domingo, 5 de outubro de 2008

Ir e vir

Ir e vir é um direito de que os presos e condenados estão privados mas que, hipoteticamente, outras pessoas possuem. Será?

Dia 30 de setembro aconteceu assim. Ia ter uma atividade cultural, tinha 3 crianças convidadas que haviam lido um livro e iriam conversar com a autora. Eu seria a mediadora.

No dia combinado, uma das crianças disse que não ia participar. Bem, é previsível esse tipo de coisa. O que houve com essa criança foi anunciado pela monitora como um "probleminha". Ela disse outra vez que não iria e a monitora perguntou aos outros se eles não tinham algo pra lhe dizer. Foram muitas falas legais, gostei daquela: "vc se arrepende daquilo que não faz". Mas a criança continuava retraída.

Então fiz um acordo com ela, combinamos que sentaria na cadeira mais perto da porta e, se não estivesse gostando nem se sentisse bem, podia levantar e sair, que ninguém diria nada. Aí, ela foi e fez assim.

No diálogo, aos poucos, foi ficando mais à vontade, falou bastante, demonstrou uma grande inteligência que deu a entender que tavam tratando como criancinha alguém que tá passando a perna nos adultos há tempo!!...

Mas o que me deixou pensando nisso foi eu ter que dizer uma coisa que tá implícita em qualquer situação, em qualquer atividade humana: se não tô gostando e não me sinto bem, eu me levanto e saio.

Pensei no constrangimento que isso costuma causar, nas mais diversas situações sociais, pelo fato de não se saber que isso é liberdade de ir e vir, direito de todos os cidadãos livres do mundo. Ninguém devia precisar ser avisado de que tem esse direito.

Bem, o que essa criança tá fazendo é lidar com estruturas de autoridade que não esclarecem direitos. Ela vem driblando muito bem, até agora. Mas se permitimos que ela aprenda esse subterfúgio, estamos sendo realmente educadores?

Um comentário:

Lucia Fontes disse...

Ritoca, já ouvi meu pai dizer uma frase várias vezes: ninguém tem compromisso com o que não gosta. A frase é muito interessante, mas ele não a pratica. Vive se estressando porque a boca dele diz sim quando a mente e o coração querem dizer não. Esse não é um "problema" só dele, muitas pessoas fazem coisas com medo de desapontar ou necessidade de agradar. O próximo. Me questiono até que ponto isso é válido. Temos medo de expor nossas opiniões, temos medo de dizer não. A última mensagem que coloquei no meu blog fala justamente sobre sinceridade e a linha tênue que a separa da grosseria. É interessante perceber como as pessoas valorizam a sinceridade, mas na primeira resposta sincera que você dá elas viram a cara para você. Se não tô gostando, não tô me sentindo bem, levanto e saio. É um direito de todos. Mas como fica "o que os outros vão pensar de mim?" É muito triste ver que a criança já está adquirindo, pelo exemplo, um hábito. Você diz que ela está lidando com estruturas de autoridade que não esclarecem direitos. Como é que os adultos podem esclarecer esse direito se nem eles o usam? Se eles nem têm consciência que existe. Muitos adultos até têm consciência desse direito, até falam dele, mas não agem de acordo. O que a criança está fazendo é adquirir um hábito pelo exemplo. É muito verdadeira a frase "mais vale um grama de exemplos do que uma tonelada de conselhos". Com certeza a criança está convivendo com pessoas que não exercem esse direito. Você questiona: se permitimos que ela aprenda esse subterfúgio, estamos sendo realmente educadores? Pode ser que não, mas antes de falar, precisamos olhar para dentro de nós e ver que tipo de exemplo estamos passando. Falar, permitir ou não, não adianta. A criança vai fazer aquilo que fazemos. Por isso que sempre defendi a responsabilidade enorme que é ser pai, mãe, educador(a). Não temos que ser perfeitos, mas temos que nos conhecer e ter consciência de que aquela pequena vida que se forma, embora traga sua própria bagagem, também depende do que fazemos para moldar sua personalidade, seu futuro, sua evolução.