domingo, 31 de maio de 2009

Topografia de uma realidade não comum


Escolhi a expressão "realidade não comum", porque se coadunava com a afirmação de dom Juan, de que esses encontros se realizavam numa continuidade de realidade, uma realidade que era apenas ligeiramente diferente da realidade comum da vida cotidiana. Conseqüentemente, a realidade não comum tem características específicas que podem ser avaliadas supostamente em termos iguais para todos. Dom Juan nunca formulou essas características de maneira definida, mas sua reserva parecia originar-se da idéia de que cada homem tinha de reivindicar o conhecimento como assunto de natureza pessoal. (C. Castaneda, em A erva do diabo; vermelhos meus)


Ao tempo em que fazia curso de graduação e estudava mecânica quântica, eu e meus colegas passávamos horas discutindo assuntos esotéricos do tipo: poderá um elétron estar realmente em dois lugares ao mesmo tempo? Eu conseguia aceitar que um elétron pudesse estar em dois lugares ao mesmo tempo; a mensagem da matemática quântica, embora cheia de sutilezas, é inequívoca a esse respeito. Mas um objeto comum — digamos, uma cadeira ou uma mesa, objetos que denominamos de "reais" — comporta-se também como um elétron? Será que se transforma em ondas e começa a espalhar-se à maneira inexorável das ondas, em todas as ocasiões em que não o estamos observando?

Objetos que vemos na experiência do dia-a-dia não nos parecem comportar-se das maneiras estranhas comuns à mecânica quântica. Subconscientemente para nós é fácil sermos levados acriticamente a pensar que a matéria macroscópica difere de partículas microscópicas — que seu comportamento convencional é regulado pelas leis newtonianas, que formam a chamada física clássica. Na verdade, numerosos físicos deixam de quebrar a cabeça com os paradoxos da física quântica e sucumbem à solução newtoniana. Dividem o mundo em objetos quânticos e clássicos — o que me acontecia também, embora eu não me desse conta do que fazia. (Prefácio de Fred Alan Wolf para O universo autoconsciente, de Amit Goswami)


Ingênua e incoerente: assim pode ser considerada a concepção que a ciência materialista nos tem apresentado da realidade. Possivelmente, porque ela faça questão de se manter firme a contemplar uma estreita fatia desta realidade. Ela têm evidentemente uma "metafísica", embora possa dizer que detesta esta palavra. Metafísica que decide "o que há", como esta que divide o mundo em objetos 'clássicos' e 'quânticos', e rejeita a outra metafísica dos que admitem níveis de realidade que poderiam ser considerados níveis espirituais, não comuns, alternativos.

A pergunta que se impõe, então, é: o que torna o realismo dos materialistas melhor, mais satisfatório que o daqueles que afirmam conhecer e desvendar outras realidades?

Para mim, parece uma simples questão de escolha teórica, que Kuhn atribuiria à adesão de uma comunidade científica que preza certos valores e despreza outros. E o fato da relação com o conhecimento ser de natureza pessoal, assim como Castaneda escreve, transparece nas palavras de Goswami, no livro citado:

Mudaram as circunstâncias em que eu vivia e — após um sem-número de crises de ressentido estresse, que me caracterizaram a carreira competitiva na física—comecei a lembrar-me da alegria que a física outrora me dera. Compreendi que devia haver uma maneira alegre de abordar o assunto, mas que precisava restabelecer meu espírito de indagação sobre o significado do universo e abandonar as acomodações mentais que fizera por motivo de carreira. Foi muito útil neste particular um livro do filósofo Thomas Kuhn, que estabelece uma distinção entre pesquisa de paradigma e revoluções científicas, que mudam paradigmas. Eu fizera minha parte em pesquisa de paradigmas; era tempo de chegar à fronteira da física e pensar em uma mudança de paradigma.

Se considerarmos que escolhemos o que consideramos como real e que esta escolha se prende a nossas crenças e valores, não há porque defender que uma ciência materialista haveria de ser melhor do que uma ciência espiritualista, que aquela que separa é superior àquela que integra, que aquela que ignora/nega um sentido maior por trás da realidade visível seria superior àquela que consegue enxergá-lo.

Afinal, para qual realidade a ciência deve olhar?


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