque tudo aquilo que fazemos, seja escola, empresa, projeto, família, é feito das pessoas que o compõem. Escolas (empresas, projetos, famílias) e pessoas são inseparáveis. O que é uma escola sem pessoas? O que é um projeto sem pessoas? Agregamos nossas atitudes e valores, quando nos unimos para realizar algo. E se estamos falando de viver num planeta melhor, só dá pra fazer isso elevando nossa escala de valores.

sábado, 8 de novembro de 2008

Quem é o oprimido?


Quem é o oprimido do título Pedagogia do Oprimido, da obra de Paulo Freire? Será muito fácil pensar q é o outro, o oprimido pela pobreza, pelo desemprego, pela ignorância, pela falta de perspectivas de vida.

Mas a opressão não se reduz a algumas pessoas na sociedade. Todos são oprimidos quando a estrutura social se baseia em relações doentes de poder. Oprimidos por um moralismo hipócrita, por alguma visão religiosa, pela possibilidade de desaprovação alheia, por idéias impostas de consumo, por necessidades artificiais engendradas pela propaganda, por mídia jornalística, por tendências de moda, por modelos de sucesso profissional... E é uma opressão invisível, de modo q vc provavelmente nem percebe.

Roupas. A opressão invisível faz vc pensar que gosta de se vestir de uma certa forma e por isso é q o faz. Mas ao fazê-lo vc aceita se tornar apenas uma cópia de milhares de outras pessoas. (Tô tão cansada de ver td mundo numa certa idade vestido praticamente igual!!) Vc na faixa dos 30 ou 40 não ri de algumas fotos do passado? Alguns dos videoclipes dos anos 80 não lhe parecem ridículos hj em dia? Mas não lhe pareceu "maneiro" usar aquelas roupas e cabelos, algum dia? Não foram peças vendidas (e compradas por vc) como padrões de beleza?

Bem, vc foi usado pela indústria da moda para fazer dinheiro... E qto mais caro vc pagou uma calça ou sapato, mais eles enganaram vc... Moda é apenas uma das formas sutis de fazer vc perder contato com vc mesmo, com seu gosto pessoal, com sua preferência, pra depois vc comprar uma imagem que não é vc.

Emprego. Ao escolher uma profissão para se enquadrar num nicho do mercado de trabalho, vc abre mão de seu sonho e sua vocação? Pense nisso. A educação tradicional é freqüentemente destinada a enquadrar vc nesse esquema de opressão, com uma ilusão de sucesso numa carreira, como se subir numa empresa fosse o mesmo que felicidade. Talvez vc deva se perguntar se vai ser mesmo feliz com o que está fazendo da sua vida.

O que faz de vc, vc? Qual é a sua marca, a sua característica única e individual? Não precisa ser uma marca exterior, não falo de algo como um "logo" ou distintivo, como um anel, um relógio, uma tatoo. A marca da sua individualidade não é explícita, mas é sua identidade perante o mundo, como as pinceladas numa tela de Monet ou as cores primárias numa tela de Miró.

Agora, td bem se não conseguir saber agora, pois pra saber quem vc é, precisa primeiro se sentir livre pra ser vc...

Conexões: sobre aprender fazendo

Toda a comunicação é semelhante à arte. Por conseqüência, pode-se perfeitamente dizer que, para aqueles que dela participam, toda prática social que seja vitalmente social ou vitalmente compartilhada (quero destacar o "vitalmente", nas duas expressões) é por sua natureza educativa. Só quando lançada em um molde e tornada rotineira é que perde seu valor educativo (como diagnosticar?). (Trecho de Democracia e educação, de John Dewey; parênteses vermelhos de Rita)

***
Se estamos dispostos a crer na ação de ensinar, e se queremos que nossos filhos aprendam a pensar e agir por si mesmos, precisamos confiar neles. Só quando pratiquem o pensamento, a escolha e a responsabilidade (grifos meus), é que podem aprender a pensar, a escolher e aceitar a responsabilidade. (Trecho de Educação para uma civilização em mudança, de W. H. Kilpatrick; parênteses vermelhos de Rita)

***

Quando uma comunicação deixa de ser vital? I. e., quando é q a comunicação morre? Quando é q a gente mata a comunicação?
Será q, ao matar a comunicação, tb não matamos algo em nós, ao mesmo tempo?
Se tiver alguma idéia, responde com um comment.
Pode ler tb o post Conquista.

