Por Rita Foelker, em 19/12/2014
(Este não é um texto contra os homens. Amo-os, aprecio sua companhia e pari dois. Não é um texto contra a Igreja Católica, nem contra quem a representa. E é só uma opinião, embora com certo fundamento.)
Um poema que me impressionou, gerou esta postagem. Escrito por Catarina de Siena, está transcrito n'"O Livro dos Símbolos" (ambos, nas fotos).
Símbolos me interessam desde sempre ou, pelo menos, desde que tomei contato com a obra de Jung e Mircea Eliade, na juventude.
Carros, motos, cavalos e obeliscos, por exemplo, são símbolos fálicos. Representam pênis. Tirei uma foto de uma escultura em areia, lá em Salvador/BA, onde temos um carro e um cavalo, que representam a mesma coisa, junto com duas mulheres com peitos e bunda exagerados de mulheres-frutas. Os homens em geral gostam de se cercar de coisas que os fazem sentirem-se mais "homens".
Já o obelisco é um símbolo egípcio que se encontra em várias partes do mundo, incluindo o nosso Ibirapuera em Sampa, e que também pode ser visto bem no centro da Praça de São Pedro, no Vaticano.
O que isso tem a ver com Catarina de Siena? Tudo. Mesmo estando num lugar que simboliza o Cristianismo, o obelisco da praça de São Pedro foi trazido do Egito por ninguém menos que o imperador Calígula e é um imenso símbolo fálico posteriormente enfeitado com um crucifixo. Uma sensualidade e uma violência, de algum modo, tornadas “bentas”, em razão disso?...
Ele não estava ali originalmente, foi colocado por um papa e Bernini projetou a praça e a colunata ao seu redor. Ele foi transportado até este lugar por uma razão. Talvez, não consciente. Como a que motivou o nosso artista na praia.
Olhando sobre o pano de fundo da Psicologia Analítica, o obelisco ali é um símbolo de potência masculina. Seja qual for a justificativa que se invente para ele. O que quero dizer é que quem o colocou nesse lugar destacado viu, na Igreja Católica, uma forma de institucionalização do poder masculino. O mesmo poder que difamou Maria de Magdala, ocultou da história o seu importante papel entre os primeiros discípulos de Jesus e colocou as criaturas divinas do sexo feminino em segundo plano, em relação aos homens (para saber mais, ler Elaine Pagels e outros pesquisadores da origem do Cristianismo).
Mulheres são certamente diferentes de homens, mas não são inferiores. Certo?
A Igreja perseguiu impiedosamente muitas curandeiras, acusadas de bruxaria. A mãe do astrônomo Johannes Kepler foi uma delas, fato que menciono no livro que escrevi.
Catarina de Siena, contudo, fala de uma divindade expressa na Natureza e as curandeiras eram precisamente mulheres que tinham uma relação próxima com a terra, as plantas e os animais, aquela relação citada na poesia, que tantos padres queriam eliminar, para se fortalecerem como intermediários entre as pessoas e Deus. Trocando o natural pelo artificial. Trocando o real pelo fictício.
E os padres mencionados por Catarina de Siena (talvez não todos, mas ela se referia a pelo menos alguns deles) representam isto: uma necessidade inventada de uma intermediação com o "Sagrado" que já estava na vida, que tantas outras culturas sentiram e viveram de maneiras bem mais espontâneas, na relação direta e respeitosa com a Natureza.
E como é uma questão de pessoas no poder - e não de instituições como um todo -, encontramos justamente Francisco de Assis, um santo da Igreja, que era um homem, em sua época, vivendo e propondo outro tipo de conexão com a vida e com a Natureza. Uma conexão nascida do coração “que já o sabe” (referindo a Catarina), sem precisar que ensinem ou religuem coisa alguma, porque já faz parte, ama e respeita.





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