
Em 1927, um grupo de físicos reunidos em Bruxelas para a Conferência de Solvay (ver imagem) e que incluía Paul Dirac, Wolfgang Pauli, Niels Bohr e Werner Heisenberg aproveitou um momento descontraído na sala de estar do hotel para conversar sobre a compatibilidade ou incompatibilidade entre a ciência e a religião. O diálogo, em saudável argumentação nos moldes da maiêutica platônica, é relatado em capítulo do livro A parte e o todo, de Heisenberg.
Em 1952 - 25 anos mais tarde - o assunto seria retomado por Pauli, Bohr e o próprio Heisenberg, que participavam de um grupo de cientistas reunidos em Copenhague com a finalidade de discutir a construção de um acelerador de partículas na Europa. Nos dois encontros, Werner Heisenberg expôs seu pensamento sobre uma certa "ordem central" existente no Universo, que denota sua forte convicção a respeito da existência de uma inteligência e intenção agindo em favor da harmonia e do bem de todas as coisas - um poder que costumamos chamar de Deus.
A crença na existência de Deus não é uma questão meramente subjetiva
Para Heisenberg, a relação com a ordem central não é meramente pessoal e subjetiva (cf. 1996, p.103), conforme disse ele mesmo que propunha Max Planck. Esse pensamento criaria uma cisão entre os domínios objetivo (campo da ciência) e subjetivo (da religião e dos valores), impedindo a interação entre os dois domínios, impedindo que as consequências de um deles afetassem o outro. Refere-se, como veremos mais adiante, à relação entre fatos e valores que definem condutas. E afirma: "Duvido que as sociedades humanas possam viver com uma distinção tão nítida entre conhecimento e fé" (1996, p. 102).
Pauli observa que foi precisamente a idéia de um mundo objetivo "seguindo seu rumo no tempo e espaço com leis causais estritas, que produziu um choque entre a ciência e as concepções espirituais" (1996, p.103). Diz ainda que é comum as religiões usarem linguagem das analogias e parábolas para expressar conceitos de forma vaga, e que algum dia essas analogias e parábolas perderão sua força persuasiva na cultura ocidental, até mesmo para o homem comum.
Bohr compara então a linguagem da religião à da poesia a qual tendemos a considerar como referente a sentimentos subjetivos, mas que a divisão entre domínio subjetivo e objetivo não nos leva a lugar algum e que o fato da linguagem da religião ser vaga não significa que não trate de uma realidade autêntica. Bohr conclui sua fala dizendo que a linguagem objetivadora ainda era passível de ser utilizada na física clássica, mas na quântica todo processo tem aspectos objetivos e subjetivos, que frequentemente só podem ser descritos em forma de metáforas e analogias. Em 1952, Bohr sintetizaria seu pensamento na frase: "a teoria quântica oferece-nos uma esplêndida ilustração de que é possível compreender plenamente uma ligação, embora só possamos falar dela por imagens e comparações" (1996, p.244). A própria quântica só se desenvolveu porque deixou de observar fatos, aos quais se apegam os positivistas em sua visão de ciência, para aplicar princípios da razão.
"Eu consideraria um absurdo afastarmos os problemas e idéias dos antigos filósofos, simplesmente por ser impossível expressá-los numa linguagem mais precisa" (id., p.246), diria Heisenberg. E com ele concordaria Paul Feyerabend, ao defender a necessidade de não nos atermos ao fato de uma tese haver sido rejeitada, mas de buscarmos as razões históricas e culturais dessa rejeição e de verificarmos sua plausibilidade no momento presente.
Razão objetiva
Isso nos leva a uma outra proposição de Heisenberg: de que o intelecto é uma realidade objetiva, conforme trecho citado por GANOCZY (cf. 2005, p. 33), que entende que o intelecto seria até mais objetivo e real que os fatos materiais, uma vez que os ordena e se manifesta por meio deles. Essa noção é corroborada pelo trecho onde ele afirma :
em última análise, todas as antigas religiões nascidas antes da ciência moderna, tentam expressar os mesmos conteúdos, as mesmas relações (...) . Os positivistas talvez tenham razão em pensar que, hoje em dia, é difícil conferir um sentido a estas parábolas. Não obstante, devemos fazer todos os esforços para captar esse sentido, já que obviamente ele se refere a um aspecto crucial da realidade (1996, p.246)
Pauli então pergunta qual é o critério de verdade da ciência. Heisenberg utiliza duas metáforas do comportamento humano aplicadas à natureza: "intenções" e "ordens". E aqui chegamos a um terceiro aspecto da tese do físico. A concepção de Heisenberg dessa 'ordem central', a que nos referimos acima, caracteriza-se por uma idéia do "divino" como unificador dos processos universais e que procura efetivar a realização de um plano. "Seria mesmo um absurdo buscar, por trás das estruturas ordenadoras deste mundo, uma 'consciência' cujas 'intenções' fossem essas mesmas estruturas?", pergunta ele. Onde tudo se conecta
Fatos em si mesmos nada representam se não lhes atribuímos um sentido. Sentido dos fatos, sentido da existência. A busca do ser humano por conhecimentos também visou sempre determinar o que devemos fazer, o que devemos procurar e como devemos nos comportar. O conhecimento então é um problema humano e diz respeito ao humano, segundo Heisenberg. "Diz respeito à bússola com que devemos pilotar nosso barco, se quisermos traçar um curso correto pela vida afora." (1996, p.248)
Sendo a razão um fato objetivo, "mesmo quando tentamos sondar o campo subjetivo, não podemos ignorar a ordem central, ou encarar as formas que povoam este campo como frutos do acaso ou como artificiais (...) O poder do uno pode ser depreendido do próprio fato de pensarmos no ordenado como bom e no confuso e caótico como ruim". (id., p.249)
De acordo com o físico, "na ciência, pode-se reconhecer a ordem central pelo fato de podermos usar metáforas como 'a natureza foi feita de acordo com tal plano'. É nesse contexto que minha idéia da verdade se relaciona com o conteúdo efetivo da experiência religiosa. Sinto que essa relação se tornou muito mais evidente desde que compreendemos a teoria quântica". (id., ibid.)
Assim, podemos deixar de pensar nos valores como um terreno puramente subjetivo e na religião como única fonte de valores para pautar-nos por princípios extraídos, não de preceitos desta ou daquela religião, mas de uma visão científica da existência. Uma moral de base racional e científica.
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Bibliografia
GANOCZY, A. Vastidões infinitas: visão de mundo científica e fé cristã. São Paulo: Loyola, 2005.
HEISENBERG, W. A parte e o todo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.