sábado, 1 de novembro de 2008

Para uma pedagogia do movimento

O homem é uma unidade psicossomática. Toda a orientação do trabalho [proposto neste livro, ver título abaixo] dependerá, pois, da qualidade e da profundidade da noção que o professor possa ter desta unidade. Não lhe bastará concebê-la ao nível do espírito, ser-lhe-á necessário vivê-la. Isso lhe proporcionará uma visão global de seus alunos e lhe permitirá captar as informações transmitidas pelo mínimo gesto, o modo de estar, o ritmo, o que o capacitará a adaptar para cada aluno um comportamento pedagógico que tenha em conta os dados psicológicos assim revelados.
(Yvonne Berge, em Viver o seu corpo - para uma pedagogia do movimento, Ed. Compendium)

Esse livro é mto lindo e simples, bem o tipo de coisa q me agrada mto. Ele fala de "descobrir-se, libertar-se, desenvolver-se", "retomar um contato natural, hamonioso com os outros, com a natureza". É tão óbvio q, depois de perceber como funciona, fica mto difícil pensar diferente. Me acompanha:

Consciência das sensações > consciência dos sentidos > consciência corporal > consciência do sentir > consciência do meu sentir > consciência do sentir do outro > sensibilidade.

A educação intelectual faz um outro caminho, eventualmente ele nos torna mais sensíveis, mas não como objetivo do processo pedagógico. Qual sua opinião?

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

O lugar da educação segundo o Espiritismo


O professor de pedagogia pode estar muito distante de ser um professor pedagógico. (...) A distinção insuficiente entre capacidade teórica e prática em matéria educativa , representa um papel essencial no problema da preparação do mestre. [grifos nossos] (...) Alcançamos isso ao falar de Pestalozzi como educador do povo. Então pensamos (...) no educador ativo, que por sua capacidade especial não faz senão consagrar sua vida à ação pedagógica. Assim, encontramos na própria natureza do educador como na do homem que, não somente influi no ser de seus semelhantes ou sucessores, criando neles determinados valores culturais, como também possui, ainda, uma certa inclinação de sentido prático para mantê-los em atividade. Talvez pudéssemos pensar em encontrar a imagem pura da alma do educador, levando a cabo uma análise da incomparável personalidade de Pestalozzi, sua vida e suas obras. (Trecho de A alma do educador e o problema da formação do professor, de Georg Kerschensteiner)


Kerschenteiner, um dos autores citados por Herculano Pires em seu Pedagogia Espírita, foi um discípulo de Pestalozzi que muito compreendeu de seu pensamento.

Não se duvida d q a educação precisa de teoria e prática, e personalidades mais inclinadas a um ou outro tipo de atuação. Ultimamente, por exemplo, tô me sentindo mais teórica, o q não quer dizer q amanhã não comece a colocar em prática, entre educadores ou entre crianças e adolescentes, o q tenho escrito.

Mas na mistura de coisas q creio importantes de serem compartilhadas aqui, uma delas é q o perfil do educador espírita não carece de diplomas universitários nem de distinções acadêmicas, como pode muitas vezes parecer. Quem precisa desses títulos é esse mundo do presente, que queremos ver um dia dar lugar ao mundo do futuro, onde os princípios pedagógicos e morais exemplificados por Jesus de fato aconteçam. Pestalozzi não cursou a universidade.

A formação do educador espírita, primeiro, precisaria obedecer à sua vocação. É muito triste ver um professor que não tem nada a ver com crianças ou idéias pedagógicas dando aulas só pelo salário, triste para ele e para os alunos. Por outro lado, tenho encontrado pessoas q depois de se dedicarem por muito tempo a uma profissão burocrática ou ao comércio, revelam uma profunda compreensão dos problemas e caminhos para uma educação melhor e mais efetiva, e começam a trabalhar nisso como voluntários. Não fizeram faculdades, no entanto disponibilizam sua cabeça, seu coração e suas mãos, e parecem saber naturalmente o que fazer.

Não estou menosprezando a universidade. O Espiritismo pode ter um lugar na universidade? Claro, por que não?! Mas ele precisa necessariamente desse lugar? Duvido.

A universidade representa um modelo antigo de fazer educação, com resultados questionáveis. Representa o triunfo da teoria sobre a prática. Representa freqüentemente aquilo q nós espíritas queremos ver superado por outras formas de prática pedagógica, por uma educação ativa, afetiva, natural, que leve em conta intelecto, sentimento e habilidades. Querer fazer pedagogia espírita na universidade, como ela está configurada hj, é o mesmo q querer fazer medicina espírita num hospital convencional. Ora, a medicina espírita não precisa de bisturis, suturas, medicamentos, equipamentos hospitalares e pode ser praticada onde haja vocação, conhecimento e boa-vontade. O mesmo se aplica à educação segundo o Espiritismo.

domingo, 26 de outubro de 2008

Educação alternativa?

