segunda-feira, 18 de maio de 2009

A mediunidade e os teosofistas


Por Alice Krondcs (publicado na Revista Universo Espírita 56)


Oxford, Inglaterra, agosto de 2008


Maninho Saulo, quanta saudade!

Soube que se divertiu muito nos Estados Unidos, enquanto eu concluía minha tese, aqui em Oxford. Na sua carta, você diz que conheceu um grupo, que esteve lendo sobre teosofia e anda interessado em HPB, como os teosofistas costumam se referir a Helena Petrovna Blavatsky (1831-1891, foto ao lado), fundadora da Sociedade Teosófica.
Quer dizer, meu irmão, que andaram lhe perguntando sobre a possibilidade da comunicação dos Espíritos? É que os teosofistas não aceitam a prática da mediunidade, baseados principalmente na teoria dos “cascões astrais”, legada por HPB.
Segundo ela, cascões astrais seriam espécies de “cadáveres espirituais” deixados por Espíritos que desencarnam, que vagariam com uma vida fictícia e absorveriam a energia dos médiuns. Se fosse possível falar em termos espíritas, seria como se o perispírito (ou parte dele) fosse descartado e ainda pudesse aparecer nas reuniões mediúnicas, manifestando-se como um Espírito desencarnado.
Bem... Blavatsky foi uma mulher inteligente e tinha um projeto respeitabilíssimo. Ela entendia amplamente os males, tanto do materialismo, quanto da cegueira instituída pelas religiões institucionalizadas.
Mas não precisamos abraçar incondicionalmente o que foi escrito por seres humanos, por mais inteligentes, bem intencionados e inspirados que eles sejam.
Equivocar-se não é um demérito para HPB, nem para sua obra. Pelo contrário, mostra que todos aqueles que se propõem a trabalhar pelo esclarecimento da Humanidade estão sujeitos a enganos. Não seria um jugo pesado demais ter a obrigação da infalibilidade?
Sua definição de médium, no Glossário Teosófico, revela várias discrepâncias com o entendimento espírita: O médium é um instrumento passivo de influências estranhas, enquanto o adepto [da teosofia] exerce de modo ativo seu poder sobre si mesmo e sobre todas as potências inferiores. (Ísis Sem Véu, II, 588) Na mediunidade, o indivíduo, por ser passivo, está exposto à influência de qualquer entidade astral que se encontre nas imediações. Normalmente, é inconsciente; não sabe o que se faz através de seu organismo nem quem o faz; não recorda nada ao despertar de sua espécie de sono. Seu estado é aquele de uma verdadeira obsessão. Por outro lado, os melhores médiuns físicos são pessoas doentes, neuróticas, histero-epiléticas ou, o que é ainda pior, propensas a algum vício anormal.
O que Blavatsky diz deve basear-se na sua vivência e observação pessoais, mas não resiste a uma análise mais profunda. Sabemos, por grande lastro de experiência e pesquisa, que o médium não é um ser passivo durante o fenômeno, mas tem domínio sobre si, decidindo a hora, lugar e oportunidade de intermediar uma comunicação de Espíritos. O médium incapaz deste domínio é alguém que, precisa educar-se ou, então, passa por grave processo obsessivo – e precisa educar-se! Ao mesmo tempo em que se educa o Espírito obsessor.
Sobre a saúde mental dos médiuns, pergunto: você viu a tese de doutorado de Alexander Moreira de Almeida, defendida na USP em 2005, na qual, entrevistando médiuns atuantes em reuniões espíritas, ele constatou “alto nível socioeducacional, baixa prevalência de transtornos psiquiátricos e razoável adequação social”?
Quanto aos Espíritos, se seriam ou não “cascões”, o estudo mais acurado das comunicações e de outros fenômenos mostra que são manifestações de seres dotados de faculdades intelectuais plenas, são capazes de reflexões profundas e, muitas vezes, estão mais adiantados moral e intelectualmente do que quando estiveram encarnados. Não se pode falar, portanto, que o que se manifesta é um “pedaço astral” daquilo que foram no passado. O que você acha?
Escreva se tiver mais alguma questão e tentarei ajudar.

Um grande beijo,

Alice Krondcs

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