Alguém numa estrada nos pede uma informação. A possibilidade de dá-la pressupõe um código comum. Se eu disser "vá para o Norte nos próximos 50 km, depois entre à direita", estou supondo que esse alguém tenha uma noção igual à minha dos pontos cardeais, do sistema numérico, das unidades de medida de distância e de lateralidade. Se ele fosse um ET sem estes referenciais, nós teríamos um problema, pois teríamos de encontrar uma linguagem que mediasse nossa comunicação. Poderíamos ser mais ou menos bem sucedidos nisso.
Quando penso num outro domínio de realidade, penso em outra linguagem (ou na sua desnecessidade). De qualquer maneira, comunicar o que nele vi a outra pessoa do meu mundo cotidiano é um processo que sofre certas limitações. Os Espíritos sempre lembravam Kardec da dificuldade de dizer o que se passava no mundo espiritual em termos de linguagem terrena. Nossa linguagem reflete nossa limitação e nossa possibilidade, que aqui podem ser considerados sinônimos.
No entanto, a linguagem não surge apenas na transmissão de um informe. A linguagem condiciona minha percepção desde o princípio. Os xamãs do México antigo sabiam disso.
O nominalismo presente nesta afirmação, onde se assume que as realidades abstratas são construtos humanos e não têm existência independente, pode levar a supor que tudo o que não é concreto é um construto.
Mas não é o que ocorre. 'Universidade' é como interpretamos uma certa configuração de fatores humanos e físicos, de propósitos e funções. Se a universidade não existisse, nós ainda estaríamos por aqui.
Porém, a coisa é diferente quando se fala de energia, de amor, de verdade, bem ou Espírito. Estas noções não surgem de nossa interação social, mas preexistem na forma de leis constitutivas do Universo. Por isso, ao ultrapassar o domínio comum da realidade, estamos em contato com uma outra realidade. A forma como ela se apresenta é, no dizer de dom Juan, "direta". Embora se possa imaginar níveis ainda mais sutis de realidade que é metamorfoseada em verdade, amor e energia, a experiência do amor não é uma descrição ou uma narração, não é passível de ser transmitida, apenas sentida e expressa "energeticamente". É fácil perceber isso: o tipo de mudança que o amor impõe à conduta não tem a ver com palavras, mas com maneiras de sentir e de agir a partir do que se sente.
O cognoscente
Na teoria do conhecimento que se depreende dos ensinamentos de dom Juan, o cognoscente (sujeito do conhecimento) não é um ser com objetivos aleatórios. Embora suas escolhas existam e tornem seu caminho mais ou menos fácil, mais ou menos prazeroso, mais ou menos generoso, há o que se considera um intento no Universo, algo que o Espiritismo chamou de Lei do Progresso e que Calunga ajudou-me a estudar como "impulsos da alma". Pode se dizer que os seres orgânicos e inorgânicos são manifestações de seres inteligentes em evolução anímica ou espiritual (no Espiritismo, individualizações do princípio inteligente; no Hinduísmo, jivas).
O papel restritivo da cultura nos remete à questão da linguagem que mencionei inicialmente. Contudo, se abrir mão de meus códigos habituais, se entendê-los como restrições e deliberadamente os ignorar, resistindo às tentativas de nomear e classificar imediatamente o que sinto/percebo, posso deparar-me com fatos passíveis de serem apreendidos "diretamente".
Dom Juan sustentava que liberar a capacidade perceptiva total dos seres humanos não interferiria de nenhuma forma em seu comportamento funcional. Na verdade, o comportamento funcional poderia se tornar um resultado extraordinário, porque iria adquirir um novo valor.
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