Ontem participei de um encontro em torno da Pedagogia Waldorf. Um grupo de mães se encontrou para conversar sobre a possibilidade de criar um jardim Waldorf em Jundiaí, numa casa simplesmente deliciosa, e fomos lá, o Beto e eu.
Gostei
Uma das primeiras coisas de q gostei foi o conceito de começar na casa de uma professora ou de uma mãe, pq um dos grandes, mas talvez não o principal, empecilho para a concretização da proposta da escola espírita em Jundiaí esbarrou no (ou se abalroou com o) problema do espaço físico em si ou do seu custo de manutenção.
Bem, um sonho pra acontecer no mundo precisa de um onde e um quando, né? Só q talvez estejamos tão apegados a uma visão de um "onde" como sendo um prédio próprio, q não estamos enxergando outros caminhos. Eu diria q a escolha de cooperar com o trabalho já desenvolvido no
Lar Anália Franco pode ter sido um dos possíveis caminhos, embora à distância eu não possa falar com mais propriedade sobre isso. Alugar a casa onde funciona o Espaço Amor em Ação, onde tb funciona a Academia de Crianças, pode ter sido outro.
Pensenti
Mas tem uma questão anterior que me deixou pensando e tava conversando com o Beto sobre isso. É ouvir as próprias pessoas falarem da sua proposta pedagógica deixando escapar frases que mostram o quanto elas se sentem "alternativas" em seus projetos.
Bem... tradicional, Waldorf, espírita, seja qual for a pedagogia escolhida, ela pode ser vista como uma alternativa entre várias equivalentes. E não é esse o sentido de que quero falar.

Quero falar sobre enxergar "o outro" como "principal" e o seu como "alternativo". O fundamento pra isso não é lógico, é psicológico. A meu ver, é um medo de não seguir a maioria e das consequências.
Em outros mundos possíveis, porém, aquilo que a pedagogia espírita propõe, por exemplo, pode ser aceito pela maioria, enquanto o que se pratica hoje, uma educação voltada para o intelecto e o mercado de trabalho, poderia ser a alternativa. E consigo pensar em mundos assim como bem reais.
Pense: o que se quer dizer quando, ampliando o leque, advoga-se uma terapia alternativa, uma medicina alternativa ou uma educação alternativa? Escolha uma das alternativas - rs:
( ) - Olha, nós somos pessoas que acreditam em algo diferente do que está por aí e estão se propondo a provar que pode funcionar. Estamos pedindo ao mundo uma chance.
( ) - Nós temos excelentes razões para acreditar que nossa visão e nosso trabalho são tão bons quanto qualquer outro - até melhor em muitos aspectos -, e apenas estamos em menor número no momento. Nós temos lido outros livros, diferentes do que a maioria lê. Temos nos reunido pra conversar. Temos experimentado e obtido resultados. E temos certeza do caminho que escolhemos. Não estamos tentando provar nada, pois já estamos suficientemente certos do que pensamos e queremos.
Perguntei ao Beto se o que ocorre às vezes não é o receio de abandonar um pensamento da maioria em favor daquilo em que realmente acreditamos como uma visão de educação tão profunda, séria, responsável e fundamentada quanto a outra.

Metodologia
E seguindo o raciocínio, pergunto agora se também não se teme fazer essa educação espírita que revoluciona um paradigma sem seguir os métodos e procedimentos da educação tradicional. Porque não vamos fazer isso no the old-fashioned way. Isso posso garantir. E se eu tinha alguma dúvida, o Formare mostrou que não. Os depoimentos de participantes e os reflexos que observaram em suas práticas foram nossa melhor recompensa.
A educação do jeito antigo chama de "probleminha" uma situação de uma criança que de fato precisa ser melhor vista e compreendida como Espírito inteligente apegado a certos condicionamentos existenciais dos quais só se livrará se for encarado nos olhos com afeto verdadeiro, por um mestre consciente de sua função.
Não por um educador tradicional que acredita em espírito e reencarnação mas não vivencia as implicações dessa crença em seu trabalho.
A educação espírita, ou faz diferença, ou não faz sentido.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Educação afetiva, ativa, natural


A Função do Orgasmo chegou pelo correio e comecei a ler. Ainda não tenho impressões pra compartilhar. Não se trata de aceitar td que ele tá dizendo da maneira que tá dizendo. Mas certas coisas fazem absurdo sentido.

