quinta-feira, 28 de maio de 2009

Dom Juan, vermelhos meus, anotações para uma teoria do conhecimento



Depois de anos de esforço para manter as fronteiras da minha personalidade intactas, elas sucumbiram. (C. Castaneda, em A erva do Diabo)

Alguém numa estrada nos pede uma informação. A possibilidade de dá-la pressupõe um código comum. Se eu disser "vá para o Norte nos próximos 50 km, depois entre à direita", estou supondo que esse alguém tenha uma noção igual à minha dos pontos cardeais, do sistema numérico, das unidades de medida de distância e de lateralidade. Se ele fosse um ET sem estes referenciais, nós teríamos um problema, pois teríamos de encontrar uma linguagem que mediasse nossa comunicação. Poderíamos ser mais ou menos bem sucedidos nisso.

Quando penso num outro domínio de realidade, penso em outra linguagem (ou na sua desnecessidade). De qualquer maneira, comunicar o que nele vi a outra pessoa do meu mundo cotidiano é um processo que sofre certas limitações. Os Espíritos sempre lembravam Kardec da dificuldade de dizer o que se passava no mundo espiritual em termos de linguagem terrena. Nossa linguagem reflete nossa limitação e nossa possibilidade, que aqui podem ser considerados sinônimos.

No entanto, a linguagem não surge apenas na transmissão de um informe. A linguagem condiciona minha percepção desde o princípio. Os xamãs do México antigo sabiam disso.

Dom Juan, por exemplo, me alertou para o fato [de] que meu mundo cotidiano não era regido pela minha percepção, mas pela interpretação da minha percepção. (...) Ele disse que universidade não era algo que eu podia perceber com meus sentidos (...). Universidade acontecia somente no meu intentar, e para que eu pudesse construí-la ali, precisava de tudo que sabia como uma pessoa civilizada, de uma forma consciente ou subliminar.

O nominalismo presente nesta afirmação, onde se assume que as realidades abstratas são construtos humanos e não têm existência independente, pode levar a supor que tudo o que não é concreto é um construto.

Mas não é o que ocorre. 'Universidade' é como interpretamos uma certa configuração de fatores humanos e físicos, de propósitos e funções. Se a universidade não existisse, nós ainda estaríamos por aqui.

Porém, a coisa é diferente quando se fala de energia, de amor, de verdade, bem ou Espírito. Estas noções não surgem de nossa interação social, mas preexistem na forma de leis constitutivas do Universo. Por isso, ao ultrapassar o domínio comum da realidade, estamos em contato com uma outra realidade. A forma como ela se apresenta é, no dizer de dom Juan, "direta". Embora se possa imaginar níveis ainda mais sutis de realidade que é metamorfoseada em verdade, amor e energia, a experiência do amor não é uma descrição ou uma narração, não é passível de ser transmitida, apenas sentida e expressa "energeticamente". É fácil perceber isso: o tipo de mudança que o amor impõe à conduta não tem a ver com palavras, mas com maneiras de sentir e de agir a partir do que se sente.

O cognoscente

Na teoria do conhecimento que se depreende dos ensinamentos de dom Juan, o cognoscente (sujeito do conhecimento) não é um ser com objetivos aleatórios. Embora suas escolhas existam e tornem seu caminho mais ou menos fácil, mais ou menos prazeroso, mais ou menos generoso, há o que se considera um intento no Universo, algo que o Espiritismo chamou de Lei do Progresso e que Calunga ajudou-me a estudar como "impulsos da alma". Pode se dizer que os seres orgânicos e inorgânicos são manifestações de seres inteligentes em evolução anímica ou espiritual (no Espiritismo, individualizações do princípio inteligente; no Hinduísmo, jivas).

(...) Estamos sendo continuamente puxados, empurrados e testados pelo próprio universo. Para eles [os xamãs do México antigo] era um fato energético que o universo em geral é predatório ao máximo. (...) A condição predatória do universo significava que o intentar do universo é estar continuamente testando a consciência. (...) Exercendo pressão sobre todos esses seres [orgânicos e inorgânicos], o universo os força a expandir a própria consciência deles, e dessa forma o universo se esforça para se tornar mais consciente de si próprio. No mundo cognitivo dos xamãs, portanto, a consciência é o resultado final.

Dom Juan Matus e os xamãs de sua linhagem consideram consciência como o ato de estar deliberadamente consciente de todas as possibilidades perceptivas do homem, não apenas as possibilidades perceptivas ditadas por qualquer determinada cultura, cujo papel parece ser o de restringir a capacidade perceptiva de seus membros.

O papel restritivo da cultura nos remete à questão da linguagem que mencionei inicialmente. Contudo, se abrir mão de meus códigos habituais, se entendê-los como restrições e deliberadamente os ignorar, resistindo às tentativas de nomear e classificar imediatamente o que sinto/percebo, posso deparar-me com fatos passíveis de serem apreendidos "diretamente".

Dom Juan sustentava que liberar a capacidade perceptiva total dos seres humanos não interferiria de nenhuma forma em seu comportamento funcional. Na verdade, o comportamento funcional poderia se tornar um resultado extraordinário, porque iria adquirir um novo valor.

Se a energia flui de uma certa maneira, seguir o fluxo da energia é, para eles, ser funcional. Função é, portanto, o denominador comum através do qual os xamãs encaram os fatos energéticos de seu mundo cognitivo.

Uma epistemologia pergunta-se sobre o objeto do conhecimento. O conhecimento dos xamãs do México antigo parte da percepção dos fatos energéticos. Quer dizer, existe além das aparências da realidade que compartilhamos em estado comum de consciência, um fluxo, uma vibração, algo que é vislumbrado ao ser focado, mesmo em nossa vida cotidiana, mas que adquire uma condição de exacerbada presença num estado alterado, desde que pelos meios que ele sugere e com um propósito definido.

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