A única coisa que é comum a todos nós é que Mescalito revela seus segredos em particular a cada homem. - Claro que não consegue compreender - falou. - Você está tentando pensar a respeito, e o que eu disse não se coaduna com seus pensamentos.
- Estou tentando pensar a respeito, porque esse é o único meio pelo qual eu, pessoalmente, consigo entender alguma coisa.
(Trechos de Uma estranha realidade, de Carlos Castaneda)
Sua mente é limitada apenas por causa do seu próprio conceito da sua limitação.
Diga a você mesmo que apenas mantém crenças limitadas, em vez de tomá-las como definitivas.
(Trechos de palestras do Guia de Eva Pierrakos em O caminho da autotransformação)
Um esquema visual como esse aí pode ajudar a conceber coisas abstratas.
A idéia da evolução como espiral não é nova. Ela explicita a ampliação do entendimento da verdade durante o processo evolutivo que se inicia nos reinos inferiores, atravessa a fase humana e continua indefinidamente.
Amplia-se a compreensão espiritual das leis e processos inerentes à vida, e também a possibilidade de ação.
Um dos instrumentos importantes para essa ampliação é a mente, nossa ferramenta de apreensão de conceitos. Na fase humana, pensando primeiro o concreto e depois o abstrato, desenvolvemos noções de coerência, lógica, memória e raciocínio, que se tornam importantes no aprendizado e no estabelecimento de critérios para nossos juízos e escolhas.
A natureza eminentemente expansiva da mente garante que o processo não venha a cessar.
Ela, contudo, tem no presente o alcance dos conceitos que somos capazes de apreender. Seu 'tamanho' tende a ampliar-se, mas ao mesmo tempo é muito tentador confiar exclusivamente nas suas ferramentas (ou naquilo que ela contém atualmente) para nos pautarmos na vida. Note-se contudo que o apego a idéias e raciocínios presentes pode tornar-se impeditivo da apreensão de novas idéias e raciocínios que se aplicam além de nosso entendimento limitado.
É natural, então, que tenhamos certos conceitos sobre as coisas e os tomemos como definitivos, conceitos como felicidade, conforto, paz, segurança etc., que servem e se encaixam perfeitamente no esquema de uma mente limitada (representada pelo círculo pontilhado). Mas aquilo que hoje entendemos por felicidade é a felicidade, de fato? Ou podemos sair da rigidez de nossos limites presentes e abrir a mente para novas possibilidades? Se aquilo que tenho como segurança pressupõe as condições da vida material que tenho, seria impensável uma outra idéia de segurança que nascesse de uma percepção maior das leis universais e da potencialidade de nosso futuro como Espíritos?
Um exemplo de fatos que estão além da compreensão racional é a própria sincronicidade, e ela vive acontecendo, do mesmo modo que aconteceu anteontem. Eu não tinha nenhuma necessidade, nem um motivo racional, para terminar o livro da Pierrakos e pegar o do Castaneda no ponto que havia parado há quase um mês. Não tinha, mas acabei fazendo, o que levou a ler páginas onde os trechos acima me chamaram a atenção.
Eles falam de teoria do conhecimento, meu interesse principal em filosofia. De como conhecemos as coisas e de como somos privados de conhecer mais pelas próprias limitações. Limitações provisórias, do nosso estado presente de desenvolvimento mental.
Aquilo sobre o que consegue pensar é um limite para Castaneda, pois ele considera esse o único meio de entender algo. Contudo, a mente é limitada pelo próprio conceito de limitação, diz o Guia. Esta é a limitação do materialista, pode ser também a do espiritualista, é a limitação do filósofo e do cientista que se fecham em suas amarras conceituais. Por isso, Mescalito só pode falar em particular a cada um, com as imagens e palavras de cada um...
Qual a saída, para não ficar fechado na compreensão presente? Flexibilizar. Entender que nossos conceitos são provisórios.
Fico pensando, então, como propôs Hans (um amigo espiritual), que a trama dos raciocínios e coerências têm uma função importante, sim. Uma função de rede, não da rede que prende e impede o movimento, mas da rede que se estende sob o trapézio e que garante a segurança ao trapezista para suas evoluções. Sem tolher movimentos.
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