É mais fácil exigir disciplina e impô-la autoritariamente do que ensinar as crianças a sentir prazer no trabalho independente e a assumir uma atitude natural diante da sexualidade. É mais fácil declarar a si mesmo um Führer onisciente enviado por Deus, e decretar o que milhões de pessoas devem pensar e fazer, do que se expor à luta do choque de opiniões entre a racionalidade e a irracionalidade. É mais fácil insistir na satisfação legal do respeito e do amor do que conquistar a amizade por meio de um comportamento bondoso.

Será que tô sonhando (filósofos sonham, segundo o Beto - rs), ou estou ouvindo ecos de Pestalozzi aqui? Porque eu leio e, com exceção da parte da sexualidade que o pensador suiço não abordou diretamente, o restante me parece o retrato da prática educacional de Stans, que tanto ele próprio qto Marc-Antoine Jullien descrevem. Mas mesmo na sexualidade, Reich fala em naturalidade, um dos princípíos básicos da educação segundo Pestalozzi: Educação afetiva, ativa, natural.

Pestalozzi queria uma educação para a cabeça, coração e mãos.

Então! Reich abre o livro com a seguinte declaração: O amor, o trabalho e o conhecimento são as fontes de nossa vida. Deveriam também governá-la.

Amor, coração; trabalho, mãos; conhecimento, cabeça. Me diz se tô sonhando...

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Como termina essa história?

Por João Márcio, meu querido amigo do Ceará.

Era uma vez um homem. E como todo homem, tinha medo de seu coração. Quando se aproximava de alguém, ele tinha vontade de abraçar, beijar, amar. Mas como todas as vezes que se aproximou, foi ferido, magoado, resolveu esconder o coração e agir como homem.

Com o tempo, teve uma "brilhante" idéia. Para não sofrer, decidiu se isolar. Largou mão de seus diálogos, abraçou seu monólogo e começou a conversar consigo. Por um tempo, tudo correu bem, mas o tempo passou, e enquanto continuava seu monólogo, sentiu pedaços de sua alma desaparecendo. Gradualmente, à medida que aumentava seu monólogo, sua boca sumiu, seus olhos se fecharam e seus ouvidos desapareceram.

Ficou desesperado, pq sem seus sentidos, o mundo estava ficando frio e escuro. Procurou um médico, e com grande sofrimento, aprendeu uma lição. Sem convivencia social, para que ele queria seus sentidos?

O médico explicou que seu "monólogo" estava matando sua alma. Toda pessoa precisa ficar sozinha, escutar o proprio coração, mas que, com o tempo, o que é remédio, se torna veneno, a pessoa termina viciada em solidão, longe do mundo, vai ficando longe de si mesma.
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- Rita, essa história continua, quer continuar e dá um desfecho bem legal?!
- Vou tentar, Márcio. Não sei se tem um desfecho melhor que as possibilidades infinitas em aberto.

Conquista


O primeiro caráter que nos parece poder ser surpreendido na ação antidialógica é a necessidade da conquista.
O antidialógico, dominador, nas suas relações com o seu contrário, o que pretende é conquistá-lo, cada vez mais, através de mil formas. Das mais duras às mais sutis. (Faço isso na vida? Como ser da minha evolução, faço e assumo, mas procuro saber quando não fazer.) Das mais repressivas às mais adocicadas, como o paternalismo.
Todo ato de conquista implica um sujeito que conquista e um objeto conquistado. O sujeito da conquista determina suas finalidades ao objeto conquistado, que passa, por isso mesmo, a ser algo possuído pelo conquistador. (Isso é sempre indesejável? Talvez seja como condição permanente e como exercício indevido de autoridade, mas não sempre. Ver http://ritafoelker.blogspot.com/2008/10/coisas-fazer.html) (Tirando os vermelhos, trecho de Paulo Freire em Pedagogia do Oprimido)

Pensentindo... Para conquistar é preciso:
  • perceber-se como diferente, porque não parece haver sentido em querer algo igual ao que já tenho/sou;

  • perceber-se como separado, porque conquistar é buscar além, fora de mim;

  • perceber-se como superior, porque a impressão de superioridade me dá a sensação de ter direito.
No entanto...

  • embora haja algo circunstancialmente diferente entre os seres, somos essencialmente iguais e nossa vida é infinita, por isso não há como conquistar mais vida do que já temos;

  • embora vivamos a ilusão de estar separados, somos de fato uma rede de relações vitais cujo movimento afeta a todos;

  • embora algo em mim possa me fazer sentir superior, isso não passa de miopia psicológica.
Se praticamos uma educação antidialógica e paternalista, mesmo que chamemos de educação espírita e democrática, não somos em nada diferentes do que se pratica por aí. Nem mesmo em nome dos mais elevados propósitos justifica-se educar como sinônimo de conquistar - o que mtas vezes se faz -, porque educar mesmo tem apenas uma meta, que é a liberdade.
Vc tb pode assistir este video: http://br.youtube.com/watch?v=UUxmjasOZJk (Adorei, Beto, tks!)

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Sensibilidade e grosseria

A Lúcia do beleza invisivel disse que tô cada vez mais ariana. (Depois me explica, viu? - rsrs.)
Ela tava comentando o post Ir e vir e o comentário dela tá lá. Tb fico pensando sobre isso. Mas não consigo crer que seja grosseria usar o direito de ir e vir, ou ao menos que tenha de ser.
Primeiro, tem modos e modos de levantar e sair e, segundo, tem as neuras de quem fica.
Sobre os modos de sair, cada um tem o seu e isso não lhe tira o direito de fazê-lo. E há um gradiente de sensibilidade que funciona nessas horas, mas que é a sensibilidade que se desenvolveu efetivamente e se é capaz de usar. Não é preciso ser grosseiro(a) ao sair.
Só que também não se trata de afetação. Afetação e sensibilidade são bem distintas. Tentar ser elegante quando sua alma não desenvolveu muita elegância espiritual própria é o que caracteriza a afetação.
Então, o que é preferível, um grosso sincero ou um afetado hipócrita? Como palestrante, prefiro o primeiro tipo...
Sobre as neuras de quem fica, quando eu saio porque não tô gostando ou não me sinto bem, é problema meu comigo. Quando o outro fica bolado, é problema dele com ele. Falando como palestrante, se todo mundo começa a levantar e sair da minha palestra, talvez teja na hora de eu refletir sobre o que tenho dito.
Se vc é educador, o que prefere? Um aluno que finge entrar no jogo proposto mas não põe sua alma no que tá fazendo, embora fique ali e siga suas instruções? Ou um aluno que até age com certa grosseria (teria tido algum exemplo melhor?) mas é sincero e com quem vamos conversando, na verdade e pela verdade, pra que ele vá percebendo o valor da sensibilidade e da elegância espiritual?

domingo, 5 de outubro de 2008

Ir e vir

Ir e vir é um direito de que os presos e condenados estão privados mas que, hipoteticamente, outras pessoas possuem. Será?

Dia 30 de setembro aconteceu assim. Ia ter uma atividade cultural, tinha 3 crianças convidadas que haviam lido um livro e iriam conversar com a autora. Eu seria a mediadora.

No dia combinado, uma das crianças disse que não ia participar. Bem, é previsível esse tipo de coisa. O que houve com essa criança foi anunciado pela monitora como um "probleminha". Ela disse outra vez que não iria e a monitora perguntou aos outros se eles não tinham algo pra lhe dizer. Foram muitas falas legais, gostei daquela: "vc se arrepende daquilo que não faz". Mas a criança continuava retraída.

Então fiz um acordo com ela, combinamos que sentaria na cadeira mais perto da porta e, se não estivesse gostando nem se sentisse bem, podia levantar e sair, que ninguém diria nada. Aí, ela foi e fez assim.

No diálogo, aos poucos, foi ficando mais à vontade, falou bastante, demonstrou uma grande inteligência que deu a entender que tavam tratando como criancinha alguém que tá passando a perna nos adultos há tempo!!...

Mas o que me deixou pensando nisso foi eu ter que dizer uma coisa que tá implícita em qualquer situação, em qualquer atividade humana: se não tô gostando e não me sinto bem, eu me levanto e saio.

Pensei no constrangimento que isso costuma causar, nas mais diversas situações sociais, pelo fato de não se saber que isso é liberdade de ir e vir, direito de todos os cidadãos livres do mundo. Ninguém devia precisar ser avisado de que tem esse direito.

Bem, o que essa criança tá fazendo é lidar com estruturas de autoridade que não esclarecem direitos. Ela vem driblando muito bem, até agora. Mas se permitimos que ela aprenda esse subterfúgio, estamos sendo realmente educadores?